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TERCEIRO ANEL
A HOSPEDARIA
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A casa da hospedaria representa uma estalagem de viajantes ou um relais de posta onde quem para por mau lance do destino deve passar a vez antes de tornar a jogar, o que parece significar que ela se torna uma armadilha se, em vez de ser uma breve etapa de passagem, nela se permanece.
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O companheiro passante que para na volta da França ou na via de São Tiago perde o toque de mão que faz o santo ofício.
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O cavaleiro errante que para em sua busca perde a nobreza que o impulsiona adiante; se ele larga a luz perseguida, cai em vergonha e covardia.
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É verdade que não existe boa estalagem senão aquela em que não se fica, e os relatos estão cheios de estalajadeiros que roubam e matam os que neles se demoram.
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Para usar sabiamente a hospedaria é preciso considerar-se como o hóspede, ou seja tanto aquele que é recebido quanto aquele que acolhe.
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A hospitalidade antiga considera que quem bate à porta é o mensageiro dos deuses, ou o próprio Cristo sob o hábito do mendigo, sendo mais sábio ver que é Deus que desce à morada de Deus.
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A etapa não é senão um relais para uma mudança de estado, sendo conveniente interrogar o deus dos viajantes e dos caminhos, Hermes ou Mercúrio, símbolo do processo iniciático e da maneira como a via faz nascer aquele que a segue.
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Hermes Trismegisto, ou Três vezes grande, é aquele que se mantém simultaneamente nos três mundos da terra, da lua e do sol, do corpo, da alma e do espírito.
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O deus rápido de pés alados procura o acesso simultâneo aos três planos da realidade graças a suas senhas que satisfazem os guardiões do limiar.
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Como patrono dos arautos e dos hermeneutas, Hermes fala também por rébus, blasonando os enigmas do mundo para melhor induzir e revelar seu deciframento, sendo o mestre do símbolo cuja função é passar o sentido em todos os sentidos e por todos os sentidos do homem.
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Mercúrio governa a inteligência, que é a faculdade de portar-se ao interior das coisas, de penetrar intimamente sua essência e sua quiddidade.
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É o atravessa-paredes das aparências e aquele que relaciona todo efeito à sua causa e a causalidade ao Princípio.
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Como inspirador dos Filósofos químicos, Hermes ensina as correspondências assonantes entre as estruturas e as forças que regem o macrocosmo e o microcosmo, sendo o que está em baixo como o que está em cima, expressando uma mesma Presença ordenadora imanente agindo em toda parte: o Agente universal.
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Hermes é também o deus dos ladrões, sendo voar entendido ao mesmo tempo como apropriar-se de tudo o que se capta ou compreende, como sendo a si mesmo e em si mesmo, e como não se apegar a nada além do sopro portador que passa em toda parte como chave de tudo.
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É o atributo de volatilizar o fixo para encontrar o Mercúrio universal ou filosofal.
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Os mercadores sempre são um pouco ladrões e viajam muito de feira em mercado, compreendendo-se a ternura particular do deus por essa categoria da humanidade, mas o comércio comporta outro sentido, o das inter-relações fluidicas que estão na raiz das trocas, seja da linguagem ou das afeições e afinidades.
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Quando se tem comércio com alguém, o deus das afinidades eletivas se mantém por trás.
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O comércio consiste em pagar em ouro, com o ouro solar que multiplica a riqueza.
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O atributo de Hermes é o galo, outro animal de galinheiro que se encontra voando no céu sobre os campanários, aquele que anuncia a alvorada, que a espreita durante a noite e que desperta os que dormem com seu canto.
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Talvez não se deva parar na hospedaria por muito tempo precisamente para manter a consciência em alerta e a atenção constante e vigilante do vigia.
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Essa é a função própria do guerreiro que terá sabido aprender do estalajadeiro toda a ciência de Hermes e adotar o elmo alado do deus.
