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Papel e "função" de René Guénon
VIVENZA, Jean-Marc. Le dictionnaire de René Guénon. Grenoble-France: Le Mercure dauphinois, 2002.
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Muitos contemporâneos questionam sinceramente em que consistiu a contribuição de René Guénon, cujo caráter fundamental é frequentemente mencionado, o que gera dificuldade em avaliar corretamente a importância de sua obra e de seu papel, ou mesmo sua “função” perante a Tradição.
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A incompreensão sobre a obra de Guénon decorre do desconhecimento do estado de confusão dos resquícios do pensamento tradicional no início do século XX.
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Guénon realizou uma extrema clarificação nesse domínio, combatendo com rara energia as formas desviadas e errôneas do ocultismo, espiritismo e teosofismo, que então triunfavam.
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Essas correntes espalhavam teorias nocivas cujos efeitos ainda persistem na pseudo-espiritualidade contemporânea.
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A ação de Guénon, no entanto, não se resume a esse aspecto, pois se desdobra em vastos domínios de difícil apreensão.
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A tese central é que Guénon constitui um autêntico representante, um testemunho no mundo moderno, da Tradição autêntica, ou seja, da “Tradição primordial”.
Esse papel ou “função” é exclusivo de Guénon, cuja obra e vida fornecem constante lembrança e confirmação exemplar dessa qualificação.-
Guénon foi o homem de uma única orientação de pensamento, da qual jamais se desviou.
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Nada podia prevalecer, do ponto de vista existencial, sobre a autêntica “missão” que lhe fora pessoalmente confiada.
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A unidade visível entre a vida e a doutrina em Guénon conduz naturalmente a essa conclusão.
Nada na aparência da vida de Guénon, nascido em 1886 em Blois em meio católico e formado em matemática, podia indicar que realizaria uma missão tão original.-
Após se instalar em Paris e casar-se em 1912, Guénon aparentava destinado a uma existência serena e regrada.
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No entanto, sua decisão de 1905 de abandonar os estudos para se imergir nos meios ocultistas parisienses o introduziu definitivamente no domínio da busca metafísica.
Ao frequentar todas as escolas de pretensão esotérica em Paris, Guénon adquiriu amplo conhecimento desse meio, que continha tanto o melhor quanto o pior do ponto de vista espiritual.-
Nesse período, Guénon beneficiou-se evidentemente do ensino de mestres orientais qualificados.
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A dedicatória de O Simbolismo da Cruz, que menciona Esh-Sheik Abder-Rahman Elish el-Kebir e a data de 1329 H. (1912), ano de sua iniciação no Islã como Abdel Wahed Yahia, atesta essa influência.
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As grandes orientações de sua vida foram tomadas muito cedo, e seu estabelecimento definitivo no Cairo a partir de 1930 não representou uma modificação brusca, mas a continuidade natural de uma vida consagrada ao aprofundamento do “único necessário”.
René Guénon foi habitado ao longo de toda a sua existência por sua missão doutrinal, estando inteiramente imbuído dessa “função” fundamental para a restituição da metafísica autêntica e da ciência sagrada.A função de Guénon, em seu caráter de reafirmação doutrinal, expressa-se com clareza desde seu primeiro livro, Introdução Geral ao Estudo das Doutrinas Hindus (1921), que apresenta as teses basilares de toda a sua obra posterior.-
Essa primeira obra constitui uma profissão de fé e um expositor das bases teóricas fundamentais.
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Guénon recorda a verdade maior, então esquecida até pelos melhores espíritos, da existência de uma “Tradição Primordial” de origem “não-humana” na fonte de todas as tradições da humanidade.
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Os princípios dessa Tradição exprimem-se plenamente no que se denomina “Metafísica universal”, um conhecimento por excelência que ultrapassa todos os sistemas e formas religiosas particulares.
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A metafísica é imutável e universal, constituindo uma unidade essencial, exclusiva da multiplicidade dos sistemas filosóficos e dos dogmas religiosos.
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