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TRADIÇÃO

ZOLLA, Elémire. Che cos'e la tradizione. 2. ed ed. Milano: Adelphi, 2003

Tradição é o que se transmite, especialmente de geração em geração, ou seja, a raiz de quase todo estado ou ato humano, sendo os mortos mais vivos do que aqueles nos quais seu sangue corre, facilmente iludidos de inventar o que é pura revivescência, de criar discursos que comovem com a aparência de novidade na medida em que a voz arcaica que já os pronunciou antigamente é esquecida. Mas existem tradições de todo tipo, pois até um bando de malfeitores transmite ao novo membro as espertezas, as senhas, as normas de divisão do butim, assim como uma escola de pintura entrega aos aprendizes os segredos das veladuras, a composição dos pigmentos, os costumes de festas e banquetes; assim, por fim, o Estado de geração em geração transmite cultos de insígnias, cantos, histórias pátrias que ainda hoje são lendárias, na mesma medida em que se crê tê-las purificado com a crítica histórica.

Mas a Tradição por excelência, à qual compete por exatidão e não por artifício retórico a maiúscula, é a transmissão do objeto ótimo e máximo, o conhecimento do ser perfeitíssimo.

Esta a Tradição superior a qualquer outra porque logicamente anterior, aliás, implícita no próprio instrumento de toda transmissão, a linguagem. Todo substantivo é o sinal de uma substância, que se capta na medida em que age ou simplesmente se manifesta: na medida em que se faz verbo, de movimento ou de estado. Este último, “ser”, é a condição, portanto o continente, de todos os conteúdos linguísticos. Dos modos e dos tempos deste verbo, o primeiro é o infinitivo: “ser” não é, não foi, não será, sendo superior aos limites do tempo e do espaço. Assim como cada figura perceptível implica o ponto inextenso, cada número modifica para mais ou para menos a ideia da unidade, assim cada palavra particulariza o infinito “ser”. “Ser” é na linguagem o que o ponto é no espaço, a unidade entre os números; e o ser em sua máxima perfeição é o princípio absoluto de toda contingência; cada coisa perecível é definida pelo seu grau de ser, ou seja, de proximidade ou de distância do ser perfeitíssimo.

Assim, cada figura no espaço, cada figura huius mundi, tem como causa última, princípio do seu ser relativo e transitório, a ideia do ponto que não ocupa espaço; cada número, portanto, cada medida do tempo, modifica para mais ou para menos a ideia da unidade; cada palavra reflete esta ordem, reconduzindo-se a uma modalidade do infinito “ser”.

A Tradição é a transmissão da ideia do ser em sua perfeição máxima, portanto de uma hierarquia entre os seres relativos e históricos fundada em seu grau de distância daquele ponto ou unidade. Ela é às vezes transmitida não de homem para homem, mas de cima; é uma teofania. Ela se concretiza em uma série de meios: sacramentos, símbolos, ritos, definições discursivas cujo fim é desenvolver no homem aquela parte ou faculdade ou potência ou vocação que se queira dizer, a qual o põe em contato com o máximo de ser que lhe é permitido, colocando no topo de sua constituição corpórea ou psíquica o espírito ou intuição intelectual. Como o máximo de ser é a unidade, A Imitação de Cristo (I, 3) diz: “Quem encontra tudo na unidade e vê tudo na unidade, pode ter o coração estável e morar em paz com Deus”.

Muitas tradições afirmam exaurir a Tradição. Comparar-se-ão, portanto, ao número transfinito, o qual se define como tal que a sua mínima expressão contém toda a série dos números finitos? Ou não se deve dizer que imaginar uma escolha entre Tradições é já ter perdido a encarnação predestinada da Tradição? A ideia do ser perfeitíssimo não implica a Revelação primordial ou primitiva, da qual emanam todas as tradições historicamente conhecidas? E não vêm daqui as coincidências entre uma e outra, as recorrências dos arquétipos tradicionais, de tal modo que os Padres falam do cristianismo pré-cristão e da Cristandade como coroa para a revelação primitiva?