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O homem da guerra santa ou o cavaleiro é sempre guardião e sentinela, o homem dos limites, das margens, das zonas de perigo e de contato com o inimigo, sendo que ao retornar o vocábulo latino miles se encontra limes, as marchas ou fronteiras.
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O guerreiro só pode estar onde está colocado porque encarna a conjunção dos opostos, do exterior e do interior, da ação e da contemplação, da errância aventurosa e do ancoramento na regra da honra.
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O cavaleiro espiritual não é nem clérigo nem laico: entre a piedade do laico e a união contemplativa do clérigo, sua vocação é cavalgar no entre-dois, no mundo intermediário entre céu e terra.
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Pela sensibilidade da alma e a intuição visionária que penetra esse mundo das imagens verdadeiras e das formas falantes, o nobre viajante está relacionado aos anjos que são os vigias e os mensageiros transmitindo as múltiplas teofanias do Deus Único Oculto.
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Ele é sua testemunha e decifra sua linguagem na natureza inteira que não é senão um imenso brasão das potências celestes.
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Poeta verdadeiro ouvindo a língua dos Deuses e menestrel das harmonias secretas, ele descobre e celebra no mundo as maravilhas do Esplendor do Rei.
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Essas maravilhas que o homem ordinário não pode encontrar aparecem somente ao olhar de um coração puro que percebe, no avesso das coisas, a luz vermelha de sua aurora primordial, sendo o Amor que as criou, e é pelo amor, o ímã e o revelador do núcleo espiritual da realidade, que elas se revelam e manifestam seu sentido.
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Entre o servidor e o filho mais velho, o cavaleiro, filho pródigo, é o Amigo de Deus, o Fiel de Amor, o companheiro da milícia angélica.
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Ele está assim encarregado de defender a Beleza da Criação, segundo a ordem gloriosa que lhe imprimiu o Artista divino na manhã do mundo.
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Para ser capaz disso, deve primeiramente revelá-la em si mesmo, ou seja encontrar seu anjo e descobrir assim seu nome verdadeiro, que é essa identidade celeste que todo guerreiro busca quando persegue a verdadeira glória: a de seu ser transfigurado.
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A alma ornada de beleza, força e sabedoria, que fundam sua honra, está apta a discernir no mundo essas três marcas divinas que balizam sua rota e alimentam sua busca.
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São as manifestações da glória divina irradiando no universo, às quais o herói dedica seus combates.
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A via heroica é antes de tudo uma via de conquista, sendo a busca uma pesquisa orientada mas também uma luta, tanto com o demônio quanto com o anjo, comportando necessariamente a errância e o combate como condições do encontro com Deus.
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É a aventura vivida que permite a irrupção na consciência e o advento na alma da Presença divina.
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Para obter esse face a face, o guerreiro deve ousar agir, se necessário fora dos preceitos normais, para medir-se com as forças em jogo no mundo, tenebrosas e luminosas.
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A via heroica passa por caminhos desviados e afastados, sendo essencialmente solitária, por oposição à do simples fiel fundido na assembleia ou à do monge unido no coro, e não seguindo as prescrições comuns impostas ao grande número nem a regra monástica.
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Ela obedece às injunções do Mestre interior, através de um código de honra que transcreve nos atos da vida cotidiana a busca da luz e o amor da beleza, visível ou invisível.
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Se existe uma doutrina e um método transmitidos com a ordem de cavalaria, pertence a cada um encontrar sua via própria em função das aventuras que encontra.
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Gustav Meyrink, em seu Das Grüne Gesicht, diz igualmente dos seres colocados à parte nessa via solitária que os homens que confiaram seu destino ao espírito que está neles mesmos dependem de uma lei espiritual e foram declarados maiores, escapando à tutela da terra.
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O que lhes acontece exteriormente toma um sentido que os empurra adiante.
