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GVEI 20-42 RECUSA DA TRANSCENDÊNCIA

SER E INDIVIDUALIDADE (GVEI)

  • A recusa mais ou menos explícita da Transcendência radical do Absoluto condiciona o aparecimento do dogmatismo filosófico ou teológico, ligado à inversão das relações de tipo metafísico entre o que se chama, com Guénon, Essência e Substância.
    • A perspectiva metafísica subordina integralmente a Substância à Essência: toda determinação não é senão um reflexo simbólico da única realidade supra-essencial e supradeterminada que constitui sua Essência ou seu Si.
    • O dogmatismo identifica a essência do mundo e do homem com sua substância: de um reflexo que remete à sua fonte, faz uma substância mais ou menos encerrada na densidade e opacidade de sua autarquia cosmológica.
  • Distinguem-se dois graus ou dois aspectos fundamentais dessa revolta ou desse dogmatismo antimetafísico.
    • O dogmatismo ontoteológico, encontrado na ontologia ocidental de Aristóteles a Leibniz, caracteriza-se não pela recusa da Transcendência do Absoluto, mas pela recusa de seu caráter integral: a Transcendência do Princípio não é mais integral, mas fragmentária ou abstrata.
    • O dogmatismo temporalista marca uma segunda etapa no recuso da Transcendência em geral: o Absoluto é agora integral e exclusivamente imanente, o tempo é posto como criador, e o humanismo e o cosmologismo tornam-se explícitos.
    • O propósito da obra é descrever os diversos aspectos do dogmatismo temporalista e determinar o estatuto ontológico da individualidade que se oferece à experiência da consciência temporalista, o que coincidirá com a análise da Transdescendência, ou seja, da orientação exclusiva da subjetividade humana para a realidade substancial do mundo e do ego.
  • As doutrinas de Aristóteles, de São Tomás e de Leibniz fornecem três exemplos esclarecentes da impotência para fundar a individuação qualitativa no âmbito do dogmatismo ontoteológico.
    • A revolta antiplatônica do Estagirita é a primeira expressão decisiva do recuso explícito da perspectiva metafísica que condiciona o dogmatismo da metafísica ocidental encontrado em todos os sistemas filosóficos de Aristóteles a Sartre.
    • O recuso da transcendência integral da Ideia, da Essência e da Essência hiper-essencial das essências exprime-se em Aristóteles na doutrina da substância.
    • O princípio de individuação reveste em Aristóteles um duplo aspecto: individuation qualitative pela forma específica e individuation negativa pela matéria, cuja convergência determina a estrutura da substância individual.
  • A diferenciação qualitativa recai apenas sobre as espécies, não sobre os indivíduos propriamente ditos: o indivíduo singular não se distingue de outro senão pela matéria, não em virtude de uma essência distinta da espécie.
    • A substância do indivíduo que está aqui é a espécie enquanto se manifesta por essência em indivíduos em geral, mas apenas por acidente em tal ou qual indivíduo singular.
    • A individuação qualitativa não consegue penetrar na esfera da última determinação que pode parecer constituir o indivíduo singular como tal.
    • O homem aristotélico se identifica com o animal racional: redução cosmológica da essência a certas condições limitativas, e a essência de Sócrates é a humanidade enquanto se manifesta necessariamente em indivíduos, mas por acidente em Sócrates ou Corisco.
  • A ontologia tomista da substância individual não traz elementos verdadeiramente novos quanto ao estatuto do ser individual, mas mostra como o dogmatismo ontoteológico pode conceber a gênese do finito a partir do Absoluto.
    • A criação ex nihilo, no quadro da ortodoxia católica de São Tomás, significa a produção de um ser posto como relativamente autônomo em relação ao Princípio que o tirou do Nada, sendo esse Nada a potencialidade que exige a passagem ao ato.
    • A Essência finita contida no Entendimento infinito de Deus é na prática uma abstração: um possível lógico que só se tornará realidade pelo decreto atualizador da Vontade divina.
    • A abstração da essência contida no entendimento de Deus reúne-se com a abstração da essência aristotélica que exige o complemento da matéria para ser posta como real.
