====== O HINO DA PÉROLA ====== //GARCÍA BAZÁN, Francisco. Gnosis. La esencia del dualismo gnóstico. Buenos Aires: Ediciones Universitarias Argentinas, 1978// 1 Quando era pequenino \\ vivia em meu reino na casa de meu Pai \\ 2 e na opulência e abundância \\ de meus educadores encontrava meu prazer \\ 3 quando mus pais me equiparam e \\ enviaram desde o Oriente, minha pátria \\ 4 Das riquezas de nosso tesouro \\ me prepararam um enxoval pequeno, \\ 5 mas valioso e leve \\ para que eu mesmo o transportasse. \\ 6 Ouro da casa dos deuses, \\ prata dos grandes tesouros, \\ 7 rubis da Índia, \\ ágatas do reino de Kushan. \\ 8 Me cingiram um diamante \\ que pode talhar o ferro. \\ 9 Me retiraram o vestido brilhante \\ que eles amorosamente haviam feito para mim \\ 10 e a toga púrpura \\ que havia sido confeccionada para meu tamanho \\ 11 Fizeram um pacto comigo \\ e escreveram em meu coração, para que não o esquecesse, isto: \\ 12"Se desces ao Egito \\ e te apoderas da pérola única \\ 13 que se encontra no fundo do mar \\ na morada da serpente que faz espuma \\ 14 (então) vestirás de novo o vestido resplandecente \\ e a toga que descansa sobre ele \\ 15 e serás herdeiro de nosso reino \\ com teu irmão, o mais próximo a nosso nível. \\ 16 Abandonei Oriente e desci \\ acompanhado de dois guias \\ 17 pois o caminho era perigoso e difícil \\ e era muito jovem para viajar. \\ 18 Atravessei a região de Messena, \\ o lugar de reunião dos mercadores do Oriente, \\ 19 e alcancei a terra de Babel \\ e penetrei no recinto de Sarbuj. \\ 20 Cheguei ao Egito \\ e meus companheiros me abandonaram. \\ 21 Me dirigi diretamente à serpente \\ e morei próximo de seu albergue \\ 22 esperando que a o sono a tomasse e dormisse \\ e assim poder conseguir a pérola. \\ 23 E quando estava absolutamente só, \\ estrangeiro naquele país estranho, \\ 24 vi a um de minha raça, um homem livre, \\ um oriental, \\ 25 jovem, formoso e favorecido, \\ 26 um filho de nobres, \\ e chegou e se relacionou comigo \\ 27 e o disse meu amigo íntimo, \\ um companheiro a quem confiar meu segredo. \\ 28 O adverti contra os egípcios \\ e contra a sociedade dos impuros. \\ 29 E me vesti com seus disfarces \\ para que não suspeitassem que havia vindo de longe \\ 30 para tirar-lhes a pérola \\ e impedir que excitassem a serpente contra mim. \\ 31 Mas de alguma maneira \\ se deram conta de que eu não era um compatriota; \\ 32 me estenderam uma armadilha \\ e fizeram comer de seus alimentos. \\ 33 Esqueci que era filho de reis \\ e servi a seu rei; \\ 34 esqueci da pérola \\ pela qual meus pais me haviam enviado \\ 35 e por causa da pesadez de seus alimentos \\ caí em um sono profundo. \\ 36 Mas isto que acontecia \\ foi sabido por meus pais e se apiedaram de mim \\ 37 e saiu um decreto de nosso reino, \\ ordenando a todos, vir ante nosso trono, \\ 38 aos reis e príncipes da Partia \\ e a todos os nobres do Oriente. \\ 39 E determinaram sobre mim \\ que não devi permanecer no Egito, \\ 40 e me escreveram uma carta \\ que cada nobre firmou com seu nome: \\ 41 "De teu Pai, o Rei dos reis, \\ e de tua Mãe, a soberana do Oriente, \\ 42 e de teu irmão, nosso mais próximo em nível, \\ para ti, filho nosso, que estais no Egito, Saúdo! \\ 43 Desperta e levanta-te de teu sono, \\ e ouve as palavras de nossa carta. \\ 44 Recorda que és filho de reis! \\ Olha a escravidão em que caístes! \\ 45 Recorda a pérola \\ pela qual fostes enviado ao Egito! \\ 46 Pensa em teu vestido resplandecente \\ e recorda tua toga gloriosa \\ 47 que vestirás e te adornará \\ quando teu nome seja lido no livro dos valentes \\ 48 e que teu irmão, nosso sucessor, \\ será o herdeiro de nosso reino". \\ 49 E minha carta, era uma carta \\ que o Rei selou com sua mão direita, \\ 50 para preservá-la dos males, dos filhos de Babel \\ e dos demônios selvagens de Sarbuj. \\ 51 Voou como uma águia — a carta —, \\ o rei dos pássaros; \\ 52 voou e desceu sobre mim \\ e chegou