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As aventuras e os encontros são então o espelho estendido pela Providência para conhecer a si mesmo e voltar a si, pois somente encontramos o que se assemelha a nós.
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A atividade do guerreiro é confiar-se, com coração puro, à guia dos anjos, e nunca tomar a hospedaria como um refúgio.
A VOUIVRE [DRAGÃO]
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A casa seguinte representa uma mulher nua cujo corpo, terminando em cauda de peixe enrolada, sai de uma tina cheia de água, penteando seus longos cabelos ondulados com a mão direita e se olhando em um espelho oval que segura na mão esquerda, sendo ela a vouivre ou mulher-serpente que se encontrava ainda outrora nas zonas rurais nas proximidades dos poços onde se esconde.
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A aventura essencial do guerreiro consiste em conquistar uma mulher, libertá-la e desposá-la.
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Ele deve encontrar três: a primeira tem o rosto de Ceres ou das forças da natureza, a segunda o de Vênus ou da beleza, a terceira o de Atena ou da sabedoria.
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A primeira mulher, tirada do lado de Adão, tinha esses três rostos e encarnava sua sabedoria, sua potência formadora e a força vital de sua alma, sendo através de Eva, desdobramento de suas energias fecundas, que o primeiro homem habitava o jardim e reinava sobre o mundo.
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Ela era a mediadora entre ele, imagem do Princípio criador, e a criação.
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Foi através da receptividade imaginativa e passiva da mulher que o príncipe deste mundo, a serpente, insinuou no homem a tentação de provar o fruto, ou seja, de assimilar os segredos da natureza e, ao se apoderar deles, tomar-se por seu demiurgo.
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Lúcifer havia querido apropriar-se da luz divina da qual era portador, e Eva, que era a face de Adão voltada para o mundo, incitou o primeiro homem a apropriar-se da substância da manifestação divina ela mesma, tornando-se assim escravo da ilusão do binário, da lei das ações e reações concordantes.
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Desde então, quem entra no caminho para reencontrar sua realeza original no Éden deve reconciliar o universo a Deus e para isso desposar a mulher, mediadora dessa união.
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Nenhum guerreiro ligado a essa obra de regeneração cósmica e espiritual pode alcançar seu fim se não reúne a face voltada ao Princípio com a face voltada à manifestação, o macho e a fêmea, reintegrando-os em seu estado primeiro.
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A mulher-serpente ou a sereia encarna a potência de sedução e de charme que absorveu Eva e tornou Adão escravo da lei exterior da natureza, sendo tentador para o jogador deixar-se seduzir por ela e acreditar em suas promessas, e contudo se ele não arrisca sua aposta, trapaceará com a regra e perderá a partida.
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A vouivre vale o desvio que faz tomar.
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Em seus anéis enrolados o homem é enrolado mas também desenrolado, posto a nu.
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Nenhuma arma existe contra o enlaçamento e a nudez, e nesse corpo a corpo o homem não tem que fazer da espada, sendo que fascinado e magnetizado ele é engolfado nos anéis da serpente, devorado até as entranhas.
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Resistir é falhar, abandonar-se é perder.
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Engolido no ventre do peixe-réptil, o segredo para ser salvo é permanecer inteiro, deslizando com o ponto microscópico da consciência de Si em vigília, enquanto tudo tomba na vertigem turbilhonária, como Jonas preservando a integridade de si mesmo nas entranhas da baleia.
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O que seduz é a atração das profundezas sem fundo, a fascinação do abismo, a embriaguez das sensações decuplicadas e desenfreadas, sendo preciso nelas mergulhar até os limites de si mesmo, entrar na dança da vouivre, lutar com a alma demoníaca, a fera das profundezas, da qual um guerreiro não escapa sem tê-la cavalgado.
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O medo está nas entranhas, e ali permanecerá enrodilhado enquanto não tiverem sido visitadas de alto a baixo, habitadas, experimentadas em toda a sua avidez.