  • O criacionismo tomista distingue três formas de individuação: a individuação divina que se faz por pura bondade, a individuação pela forma que caracteriza os puros espíritos criados, e a individuação pela matéria designada que se reduz à individuação positiva pela forma específica e à individuação negativa pela matéria.
    • A criatura não é concebível, mesmo ao termo da visão beatífica, senão como ser criado irremediavelmente identificado com sua condição, porque Deus mesmo não é concebido senão como o Princípio cuja função essencial é fazer existir a criatura.
    • O criacionismo tomista não parece mais capaz do que o dogmatismo aristotélico de justificar uma diferença qualitativa entre os indivíduos singulares: a essência abstrata contida no entendimento divino não pode ser a Ideia de um Indivíduo, mas somente a de uma Espécie.
    • A experiência espiritual de tipo religioso fundada em tais pressupostos dogmáticos defronta dificuldades consideráveis, e daí resultam a angústia kierkegaardiana e as tribulações da Noite do Espírito de São João da Cruz, em vez da serena integração intelectiva e contemplativa da finitude que caracteriza a gnose metafísica de um Shankara ou de um Plotino.
  • A filosofia leibniziana da essência pretende fundar a realidade substancial do indivíduo singular como tal, postulando uma essência individual que envolve a infinidade de seus acidentes temporais, de modo que a noção de Alexandre encerra todas as particularidades desse príncipe, incluindo sua vitória sobre Dário e Poro.
    • Há aqui uma individuação positiva pela essência singular que substitui a individuação positiva pela forma específica das doutrinas precedentes.
    • Apesar desse progresso em relação ao essencialismo peripatético, a tentativa leibniziana desemboca no mesmo fracasso, em razão do dogmatismo cosmologista que partilha com as doutrinas anteriores.
    • Chez Leibniz como em São Tomás, a essência contida no entendimento divino não é senão um puro possível ou uma potencialidade que tende de si mesma à existência: a essência é concebida em estilo cosmológico e não metafísico, ou seja, como virtualidade orientada para a ordem da existência separada.
  • A Transcendência abstrata de Deus concebido segundo o dogmatismo criacionista é correlativa da interioridade abstrata da essência e, portanto, da imanência abstrata e meramente geral da pura singularidade existencial.
    • A essência de César tal como é posta no Entendimento do Deus leibniziano não pode em última análise ser posta como distinta da essência de Alexandre, pois a interiorização da essência não é radical o suficiente para que a essência do indivíduo singular se distinga da essência específica.
    • Em Leibniz, como em Aristóteles e São Tomás, a revolta antimetafísica não permitiu extrair as implicações mais importantes da individuação qualitativa, e seu dogmatismo ontoteológico os condenou a permanecer à porta do mistério da individualidade.
  • O que permite distinguir o dogmatismo ontoteológico do dogmatismo temporalista é sua atitude respectiva em relação ao Tempo: na ontoteologia substantialista, o tempo permanece mais ou menos semelhante à imagem móvel da eternidade imóvel de Platão, ao passo que na perspectiva temporalista que cortou todas as relações com a Transcendência, a temporalidade adquire uma autonomia que lhe dará relevo e realidade.
    • O tempo circular tende a ceder lugar ao tempo linear, fator de progresso indefinido, embora o tempo ao qual se recusa a participação na Eternidade nem sempre apareça como criação enriquecedora e contínua de novidade.
    • Os filósofos de Kant a Heidegger identificaram de modo arbitrário o aspecto do tempo que puseram em luz com a essência mesma do tempo, ao passo que é possível distinguir na realidade do tempo diversos níveis correspondentes a aspectos injustamente sistematizados por filósofos como Kant, Hegel, Bergson ou Sartre.
  • Podem-se distinguir as estruturas de tipo panteístico, que só justificam uma temporalidade cosmológica com exclusão de um devir concernente aos seres individuais, e a estrutura negativa, que realiza um verdadeiro retorno em relação às estruturas precedentes.
    • Nas estruturas panteísticas, lógica ou objetivante e estética, é impossível aceder a uma experiência verdadeira do ser individual: elas desembocam na determinação de totalidades cosmológicas nas quais se encontram integrados os seres individuais.
