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OBRA DE GUÉNON NO ORIENTE
VÂLSAN, Michel. L’Islam et la fonction de René Guénon. Paris: Editions de l’Oeuvre, 1984.
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A presente nota editorial toma conhecimento, para registro em crônica, dos progressos recentes do conhecimento da obra de René Guénon em meios intelectuais e universitários do mundo indo-paquistanês.
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A constatação do avanço do conhecimento da obra de Guénon nesses meios justifica a presente notícia.
O Professor Mohammad Hassan Askarî, docente de literatura inglesa no Islamic College da Universidade de Karachi, após publicar um artigo em inglês sobre Guénon, redigiu em urdu duas brochuras: um repertório de cerca de duzentos erros modernos a respeito das doutrinas tradicionais e uma breve história do desenvolvimento da mentalidade moderna.-
A primeira brochura lista equívocos cometidos pela mentalidade moderna sobre as realidades tradicionais.
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A segunda brochura apresenta uma narrativa concisa da gênese e evolução da mentalidade moderna.
Os trabalhos de Askarî foram apresentados ao Muftî Mohammad Chafi’, Reitor da Dâru-l-’Ulûm de Karachi, que os aprovou e os integrou ao programa do ano letivo de 1968-1969, sendo que no outono seguinte o Professor Mohammad Taqî, filho do Reitor, ministrou cursos baseados nesses textos, os quais tiveram boa audiência e prosseguem em 1969, tendo sido registrada a frase sobre a firmeza de Guénon na via do Profeta e de seus companheiros, o que indica uma abertura maior do clima espiritual asiático às concepções universalistas da tradição, uma alteração menos profunda produzida pelo espírito moderno naquela região em comparação com o Ocidente, e a informação de que os jovens muçulmanos da Índia se interessam cada vez mais pelas ideias tradicionais na elaboração guenoniana.-
A inclusão dos textos no currículo da Dâru-l-’Ulûm demonstra a aceitação institucional das ideias.
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A frase citada sobre Guénon atesta a sua percepção como alinhado à ortodoxia islâmica.
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O comentário sobre o clima espiritual visa contrastar a receptividade asiática com as limitações ocidentais.
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A informação sobre o interesse dos jovens muçulmanos indianos complementa o quadro de difusão das ideias.
Para esclarecer as particularidades favoráveis da região do subcontinente asiático, a nota transcreve trechos ajustados da correspondência com Askarî, nos quais ele comenta a questão da introdução das obras de Guénon em meio islâmico, iniciando por afirmar que, no Paquistão e na Índia, a situação difere de outros países islâmicos porque ali sempre se insistiu na harmonia entre a Sharîat e a Tarîqat, sendo que os maiores mestres esotéricos foram também mestres do exoterismo, como Ahmed Sirhindî, Shâh Waliyullâh ad-Dihlawî e seus filhos, e Shâh Ashraf Alî, razão pela qual a perspectiva esotérica de Guénon não é chocante.-
A não separação, mas a harmonia, entre as vias exotérica e esotérica é apresentada como característica fundamental do Islã local.
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A exemplificação com autoridades tradicionais locais visa demonstrar a normalidade da abordagem esotérica.
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A ausência de choque com a perspectiva guenoniana decorre dessa característica estrutural do ambiente islâmico local.
Na correspondência, Askarî contesta a necessidade de uma apresentação particularmente cuidadosa da obra de Guénon em meio islâmico, como sugerido em artigo anterior, argumentando que a atitude intelectual e metafísica do autor não seria problemática para os leitores locais, uma vez que, nos últimos cinco ou seis séculos, inúmeras obras no subcontinente adotaram a mesma postura, citando-se o papel da Dâru-l-’Ulûm de Deobend e a declaração de Shâh Ashraf Alî sobre a preferência contemporânea pela via iniciática baseada na compreensão doutrinal (sulûk ‘ilmî) em detrimento da via baseada no desejo espiritual (sulûk ‘ishqî), considerada menos válida e perigosa.-
A objeção à necessidade de uma justificativa especial para as ideias de Guénon fundamenta-se na tradição intelectual local.