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O medo nasce do terror do desconhecido, e um guerreiro só pode superá-lo tendo explorado seus covos, descido ao abismo e conhecido o magnetismo de sua vertigem.
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As lendas contam que a fada Melusina construía castelos em uma noite, sendo que a fascinação da beleza tem um poder petrificante e os sortilégios das aparências podem paralisar e amurar o mais corajoso.
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A sereia aparece ao cavaleiro impaciente de provar seu valor, ávido de aventuras e de conquistas, e lhe apresenta como dons do céu adquiridos por seus méritos os favores que lhe promete.
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Ela não é senão o espelho onde se objetivam as formas de seus desejos ocultos.
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O jogador é invencivelmente atraído a entrar no círculo das fadas, sendo uma fada aquela que encarna a raiz atuante da feminilidade, a potência magnética passiva contida nas energias potenciais da materia prima, na fluidez da possibilidade universal indiferenciada e da plasticidade pura.
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É esse indefinido sem limite, de formas incessantemente mutáveis ao sabor de seus caprichos, que cativa o homem.
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É a miragem inversa do infinito que somente pode satisfazer seu desejo.
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Rainha da noite, a fada governa os fluidos noturnos que são o ímã e o suporte permitindo a manifestação e a incarnação das formas e dos pensamentos, sendo que seu espelho mágico traz as imagens a revelar-se em sua superfície magnética e toda forma-pensamento a encontrar seu desfecho na aparência corporal.
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A noite provoca a condensação das forças dispersadas durante o dia e abole os limites das formas, chamando o nascer do sol.
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A mulher noturna, pelo apelo de seus abismos, empurra a luz do homem a manifestar-se, a inundá-la e a fecundá-la.
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A bruxa, animada por uma avidez captadora insaciável, usa esse poder magnético para ler os pensamentos, decifrar os segredos e apoderar-se das forças assim postas a descoberto, enquanto a fada dele se serve para revelar o homem a si mesmo, e como Viviane captura Merlin, traz sua força espiritual a estabilizar-se na corporalidade.
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Mas toda mulher vouivre é alternadamente fada ou bruxa.
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Depende daquele que a encontra ser suficientemente lúcido, hábil e forte para neutralizar seu aspecto maléfico e utilizar suas energias positivas.
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Melusina dá sempre a aparência da candura e da inocência, revestindo-se de brancura resplandecente e dissimulando no mais fundo de si mesma o antro mais negro que o negro onde se mantém sua morada e sua potência.
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O brilho de sua beleza é o de um espelho mágico que reflete e capta as imagens e os pensamentos daqueles que se aproximam.
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Esse espelho é por assim dizer poroso e age como um filtro: deixa penetrar o homem atraído pelo faíscar que, pensando possuir a fada e ler em sua alma, não faz em realidade a cada passo senão desvelar-se mais ao seu olhar pelo efeito transpassante dos raios refratados na superfície polida.
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Ao cabo desse enlaçamento, Melusina permanece inatingível, e a superfície dura e polida contra a qual bate o intruso é o derradeiro recinto intransponível: um muro de gelo cujo tain, do outro lado, não é senão a negrura opaca de seu refúgio subterrâneo, de sorte que os que creem aceder à sua intimidade não abraçam senão falsa aparência para confrontar-se à frieza da parede hermética que dissimula sua natureza profunda.
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Melusina não é senão um labirinto de reflexos em torno de seu abismo.
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A lenda lhe atribui por isso faculdades de arquiteta de engenhosidade inumana.
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Em seus meandros e seus entrelaços aracnídeos circula uma energia de água e de fogo jorrando da fonte central oculta, cujo movimento perpétuo turbilhonário arrasta por sua força e rapidez aqueles que se encontram em seu contato, eletrificados por essas correntes.
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No coração dessa central de forças animadas, Melusina, protegida, reina por essa influência secreta.