    • Na estrutura negativa, a integração panteística se mostra impossível: a subjetividade aí atingida se põe como efetivamente irredutível a totalidades cosmológicas, mas essa experiência fracassa na medida em que a irredutível singularidade do ser individual resulta de a subjetividade identificar-se com um nada ou vazio que traduz uma nostalgia ou recusa do mundo, muito mais do que um autêntico desapego.
  • Impõe-se um dilema no nível de uma experiência imanente: ou o ser individual possui uma estrutura verdadeira, mas à condição de negar-se como individualidade singular e encontrar sua essência numa totalidade cosmológica; ou o ser individual é posto como individualidade irredutível, mas perdendo toda realidade efetiva e toda estrutura, identificando-se com o nada.
    • Há descontinuidade entre as perspectivas panteísticas e a estrutura negativa, que respondem a duas exigências aparentemente contraditórias: a exigência de plenitude ontológica, satisfeita ao nível das estruturas panteísticas, e a exigência de intimidade subjetiva, que parece encontrar eco na estrutura da temporalidade negativa.
  • Na estrutura objetivante, domina o que se pode chamar de vontade de potência e de posse em relação ao real: a temporalidade objetivante é estruturada por uma essência cosmológica que não se concebe senão engajada numa existência temporal, e o devir é posto como ao mesmo tempo enriquecedor e previsível por ser conforme a uma dialética racional ilustrada pelo sistema hegeliano.
    • Na temporalidade estética, a vontade de potência cede lugar a uma atitude de acolhimento onde o conceito é rejeitado em favor de uma intuição que pretende fazer penetrar na intimidade existencial dos seres e das coisas: descontinuidade e imediatidade da sensação pura, intuição inefável, espanto perpétuo, contingência radical.
    • Essa estrutura, que busca cercar o individual tão deliberadamente quanto a estrutura lógica tendia a superá-lo, acaba falhando em seu objetivo: a duração individual se confunde com o devir universal, como o Élan vital bergsoniano, e os seres individuais são integrados a uma totalidade cosmológica de tipo vital ou existencial.
  • A hierarquia das estruturas pode fundar-se em sua proximidade respectiva em relação ao polo essencial ou metafísico da manifestação: a esfera lógica ocupa o primeiro lugar, a estrutura negativa o último, e a estrutura estética se situa no intervalo.
    • O princípio do texto é também o da sucessão histórica das estruturas, como se a história da filosofia implicasse, em suas grandes linhas, uma desessencialização progressiva do ser e uma afirmação crescente do cosmológico puro em detrimento do metafísico.
    • A estrutura lógica aparece como a esfera mais sólida e habitual da subjetividade, correspondendo ao que o existencialismo chamou de banalidade cotidiana, ao passo que as temporalidades estética e negativa são estruturas muito mais fugazes e difíceis de delimitar.
  • Tudo se passa como se a subjetividade, após haver cortado todas as relações de participação com a Transcendência, tendesse a se mergulhar incessantemente no universo desindividualizado da estrutura lógica, para fugir da experiência aguda da individualidade que se oferece na esfera negativa: tal é a dialética bem evidenciada por Pascal e os existencialistas do divertimento e da má-fé.
    • A esfera negativa, no plano individual como no plano histórico, é a verdade no sentido hegeliano das estruturas panteísticas, ou seja, a consequência necessária da desessencialização implicada pela visão ordinária e habitual da esfera lógica.
    • Um dos méritos do existencialismo, no plano histórico, é desvelar com extrema lucidez as últimas consequências do recuso implícito da transcendência que caracterizava o essencialismo antimetafísico de Leibniz, Kant e Hegel.
  • No plano da dialética histórica, é fácil mostrar um processo irreversível indo da esfera lógica à estrutura negativa, com a esfera estética desempenhando papel intermediário mas sem estabelecer uma continuidade lógica e rigorosa entre as duas.
    • No plano da dialética individual, o processo das estruturas temporais não é irreversível: embora a esfera negativa se encontre logicamente ao termo do processo dialético, seu desvelamento é geralmente apenas parcial e fragmentário, o que explica a reversibilidade da passagem das estruturas panteísticas à esfera negativa.