Se se define a Tradição como o conjunto dos atos pelos quais se transmitem os meios adequados para propiciar o insight do ser perfeitíssimo, tais como Escrituras e comentários, ritos, modos de oração e preceitos morais (que purificam, se cumpridos, de modo a tornar possível a oração), então todas as tradições, de qualquer objeto, se colocam na perspectiva daquela sua medida eterna. Assim, a simples tradição pictórica, que ocorre normalmente em uma escola ou ateliê de arte, é parte íntima da Tradição se for sagrada e canônica, como no caso da pintura de ícones; deste estado de adesão da tradição pictórica à Tradição da ideia do ser perfeitíssimo se ramifica, como do alto da mística rosa descendo até o poço de Lúcifer, a gama de escolas pictóricas primeiro elegantemente profanas, depois meramente miméticas da contingência bruta e por fim inertes e pueris, imitando um sentido pictórico perdido. Pode acontecer que um certo trecho da história, como o do Ocidente da Idade Média a hoje, ilustre como parábola esta descida da Tradição a uma mera transmissão de puerilidades, cujo grau de ser é mínimo. Da mesma forma, uma comunidade cujo fim é, na medida sempre limitada de qualquer obra humana, o desenvolvimento da intuição do ser em seus membros, pode degenerar até uma sociedade cujo fim é erradicar (nos limites em que isso também é concedido sem tirar totalmente aquele ser quase mínimo que é a existência animal) a própria memória de uma medida intemporal das coisas temporais. O primeiro modelo de comunidade procura imitar na terra a regularidade dos movimentos celestes, de modo que cada um está voltado a uma estrela, forma uma constelação, ou seja, exerce na cidade, também urbanisticamente baseada no mapa dos céus, uma função análoga àquela que na economia cósmica cumpre aquela constelação ou aquele planeta. Daqui o dito de Cristo, que não se deve alegrar em operar milagres, mas em ter o próprio nome escrito nos céus, e em São Paulo a tácita citação de Arato, bem como a alusão à hierarquia estelar dos beatos, retomada por Dante no Paraíso (III, vv. 88-90) onde o Sumo Bem está em toda parte, embora a Sua graça não chova de um só modo. Daqui a oração para que a vontade divina se faça assim na terra como no céu. Uma adequação ponto por ponto do céu e da terra não é historicamente concebível, mas também não é concebível uma vida que não faça avaliações, que não se remeta, portanto, a uma ideia, ainda que imperfeitíssima, da perfeita adequação do céu e da terra, “céu” sendo, bem entendido, a imagem de uma existência o mais possível memora do ser perfeitíssimo.

A Tradição, desenrolando-se dentro dos limites de cada realização, ou seja, de cada forma, deve permear muitas tradições menores, porque a intuição do ser deve ser provocada ou facilitada através de cada ato humano; assim como as artes, os ofícios podem se consagrar: cada instrumento, cada gesto do artesão pode ser entendido como símbolo de uma etapa em direção à intuição do ser perfeitíssimo, e o trabalho era nas confrarias medievais explorado com o fim de lucros espirituais, os fins econômicos sendo colocados em segundo plano nas intenções mais retas dos confrades. Cada ato humano é em sua forma ótima um meio da Tradição: a açougue poderia se consagrar em sacrifício, a guerra em expiação ascética, a vida conjugal se basear em uma communio in sacris, a agricultura metaforizar a semente do Verbo, ou seja, a manifestação do ser perfeitíssimo no coração imperfeito do homem, em sua terra mais ou menos fértil.

Estrangeiramente amputado, alienado do ser pleno é aquele que se ilude de encontrar toda a Tradição expressa em discursos falados ou escritos: ela começa a brilhar somente quando o discurso é sentido como um véu que cobre e por isso indica, sim, mas escondendo. Cada muda atividade pode cobrir a intuição do ser e, tanto quanto o discurso filosófico, o pode o baile como foi descrito pelo aparentemente incrédulo Luciano de Samósata em seu memorável ensaio, e assim cada simples gesto eloquente. Dogma e rito não vivem separados, e muito menos um discurso, ainda que apenas filosófico, é separado de sua unidade. E ainda além da unidade de rito e dogma está o puro, silencioso ato de presença do homem à ideia do ser perfeitíssimo ou até mesmo ao ser perfeitíssimo, ato de presença sem letras, sem técnica, sem cultura, porque superior a elas e sua fonte.

Diz-se, muitas vezes de bom grado, que hoje o momento histórico proíbe aquele ato de presença, e muitas razões podem ser nobilizadas pela retórica para afirmá-lo. Mas deveria nos colocar em suspeita o fato de que o digam de bom grado além de frequentemente. A vontade de dizê-lo não é nada mais que uma manifestação do medo de reconhecer a existência de uma medida dos seres. De fato, a Tradição garante que a cada um é dado o que lhe é necessário para alcançar o grau de ser que lhe compete, e se de fato se sofre da falta iníqua de meios de purificação comunitários, esta dor não é talvez um estímulo equivalente ao próprio usufruto? Confundir o próprio destino com o estado geral da sociedade é ainda um excesso ou de soberba ou de humilhação hipócrita. A ideia de uma vida celeste é uma semente que, cultivada com desejo suficiente, irrigada com as lágrimas do arrependimento, crescerá transformando a terra desolada em jardim, segundo a promessa repetida por toda tradição conforme à Tradição.

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