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Dando a aparência diurna de um ser ingênuo, indefeso e oferecido, enrola e desenrola incessantemente em seu refúgio noturno a serpente negra e branca de sua energia vital, capturando em seus anéis aqueles cujo segredo quer aprisionar.
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A cabeleira toda em cachos dourados de reflexos ruivos mascara uma testa dura e fechada, e sua fisionomia risonha e viva vela a violência afiada e poderosa de um olhar penetrante, sendo que o pente canaliza e catalisa os fluidos da cabeleira, que age como uma teia de aranha para atrair a presa na armadilha de suas redes.
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Maria Madalena, como todas as prostitutas, é representada com uma longa cabeleira solta que simboliza os instintos desenfreados.
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Quanto à tina de seu banho, é o receptáculo das ondas que concentra a potência dos fluidos sutis da natureza cuja feminilidade é a regente.
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A bruxa é antes de tudo uma radiestesista, aquela que sabe detectar e apropriar-se da virtude das águas e das ondas subterrâneas, sendo que a cauda de peixe imersa no banho evoca também a consciência afogada no fluxo das sensações, das emoções e das paixões, a embriaguez e a luxúria que consistem em perder-se e dissolver-se na indefinição da substância carnal do universo.
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É porque o guerreiro abandonou sua ganga grosseira, que de certa maneira o protegia e o imunizava, e porque sua natureza começa a se desligar, que ele se torna sensível e receptivo ao jogo das ondas sutis que animam o mundo visível.
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A tentação é forte de nelas comprazer-se numa delectação do corpo e da alma e de apegar-se à magia, que é a arte de manipular essas correntes que irrigam o cosmos.
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O que se chama charme recobre ao mesmo tempo os poderes de atração ou de repulsão que emanam sutilmente das coisas e dos seres, aos quais o afeinamento das percepções torna vulnerável, e a maneira de utilizá-los concentrando-os e dirigindo-os a seu proveito.
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A alma do homem, ao sentir a possibilidade de dilatar-se às dimensões do cosmos, tem a ilusão de ter encontrado a coisa a adquirir.
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O eu se infla desmedidamente, enganado pelas imagens maravilhosas e os signos de sua dominação, que crê decifrar por toda parte como prova de sua mestria espiritual.
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O filtro que Circe, o círculo da alma do mundo, faz beber a Ulisses e seus companheiros é o inverso da bebida de imortalidade, sendo uma mistura cuja propriedade é confundir tudo, o espiritual e o temporal, o eterno e o perecível, o eu e o si, reduzindo o homem à servidão de seus instintos animais.
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A transformação em porcos significa o acorrentamento ao psiquismo inferior devido à perda da consciência de si.
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Ulisses ao contrário bebe antes o moly, planta que Mercúrio lhe deu e que preserva dos malefícios, atravessando assim o círculo sem nele ser aprisionado e sujeitando por sua vez Circe à docilidade.
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Para superar os perigos do encontro com o intermundo das ilusões do mundo sutil, é preciso ter a coragem de encarar a realidade fascinante em sua nudez, como Raimundim encarando sua esposa Melusina em seu banho no sábado, dia em que ela volta a ser mulher-serpente, dissipando assim a ilusão e a fantasmagoria, e a forma monstruosa se esvai em um grito.
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Além da embriaguez onde se confundem os planos e as formas, o jogador pode constatar que o espelho mantido na mão por aquela que encarna a anima mundi, o espírito astral, é o Sujeito dos Sábios ou matéria primeira.
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Essa matéria é frequentemente chamada Espelho da Arte, pois o alquimista nela observa todos os segredos ocultos da natureza.
A PONTE DA ESPADA
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A casa seguinte representa um torrente turbilhonante entre dois rochedos escarpados, atravessado, como ponte, por uma espada de lâmina afiada, sendo este o impasse do caminho onde é impossível avançar ou recuar.