    • A estrutura negativa, sempre apenas entrevista, é semelhante ao sol e à morte que segundo La Rochefoucauld não se podem olhar de frente, e aparece como um polo de significação que nunca é atingido em si mesmo e na totalidade de suas implicações.
  • A estrutura lógica e a esfera estética correspondem a duas visões do mundo que se excluem de fato, mas que repousam sobre duas exigências complementares e conciliáveis num plano mais universal, embora contraditórias no plano da imanência temporalista.
    • A esfera objetivante instala no universo transparente do hábito, da ciência triunfante, da tecnologia industrial e política, onde as realidades são manejáveis e transparentes, mas onde os seres singulares se revelam intercambiáveis e suas tendências secretas escamoteadas.
    • A esfera estética oferece a visão refrescante da singularidade e da beleza das coisas que se desdobra na atitude contemplativa ou criadora do artista, desvelando um aspecto do real totalmente recalcado pela ciência e pela técnica.
    • A vida do homem moderno oferece um exemplo válido dessa dialética: para escapar ao universo monótono e desindividualizado da ciência e de sua vida ordinária, o homem moderno busca refúgio na arte ou na natureza não domesticada, mas nenhuma dessas duas esferas lhe basta sozinha e cada uma apela à outra como seu complemento contraditório.
  • O passo para a estrutura negativa marca ao mesmo tempo o fracasso e o limite da visão do mundo inerente às estruturas panteísticas, e a estrutura temporal da esfera negativa revelar-se-á como a verdade das outras estruturas de duas maneiras: como termo último de um processo evolutivo individual ou histórico, e como estrutura fundamental por referência à qual as estruturas panteísticas tomam sua significação.
    • Dois momentos característicos do divertimento correspondem a cada uma das estruturas panteísticas: o divertimento do hábito e da banalidade quotidiana correspondente à esfera lógica, e o divertimento estético que caracteriza o tipo espiritual do esteta correspondente à estrutura estética.
    • A dialética da esfera negativa é tal que ela remete necessariamente a outras estruturas que recalcam ou sublimam sua perturbadora negatividade, sejam as estruturas panteísticas das quais constitui a verdade e a essência profunda, sejam as estruturas metafísicas em relação às quais aparece como meio de aproximação privilegiado para a consciência que perdeu toda relação efetiva com a Transcendência.
  • A subjetividade temporalista equivale, no âmbito da experiência temporalista, à consciência imanente intencionalmente dirigida para uma realidade que não tem necessariamente o estatuto da objetividade, aparecendo ao mesmo tempo como intencionalmente dirigida para o real que desvela e como processo de temporalização que caracteriza sua própria realidade subjetiva.
    • A relação que caracteriza a subjetividade temporalista em geral vai além da relação sujeito-objeto, que só será encontrada como caso particular na análise das estruturas temporais.
    • A subjetividade temporalista que se distingue pela recusa explícita de toda participação à Transcendência não apenas não está bloqueada em si mesma, mas se ultrapassa necessariamente em direção a um real que lhe é outro e do qual necessita para adquirir consistência e realidade.
  • A transcendância da subjetividade temporalista, no quadro geral da Transdescendência implicada numa ótica não metafísica, designa o ultrapassamento de toda realidade empírica que caracteriza a subjetividade temporalista em geral.
    • Esse ultrapassamento implica a noção de um grau ou dignidade ontológica superiores aos do real transcendido, mas não implica em nenhum sentido que a subjetividade contenha eminentemente esse real.
    • Essa transcendância é intimamente ligada a uma segunda forma: a subjetividade temporalista não apenas não está bloqueada em si mesma, mas se ultrapassa necessariamente em direção a um real que lhe é outro, e as diversas estruturas temporais aparecem como outras tantas modalidades da Transdescendência em geral.
    • A subjetividade que transcende a realidade empírica do mundo existente transcende da mesma maneira o eu empírico, mas não é concebível independentemente deste, nem separada do corpo graças ao qual tem apreensão sobre o mundo que transcende e para o qual se transcende.
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