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A menção à Dâru-l-’Ulûm de Deobend insere a discussão no contexto de uma instituição de reconhecida ortodoxia.
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A citação de Shâh Ashraf Alî sobre o sulûk ‘ilmî estabelece um paralelo entre a ênfase guenoniana na inteligência e uma tendência similar na espiritualidade local.
Askarî responde à questão sobre a possível necessidade de justificativas perante autoridades exotéricas, afirmando que, em seu meio, tal justificativa poderia vir dos próprios mestres locais, cujas obras ele próprio reconhece conterem confirmações do que Guénon dizia, embora não tenha registrado tais passagens.-
A afirmação visa tranquilizar sobre a recepção da obra de Guénon por parte das autoridades religiosas.
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A confirmação pessoal de Askarî sobre a convergência entre as ideias de Guénon e as dos mestres locais reforça seu argumento.
Sobre a menção a hostilidades sofridas por Ibn Arabi em meios exoteristas, Askarî esclarece que não é o caso em seu meio, pois as objeções mais notáveis partiram do mestre esotérico Ahmed Sirhindî, e a defesa veio tanto do lado esotérico quanto do exotérico, com destaque para Shâh Ashraf Alî, que ocupava função de autoridade exotérica, tendo dedicado duas pequenas obras à defesa de Ibn Arabi, cujos escritos, como as Futûhât Makkiyya, são frequentemente citados como autoridade em obras exotéricas contemporâneas, especialmente por aqueles ligados à Dâru-l-’Ulûm de Deobend, conhecidos por sua ortodoxia e severidade.-
A ausência de hostilidade generalizada a Ibn Arabi é sublinhada.
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A defesa de Ibn Arabi por Shâh Ashraf Alí é apresentada como prova da aceitação mesmo em círculos exotéricos rigorosos.
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A citação das Futûhât Makkiyya em obras exotéricas contemporâneas demonstra a vigência da autoridade de Ibn Arabi.
Askarî informa que o meio local não é hostil à concepção da Wahdatu-l-wujûd, sobre a qual a maioria prefere silenciar, mas que constitui o tema central da poesia tradicional em urdu e em dialetos regionais, sendo cantada nas aldeias todas as noites.-
A distinção entre o silêncio público e a aceitação difusa na cultura popular é crucial para entender a recepção da doutrina.
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A poesia e o canto popular são apresentados como veículos de transmissão e preservação da doutrina metafísica.
Em resposta a considerações sobre a universalidade tradicional e o uso de termos hindus por Guénon, Askarî oferece uma série de precisões históricas que atestam a precedência dessa abordagem no Islã do subcontinente.-
O príncipe Dârâ Shikûh, no século XVII, já havia estabelecido uma correspondência entre termos esotéricos hindus e islâmicos em sua obra Majma’u-l-Bahrayn, cuja tradução em urdu é facilmente acessível.
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O xeque Ahmed Sirhindî reconheceu a validade das doutrinas védicas, embora duvidasse das possibilidades de realização no hinduísmo contemporâneo a ele.
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Shah Waliyullâh ad-Dihlawî escreveu sobre as doutrinas védicas em sua obra Lamahât.
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Hazrat Maz’har Djânî Djânân, uma autoridade espiritual do século XVIII, admitiu a verdade das doutrinas védicas, com reservas quanto à validade atual da tradição hindu.
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Shah Kâzim Qalandar, no século XVIII, e seu filho Shah Turâb Alî Qalandar, no século XIX, escreveram poesias sobre a Wahdatu-l-wujûd empregando termos e símbolos hindus.
A nota encerra as citações da correspondência com o Professor Askarî, anunciando que retomará o assunto em breve a propósito de René Guénon.-
A riqueza do material apresentado justifica a interrupção temporária das citações.
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O compromisso de retomar o tema indica a continuidade do interesse pela recepção da obra de Guénon.
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