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Atravessar a nado ameaça ser arrastado pela corrente, escalar o penhasco ameaça despedaçar-se.
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Não há nenhuma saída praticável para o viajante, sendo que a marcha se rompe subitamente nessa paisagem selvagem onde nenhuma esperança de escapar é visível.
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Não há aqui nem jogo nem etapa, nem sequer prova a superar, mas a evidência absoluta e brutal de um absurdo e aterrorizante beco sem saída.
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É o momento em que o guerreiro é golpeado por um lance do destino que o abate e o prostra.
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Contra essa necessidade impiedosa da derrota e do fracasso, toda a sua ciência lhe aparece de um golpe só vã, oca, inútil.
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A falha abrupta entre os dois versantes rochosos se assemelha à que se abre então em sua carne e em sua alma, como a abertura de um grito de agonia, e diante do caminho que se interrompe tudo parece desmoronar dessa existência peregrina.
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A alma, árida, afunda na desolação e na vertigem do nada.
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A razão vacila e se quebra nesse fechamento sem remissão.
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A espada está ali como uma irrisão, pois ninguém pode pensar em passar sobre seu fio de navalha sem sucumbir à mutilação e ao sofrimento, e ninguém pode guardar o equilíbrio sobre essa ponte do abismo sem ser capturado pela vertigem.
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De cansaço e amargura, o guerreiro dos saberes inúteis tira e deixa cair em terra sua couraça, e o jogador renuncia a seus truques.
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Tudo o que foi pacientemente adquirido no curso de sua formação aparece doravante como palha boa para queimar, e a obra toda inteira está a recomeçar.
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Diante do inaceitável não há outra escolha senão aceitar, e é no instante em que o guerreiro renuncia a prosseguir, diante do que ultrapassa suas forças, que ele se entrega inteiramente nas mãos do Mestre da Via, pronto a morrer.
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É esse abandono mesmo que é aqui pedido: o da bagagem que permitiu ao viajante caminhar até ali, e o de seus pontos de apoio.
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Contra o destino contrário, o único recurso está em Deus.
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No santuário íntimo da alma onde repousa a Presença infinita, o guerreiro se recolhe, ora, e confia seu destino àquele que o traçou, assistindo do fundo dessa cela à sua morte: vê a lâmina entrar nas articulações, pôr a nu os ossos de seus pés, joelhos, pulsos, cravar-se no peito, seu corpo tombado ser transportado pelas ondas borbulhantes.
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Negrura. O sangue coagula em coágulos negros, a palavra estrangula, a mão se quebra e se rasga, o joelho range, o pensamento afunda em nuvens de poeiras, memória e sentimentos aniquilados, músculos deslocados, a cabeça pesada e que tomba sobre o ventre torcido, o dorso dobrado, os rins furados de esforços, nada mais além do sofrimento branco e do estouro negro atrás da pele da fronte, a carne se liquefaz tremendo, os nervos se esticam e rangem num ruído de corda rompida.
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Masso informe do corpo decomposto pela zebra do tempo, o desgaste das chamas fétidas que o roeram, morto no charnel.
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Pouco a pouco, do fundo mesmo de sua dereliçção, insinua-se como uma paz que o levanta de sua prostração e o desperta do túmulo onde já jazia, e a morte se torna uma companheira fraternal, uma amiga para quem volta seu rosto sem medo nem desespero.
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Ela é vista como uma montaria nova que passará o que restou dele, mas desta vez com a cabeça para baixo, como o Enforcado do tarô, pois doravante deve marchar para o céu.
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No silêncio e na confiança em Deus, uma nova força eleva aquele que é como um navio sem mastro.
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Além de toda esperança humana aniquilada, a Esperança se mantém firme, apoiada nas duas colunas da memória de Si e da fidelidade à busca, e é com essa única energia, e para a única glória de Deus, que o guerreiro transpõe vitoriosamente a ponte da espada.
