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ÁGUAS PROTETORAS, LUGARES DE ESPERA DA GRAÇA

STABLES, Pierre. Deux clefs initiatiques de la “Légende dorée”, la kabbale et le “Yi-king”. Paris: Dervy, 1975

  • O nome de São Clemente designa um espírito glorioso, derivado de cleos (glória) e mens (espírito), caracterizado por uma alma isenta de mácula e ornada por uma felicidade que, segundo Santo Agostinho, transcende a sujeição à morte, ao erro e à contradição.
    • A etimologia tradicional atribui-lhe o sentido de clemência e misericórdia, definindo-o como justo nas ações, doce nas palavras, maduro na conduta e piedoso nas intenções.
    • A biografia do santo é marcada pela fragmentação da unidade familiar original, decorrente de um naufrágio que dispersa seus membros em uma condição de aparente morte e isolamento.
    • Durante o período de separação, o santo dedica-se à investigação filosófica sobre a imortalidade da alma, experimentando a oscilação entre o gozo intelectual das teses imortalistas e a profunda tristeza diante das conclusões mortalistas.
  • O reencontro providencial da linhagem familiar ocorre em uma ilha remota caracterizada pela presença de colunas de vidro de magnitude extraordinária, onde a mãe do santo subsistia em estado de mendicância.
    • A localização da ilha a seis milhas de Antandros evoca a coluna do Justo, estabelecendo uma conexão metafísica entre a terra e o céu, interpretada como um estado sefirótico de compreensão.
    • O reconhecimento mútuo entre os irmãos Nicetas e Aquila, antigos discípulos de Simão o Mago convertidos por São Pedro, assinala a restauração da ordem espiritual sobre a dispersão profana.
  • A disputa taumatúrgica entre São Pedro e Simão o Mago pelo rosto do pai de Clemente evidencia o conflito entre a identidade essencial e a máscara ilusória produzida pelo artifício mágico.
    • Simão utiliza um unguento para transfigurar a face do ancião em sua própria imagem, visando ludibriar a autoridade política, mas a visão espiritual de Pedro discerne a natureza real sob o simulacro.
    • A subversão do artifício ocorre quando o pai, sob o aspecto do mago, exorta as multidões à fé cristã, resultando na remoção definitiva da máscara e na entronização de Pedro.
  • O milagre das colunas e pedras atadas pelos escravos de um marido ciumento constitui uma crítica à cabala grosseira que confunde o suporte material (consoantes) com a essência divina.
    • São Clemente demonstra que a deificação de pedras quadradas, análogas às consoantes hebraicas sem vogais, condena o homem à servidão de arrastar fardos cegos desprovidos de luz intelectual.
    • A conversão da casa de Teodora, totalizando 314 indivíduos, remete ao número de Schaddaï, unificando a aritmética sagrada, a geometria pitagórica e o jubileu do Yod primordial.
  • A visão do cordeiro indicando o local da fonte que se transmuta em rio simboliza a dissipação do cegueira espiritual e a emergência da liberdade de expansão.
    • No Yi-King, o Koua 4 ䷃ descreve a água que bate contra a parede da montanha como a fonte aprisionada, representando o estágio inicial da busca onde a luz é impedida de transparecer.
    • O jorro da fonte representa a remoção do bando sobre os olhos, permitindo que o ser ascenda com humildade em direção ao ápice luminoso do meio-dia, conforme o Koua 46.
  • O martírio de São Clemente, executado com uma âncora atada ao pescoço, e o recuo periódico das águas por sete dias revelam o mistério do número septenário universal como medida da totalidade.
    • Santo Agostinho define o sete como a integração do primeiro ímpar (três, o espírito) e do primeiro par (quatro, o corpo), formando a superfície sagrada que unifica os elementos da alma e da carne.
    • O recuo da maré a três milhas evoca o número vinte e um, associado aos nomes divinos e às portas celestes que permitem a passagem do Ser através dos obstáculos oceânicos.
  • O episódio do menino preservado vivo sob as águas por um ano, acreditando ter dormido apenas uma noite, demonstra a contração do tempo sob influência da entidade espiritual vinte e um.
    • O sono sob proteção divina anula os perigos físicos e reduz a multiplicidade temporal à unidade, revelando a preservação do ser durante a noite da alma.
    • A âncora recuperada com o corpo do santo deixa de ser instrumento de destruição para tornar-se um sintema de interrupção da deriva passiva, significando o “Basta” da vontade contra o caos.
  • A presença sistemática de filósofos convertidos e as referências ao número e à medida no Yi-King apontam para a sobrevivência de uma filiação helênica e pitagórica no seio do cristianismo.
    • Enquanto a tradição judaica mantém a unidade psicofísica, a corrente platônica enfatiza a independência do espírito incorpóreo em relação à prisão corporal.
    • O parágrafo mil e cinquenta do Yi-King confirma que toda realidade, virtual ou real, submete-se a um número e a uma medida instituída que limitam e definem a multiplicidade.
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