====== METÁFORA – ANÁFORA – EXEGESE ====== //ALLEAU, René. A ciência dos símbolos: contribuição ao estudo dos princípios e dos métodos da simbólica geral. Isabel Braga. Lisboa: Edições 70, 1982.// * Sob a influência do romantismo alemão e da psicologia das profundidades, consolida-se o hábito moderno de distinguir claramente alegoria e símbolo, distinção que, embora fundamentada, não corresponde ao horizonte antigo e medieval no qual Dante se insere. * Jean Pépin observa que a separação entre artifício didáctico e espontaneidade vital exige pressupostos históricos inexistentes na época de Dante. * A definição antiga e medieval de alegoria é suficientemente ampla para abranger quase todas as formas de expressão figurada. * A expressão simbólica encontra-se incluída nessa concepção lata de alegoria. * Nem Fílon nem Orígenes estabelecem distinção tão nítida entre símbolo e alegoria como muitos autores modernos pressupõem, embora ambos os conceitos não se confundam. * A alegoria constitui simultaneamente processo retórico e atitude hermenêutica ligada ao discurso e à interpretação. * O símbolo reconduz significante e significado ao próprio Significador. * A alegoria funda-se na metáfora e não na anáfora. * A alegoria não se associa ao mito nem ao rito sagrados como o símbolo, mas os textos tradicionais apresentam estreita articulação entre níveis de compreensão, conforme explicitado por Orígenes. * Orígenes distingue carne, alma e espírito da Escritura como níveis de instrução. * O mais simples é instruído pela leitura vulgar; o progredido, pela alma; o perfeito, pela lei espiritual. * A Escritura é descrita como corpo visível, alma cognoscível e espírito como exemplo e sombra dos bens celestes. * Os três níveis hermenêuticos são interdependentes e exigem realidade concreta para que a analogia seja verdadeira, razão pela qual alegoria e símbolo permanecem profundamente ligados. * A lógica da analogia requer que o dado inicial não seja falso. * A metáfora comprova o fundamento real da alegoria. * Há alegorias vazias, como certas do século XV marcadas por abusos retóricos. * Outras alegorias transmitem verdades escondidas e possuem função cultural e didáctica relevante. * A alegoria relaciona-se à iconologia e ao universo da imagem e da memória. * Orígenes associa a sombra tanto à lei espiritual quanto ao espírito da Escritura, indicando que a verdade ainda se exprime sob véu simbólico enquanto a morte não é destruída nem a eternidade restaurada. * A interpretação espiritual exige movimento ascensional anafórico do visível ao invisível. * A anagogia constitui interpretação supra-inteligível mediada pelos símbolos. * A ressurreição do Significador opera-se na sombra que ilumina. * No Contra Celsum, Orígenes demonstra a ligação entre interpretação espiritual, tropologia e operação ressuscitadora do Significador a propósito da ressurreição de Jesus criticada por Celso. * Cada acontecimento deve ser mostrado como possível, ocorrido e significativo. * A tropologia realiza-se a partir das aparências. * A contemplação da ressurreição do Verbo exige interpretação espiritual. * Marguerite Harl identifica anagogé e tropologia como termos equivalentes à interpretação espiritual. * Os níveis de interpretação aplicam-se aos textos reconhecidos como sagrados por tradição religiosa, sendo necessária abordagem distinta em outras religiões do Livro, como o Islã. * A ortodoxia sunita opôs-se à exegese alegórica preferida por místicos. * Os místicos foram acusados de substituir interpretações tradicionais por intuições pessoais incompatíveis com regras exegéticas. * At-Tabari afirma no século IX que o julgamento pessoal na leitura do Corão conduz ao erro, pois conjectura não equivale à certeza fundada na autoridade. * A leitura baseada apenas em opinião pessoal é considerada erro mesmo quando atinge verdade pontual. * A religião não deve apoiar-se em conjecturas acerca de Alá. * A posição dogmática rígida explica-se historicamente pela necessidade de preservar unidade comunitária diante de disputas sobre o livre arbítrio. * A escola dos Mu’tazilitas ganhou relevo no Iraque sob influência helenística. * Pensadores como Al-Farabi e Averróis buscaram conciliar razão pura e dogmas islâmicos. * Os Mu’tazilitas recorreram à pluralidade de leituras permitidas para sustentar interpretações próprias. * A exegese subordina-se ao princípio de autoridade, como mostram conflitos envolvendo chi’itas, califas Bakr e ‘Umar, e os Umayadas quanto à legitimidade de Ali. * A sunna exprime o consenso comunitário. * A autoridade teológica e política fundamenta-se no consentimento de todos. * Régis Blachère recorda que desde Maomé instaurou-se princípio de comentário contínuo da Revelação, perpetuado após sua morte por companheiros do Profeta. * Crentes consultavam Maomé sobre passagens obscuras. * O Profeta exercia função de exegeta. * O comentário perpétuo mantém papel edificador da Revelação no mundo muçulmano. * A grafia árabe defectiva favoreceu ambiguidades textuais que estimularam investigação dos leitores, enquanto a ausência de autoridade eclesiástica exigiu consenso comunitário para limitar excessos interpretativos. * A palavra idjmâ designa acordo entre canonistas reconhecidos. * O consenso preserva coerência da Lei. * A história da exegese corânica revela coexistência entre tafsir literal e ta’wil interpretativo diante do Livro sagrado. * O tafsir corresponde ao comentário literal. * O ta’wil constitui explicação interpretativa. * O ta’wil ismaeliano representa exegese espiritual esotérica e iniciática, distinta da interpretação exotérica submetida ao consenso. * Trata-se de operação sempre inacabada ligada ao nascimento espiritual. * A interpretação recomeça com cada indivíduo até o fim do ciclo. * A livre iniciativa do ta’wil, sublinhada por Henry Corbin, contrapõe-se ao dogmatismo e preserva espírito de investigação na tradição esotérica ismaeliana. * Nâsir-e-khosraw denuncia furores dogmáticos. * Abu’l-Haitham e seu discípulo testemunham investigação laboriosa. * A tradição esotérica não implica renúncia à pesquisa. * A liberdade constitui núcleo essencial da tradição esotérica e encontra fundamento na afirmação paulina de que onde está o Espírito do Senhor está a liberdade. * O conhecimento visa libertação. * Experiência esotérica não pode criar novas cadeias. * A queda do véu da letra que mata depende de nova aliança com o Espírito vivificante, instaurando unidade pessoal que testemunha o Único. * A liberdade pertence à essência do princípio espiritual. * A exegese envolve implicação do Significador revelando-se livremente. * Não se podem fixar limites dogmáticos à interpretação espiritual individual. * O consensus omnium é necessário à coerência histórica da comunidade. * O problema central é conciliar liberdade do Único em cada um com unidade organizada de todos. * A lógica da alternância supera lógica da alternativa ao afirmar coexistência dos sentidos literal, alegórico, moral e anagógico na Escritura. * Teólogos reconhecem pluralidade simultânea de sentidos. * As coisas significadas podem ser figuras de outras realidades espirituais. * Toda hermenêutica implica interpretação de níveis ascendentes em movimento anafórico simbólico, articulando expansão horizontal da analogia e orientação vertical ao Significador. * O processo metafórico corresponde à expansão horizontal. * O processo anafórico orienta-se verticalmente ao Significador. * A Palavra procede do Verbo e retorna a ele. * A ascensão amplia horizontes do Espírito que se reconhece ao desvelar seus espelhos.