a ser toda palavra. \\ 53 A sua voz e alvoroço \\ me despertei e saí de meu sono. \\ 54 A tomei, a beijei, \\ retirei seu selo e a li: \\ 55 e se acordavam com o escrito em meu coração, \\ as palavras escritas na carta. \\ 56 Recordei que era filho de reis, \\ e livre por própria natureza. \\ 57 Recordei a pérola, \\ pela qual havia sido enviado ao Egito, \\ 58 e comecei a encantar \\ à terrível serpente que produz espuma. \\ 59 Comecei a encantá-la e a adormeci \\ depois de pronunciar sobre ela o nome de meu Pai, \\ 60 e o nome de meu irmão \\ e o de minha mãe, a rainha do Oriente; \\ 61 e capturei a pérola \\ e voltei para a casa de meus pais. \\ 62 Retirei o vestido maculado e impuro \\ e o abandonei sobre a areia do país, \\ 63 e tomei o reto caminho em direção \\ à luz de nosso país, o Oriente. \\ 64 E minha carta, a que me despertou, \\ a encontrava diante de mim, durante o caminho, \\ 65 e o mesmo que me havia despertado com sua voz \\ me guiava com sua luz. \\ 66 Pois a (carta) real de seda \\ brilhava diante de mim com sua forma \\ 67 e com sua voz e sua direção \\ 68 me animava e atraía amorosamente. \\ 69 Continuei meu caminho, passei Sarbuj, \\ deixei Babel a meu lado esquerdo. \\ 70 E alcancei a grande Messena, \\ o porto dos mercadores, \\ 71 que está sobre a borda do mar. \\ 72 E meu vestido de luz, que havia abandonado, \\ e a toga pregada junto a ele, \\ 73 das alturas de Hyrcania \\ meus pais os enviaram a mim, \\ 74 por meio de seus tesoureiros, \\ a cuja fidelidade se os havia confiado, \\ 75 e posto que eu não recordava sua dignidade \\ já que em minha infância havia abandonado a casa de meu Pai, \\ 76 de improviso, como os enfrentara, \\ o vestido me pareceu como um espelho de mim mesmo. \\ 77 O vi todo inteiro em mim mesmo, \\ e a mim mesmo inteiro nele, \\ 78 posto que nós eramos dos diferentes \\ e, não obstante, novamente uno em uma única forma. \\ 79 E aos tesoureiros igualmente, \\ os quais trouxeram a mim, os vi em semelhante maneira, \\ 80 já que eles eram dois, embora como um, \\ posto que sobre eles estava gravado um único selo do Rei, \\ 81 o qual me restituía \\ meu tesouro e minha riqueza por meio deles, \\ 82 meu luminoso vestido bordado, \\ que estava ornado com gloriosas cores, \\ 83 com ouro e com berilos, \\ com rubis e ágatas \\ 84 e ágatas de variadas cores, \\ também havia sido confeccionado na mansão do alto \\ 85 e com diamantes, \\ haviam sido floreadas suas costuras. \\ 86 E a imagem do Rei dos reis \\ estava pintada em todo ele, \\ 87 e também com as safiras \\ rutilavam suas cores. \\ 88 E novamente vi que todo ele \\ se agitava pelo movimento de meu conhecimento \\ 89 e como se prepara-se para falar \\ o vi. \\ 90 Ouvi o som do canto \\ que recitava ao descer, \\ 91 dizendo: "Sou o mais dedicado dos servidores \\ que se puseram a serviço de meu Pai, \\ 92 e também percebi em mim \\ que minha estatura crescia conforme a seus trabalhos". \\ 93 E em seus movimentos reais \\ se estendeu em direção a mim, \\ 94 e das mãos de seus portadores \\ e incitou a tomá-lo. \\ 95 E também meu amor me urgia \\ para que corresse a seu encontro e o tomasse, \\ 96 e assim o recebi \\ e com a beleza de suas cores me adornei. \\ 97 E minha toga de cores brilhantes \\ me envolveu todo inteiro, \\ 98 e me vesti e ascendi \\ em direção à porta da saudação e da homenagem; \\ 99 inclinei a cabeça e rendi homenagem \\ à Majestade de meu Pai que o havia enviado até mim, \\ 100 porque havia cumprido seus mandamentos \\ e ele também havia cumprido sua promessa, \\ 101 e à porta de seus príncipes, \\ me mesclei com seus nobres; \\ 102 pois se regozijou por mim e me recebeu, \\ e fui com ele em seu reino. \\ 103 E com a voz da oração \\ todos seus servos o glorificam. \\ 104 E me prometeu que também até a porta \\ do Rei dos reis iria com ele, \\ 105 e levando meu obséquio e minha pérola \\ aparecia com ele diante de nosso Rei. \\ {{tag>Bazán Gnosis}}