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Somente nesse momento ele se tornou ele mesmo o fio da lâmina que talha toda carne perecível.
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Quem pisa na outra margem é outro homem, que abandonou sua mortalha nas águas do torrente.
O GANSO DO TERCEIRO ANEL
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Pela terceira vez o viajante encontra o ganso, que o aguardava do outro lado da ponte, sendo que nesse mundo estranho da terceira espiral tudo foi encontro de aparências ilusórias que só cediam passagem por sua conversão e seu retorno.
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A hospedaria, lugar de repouso e de abrigo, não era senão uma armadilha: para não nela ficar, era preciso considerá-la como o convite à viagem permanente e o meio de se deixar perpetuamente sacudindo a poeira dos pés.
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A sereia era a forma que tomava a tentação de gozar o fruto de seus combates e de seus progressos, sendo preciso ver que sua nudez oferecida não era senão um véu encantador, um traje de ilusão.
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O objeto do desejo não era senão a objetivação das próprias cobiças, e desse encontro só podia nascer a perdição ou o renúncia aos frutos da ação, sendo que aquela que se oferece e que enlaça ensina na realidade o desapego: agir retamente sem preocupação com o resultado, fazei o que deveis, venha o que vier.
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Mas isso ainda é apenas um primeiro passo em direção à sabedoria, se não é completado pela clara consciência da inutilidade e da vaidade dos próprios esforços: não ter nada de próprio não basta, sendo também preciso não ser nada.
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A ponte da espada dava a impressão de romper toda a busca e afogar toda esperança, quando de fato é através do abandono absoluto do sofrimento que começa somente a via, e que nasce, pelo desespero, a verdadeira Esperança.
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É no momento em que tudo parece perdido que tudo é salvo, sendo que quando nada mais é esperado sobrevém o que ultrapassa toda expectativa humana e preenche todos os abismos.
OS DADOS
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Pela primeira vez o jogador cai sobre uma casa onde estão figurados os dois dados do destino, tendo então o direito de rearrojar, o que significa ao mesmo tempo que recomeça a partida de outra maneira e que dobra seu passo na corrida.
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O encontro sucessivo de três gansos marca um cumprimento, uma grande passagem e uma renovação por vir.
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Três vezes três casas são necessárias para formar um homem novo.
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O longo trabalho de decantação interior e de aquisição do saber conduzido pelo buscante o levou até essa última volta da espiral onde o sofrimento imposto e aceito o despojou dessa antiga forma exterior que mascarava ainda a germinação oculta da vida nova.
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A casca do ovo do ganso foi enfim quebrada para permitir o advento à luz do embrião.
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É no cadinho da errância e por sua perseverança incessante que o guerreiro adquiriu a energia necessária para perfurar a parede opaca de seu antigo traje, envoltória protetora no começo tornada prisão sufocante.
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Três grandes etapas prepararam essa liberação: a da gruta, com sua prova de purificação e decantação, onde no silêncio e na passividade foram obtidas a receptividade à influência celeste e as bases de uma estabilidade construtiva; a do cavalo, que permitiu o aprendizado de novas faculdades e a aquisição dos saberes técnicos próprios à guerra santa, tornando o viajante ativo e móvel; enfim a da ponte da espada, além da passividade e da atividade, que permitiu a irrupção do princípio interior de toda transformação através da dissolução e da morte.
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Esse longo trabalho de mortificação que conclui a Obra ao Negro procura ao artista um novo estado: pode doravante ultrapassar a barreira da matéria grosseira e escapar às suas limitações pesadas.
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Essas três provas corresponderam às tendências que governam o mundo visível: descida e pesantez que os Hindus chamam tamas; dilatação e expansão, ou rajas; elevação e sublimação, ou sattwa.
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As esferas da Terra, da Lua e de Mercúrio, governadas pelos elementos de terra, água e ar, foram assim percorridas, antes que se abra o terceiro céu que somente consagra a Vitória.
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