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AMANTE INVISÍVEL

ZOLLA, Elémire. L' amante invisibile: l'erotica sciamanica nelle religioni, nella letteratura e nella legittimazione politica. 1. ed ed. Venezia: Marsilio, 1986

A ideia do casamento da alma com Jesus se desenvolveu a partir de uma origem triste, as perorações do clero mais carrancudo contra o hábito das devotas mais espirituais de viver e dormir com os sacerdotes mais ascéticos. No segundo século, o Pastor de Hermas descreve virgens orando no mesmo leito com ascetas. Na jovem igreja irlandesa, estas companheiras de vida ajudaram os sacerdotes até na administração dos sacramentos.

A costume foi extinta, especialmente por obra de São Cipriano, que lançou invectivas furiosas contra aquelas virgens subintroductae: com ele não se safariam, não esperassem reivindicar a inocência se sujeitando a inspeções vaginais, a ele não enganavam: a virgindade não sentia nada de bom, ele sabia bem do que elas eram capazes na cama. Terminava com uma vinheta demente: Jesus fumegando de raiva que descobre as suas esposas na cama com sacerdotes. Mas pelo menos a vinheta serve para demonstrar que a ideia de núpcias entre a alma e o Cristo já era sólida; ou talvez tenha sido sobretudo um artifício retórico: Jesus era o esposo que se unia à alma na castidade. Esta variação retórica se fazia remontar a Santa Inês mártir. Crisóstomo falou da eucaristia como a consumação de um matrimônio espiritual. São Jerônimo declarou que a esposa fala ao Esposo quando reza e o escuta quando lê. Gregório Nazianzeno foi mais tecnicamente místico: comprimindo e canalizando os sentimentos, ele ensinava, chega-se a perceber o Esposo.

A mesma pregnância mística se encontra em Marcião, que, segundo Irineu (I, 13,3), conferia o sacramento da profecia às seguidoras pronunciando esta fórmula:

“Quero que participes da minha graça, pois o Pai do Todo vê o teu anjo sempre diante do meu rosto. O lugar da tua grandeza está dentro de mim. Devemos nos tornar um só ser. De mim e através de mim acolhe a graça. Sê pronta como uma esposa à espera do esposo, de modo que te tornes o que eu sou e eu o que és tu. Recebe na câmara nupcial a semente da Luz. Recebe de mim o teu esposo para abraçá-lo e sê abraçada por ele”.

Na Idade Média, o cânone do amor místico serão os Sermões sobre o Cântico, inspirados pela Virgem a São Bernardo. A exuberância sensual das imagens, mesmo que expressamente transposta a significados alegóricos, opera sobre a fantasia do leitor e o próprio São Bernardo teoriza as visualizações fantásticas que “enriquecem como com a gordura de bezerro as hecatombes de orações”. Quem reza sente diante de si a imagem de Cristo de forma carnal e para este fim Deus se encarnou, para que assim se pudesse rezar (XX, V, 6). Esta amorosidade carnal serve de ponte para os conhecimentos puramente espirituais e às commixtiones da alma com Deus (XXXI, 6).

As três fases sucessivas assim delineadas por São Bernardo foram nitidamente precisadas pela teologia mística. Após a oração de recolhimento, na qual a alma se estende deliberadamente em direção a Deus, a tensão da vontade se torna supérflua, os sentimentos devotos e as dores de amor dominam: entra-se na fase nupcial. Certas místicas, como Catarina de Siena ou Rosa de Lima, veem no dedo o anel de noivado, outras apenas um inchaço circular, ou desfrutam de uma alucinação na qual trocam anéis com o Cristo. A teologia ortodoxa grega decretou que esta é a etapa extrema, quando, nas palavras de Simeão o Novo Teólogo, uma luz inflama o coração e beija todos os membros até fazer resplandecer o corpo inteiro, que aparece aureolado.

Para a Igreja católica, há fases ainda ulteriores. Após as núpcias, entra o estado matrimonial, as bodas são plenamente consumadas até a final transmutação da alma no esposo, o qual emerge de seu fundo como “uma espécie de revelação” segundo se expressará o Concílio Tridentino (Sess. 6 c. 9).

As almas nupciais e até transfiguradas adquirem poderes sobrenaturais, concedem milagres. No entanto, este caminho “lícito” em direção à beatitude e aos poderes não pareceu suficiente, reprimia muitas possibilidades: o caminho arcaico e francamente xamânico, apesar da proibição oficial e dos perigos aterrorizantes que o assediavam, solicitou as almas mais variadas durante todo o período cristão.

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