====== FÁBULAS E MITOS ====== //ALLEAU, René. A ciência dos símbolos: contribuição ao estudo dos princípios e dos métodos da simbólica geral. Isabel Braga. Lisboa: Edições 70, 1982.// === FÁBULAS E MITOS === Quanto à diferença entre o mito e a fábula, convém lembrar, antes de tudo, que o grego os designa pela mesma palavra: mutos. No entanto, Platão alude ao seu sentido oculto por intermédio dum termo diferente de allegoria, hipónoia, isto é, «pensamento subentendido». Aquilo a que poderemos chamar uma figura hiponoética não apresenta, necessariamente, outro sentido, um significado «totalmente diferente» daquele que ela tem à primeira vista, como, em princípio, deve suceder à verdadeira alegoria. Ora, o conto e a fábula são alegorias, no sentido em que estes termos são compreendidos duma forma geral. Em contrapartida, o mito propriamente dito, nas suas formas arcaicas, pelo menos, assemelha-se a essas pedras brutas e não trabalhadas que não constituem atributos da divindade, mas a divindade propriamente dita na sua opacidade imediata e sensível. Nestas condições, podemos admitir a impossibilidade de explicar alegoricamente um mito, pois a única forma de o compreender é vivê-lo e experimentar aquilo que ele subentende, através da sua opacidade, das suas trevas, da sua estranheza e dos seus dramas. Não há «ponto de vista privilegiado» a partir do qual se possa «avaliar» um mito em nome dum sistema de valores diferentes daqueles que ele impõe massivamente, se pretendemos penetrar nele. Eis porque qualquer mito só pode ser realmente abordado por intermédio dos rituais iniciáticos deduzidos da sua própria natureza e das suas normas. Efetivamente, o mito não é mais do que a mutação que ele opera em nós quando estamos fundidos nele. Viver um mito não está ao alcance da observação etnológica, da reflexão filosófica, da crítica histórica ou da análise sociológica. O fato de confundirmos, na nossa época, o que é «mítico» e o que é «fictício» ou «ilusório» bastaria, à falta de outras provas, para medir o estado de degradação interior e o pauperismo espiritual da nossa sociedade. As grandes civilizações não se limitaram a representar as suas mitologias em monumentos. Conheceram-nas existencialmente e viveram-nas concretamente das suas experiências quotidianas. Aliás, foi precisamente porque deixaram de possuir a força vital necessária para a penetração mística dos seus mitos ancestrais, que começaram a interrogar-se a propósito deles em vez de se porem a elas próprias em questão. Esquecemo-nos sempre, quando evocamos a Grécia de Sócrates ou de Platão, que a civilização nascera três mil anos antes, entre o Tigre e o Eufrates. Há um diálogo platônico, o «Crítias» que transcreve a frase dum sacerdote egípcio em que este considerava os atenienses e os gregos como «crianças», como recém-nascidos no mundo antigo. Os mitos são imemoriais. Podemos, no estado atual das investigações, ligar alguns deles à pré-história, isto é, a escalas de tempo sem relação com a das tradições escritas. O mito começou com o homem, tal como a magia. Morre com os tempos da fábula e da ciência. {{tag>Alleau Mitos Fábulas}}