====== CLAMOR DO CORAÇÃO ====== //BENOIST, Luc. La Cuisine des Anges. Un essai sur la formation du langage. Paris: AWAC Bretagne, 1978// * No homem médio, o mecanismo da palavra opera quase instintivamente, de modo que a consciência que por vezes o acompanha não ultrapassa um sentimento confuso e maciço da própria existência, realizando-se a fala como prolongamento direto da vida e não como resultado de reflexão deliberada. * Expressão de opiniões correntes sem escuta reflexiva de si. * Referência a Numa Roumestan, que falava para pensar e só pensava efetivamente enquanto falava. * Fala mais eficaz quando não subordinada ao esforço consciente de pensar. * Correspondência entre modo de falar e modo de viver. * Esse aparente palavrório deve ser reconhecido como forma exemplar de equilíbrio vital, pois o banal e o cotidiano possuem valor revelador embora permaneçam obscuros à investigação direta. * Caráter revelador do que é comum. * Dificuldade de interrogar temperamentos expansivos. * Possibilidade de esclarecimento simultâneo sobre si e sobre todos. * Caso homens de puro reflexo pudessem voltar-se sobre si mesmos sem alterar a espontaneidade de seu discurso, teriam consciência apenas de um impulso mais vivo inserido numa atividade total, que alguns poderiam qualificar como voluntário sem suprimir seu caráter espontâneo. * Impulso pouco diferenciado no interior da ação global. * Tentativa de definição como ato voluntário. * Preservação da espontaneidade essencial. * Para esses homens, a palavra desenrola a própria atividade da vida e a direção do esforço, constituindo testemunho dessa identidade a evocação de Jaurès improvisando a partir de uma única ideia condutora. * Referência a Jaurès durante improvisação. * Ideia anotada: as coisas não se fazem sozinhas. * Continuidade entre pensamento diretor e fluxo da fala. * Não existe diferença de natureza entre o palavrório e o grito, pois o que se denomina grito é apenas uma linguagem incompreendida, sendo a palavra, em ambos os casos, uma descarga necessária à atividade corporal. * Comparação com funções excretoras. * Silêncio prolongado podendo degenerar em delírio. * Intoxicação pelo pensamento como forma de perturbação. * A análise da passagem do pensamento à palavra somente se justifica quando o mecanismo ordinário se desregula, pois as grandes doenças revelam as pequenas e permitem definir a própria noção de saúde. * Alterações patológicas do linguagem. * Eloquência e poesia como sobrevivências naturais exaltadas. * Rejeição de categorias ilusórias. * Do ponto de vista do falante, toda palavra espontânea é perfeita, ainda que provenha de um afásico, de um gago ou de um idiota, porque se crê absolutamente natural e plenamente compreendida. * Convicção de naturalidade. * Crença de compreensão exata. * Surpresa diante da incompreensão alheia. * A experiência comum inclui lampejos de doença, de infância ou de genialidade, sendo os grandes homens testemunhas e não monstros, cuja excepcionalidade deriva mais da miopia coletiva do que de diferença essencial. * Existência de estados transitórios compartilhados. * Grandes homens como verdadeiros homens. * Desproporção entre percepção e realidade. * A originalidade verbal perceptível nos monumentos literários revela seus próprios segredos com relativa facilidade, mas não constitui criação absoluta, pois o que se chama gênio é antes sobrevivência e herança comum. * Palavra literária como recriação. * Gênio entendido como herança. * Participação universal nessa herança. * Nos oradores natos e nos verdadeiros poetas, o discurso e o poema operam inconscientemente como o canto de um pássaro, conservando-se no instinto como gritos adaptados a regras comuns de compreensão. * Dois palavrórios sublimes enraizados no instinto. * Transformação em gritos. * Regras tornadas instintivas. * Todos são iguais diante do mecanismo da palavra, pois as diferenças de desenvolvimento ou frequência dos fenômenos são secundárias frente à identidade das leis que regem seu aparecimento. * Unidade estrutural do fenômeno. * Diversidade apenas quantitativa. * À luz dessa identidade estrutural, as vastas investigações conduzidas por psiquiatras, filólogos e historiadores podem ser melhor avaliadas, reconhecendo-se seus recursos documentais sem aceitar suas conclusões impregnadas de hipóteses abandonadas. * Valorização dos documentos. * Necessidade de rejeitar certas conclusões. * Persistência de pressupostos superados. * Mesmo após abandonar a busca de uma língua autenticamente primitiva, permanece nas doutrinas a crença numa evolução progressiva das línguas culminando nas atuais como relativo apogeu. * Ideia de língua originária ou língua-mãe. * Suposição de progresso linguístico. * A pretensão das gramáticas comparadas aproximou-se de uma investigação hipotética junto a povos considerados degenerados, identificados como representantes dos verdadeiros primitivos. * Reconstrução histórica das línguas. * Busca pelos supostos primitivos. * A ordem das ideias é comum a todas as inteligências, de modo que Patagon, Hottentot e Francês possuem igual valor no plano intelectual, pois o interesse recai sobre uma origem filosófica e não histórica. * Igualdade fundamental das inteligências. * Distinção entre origem histórica e filosófica. * A história permanece impotente diante do problema último, pois apenas relata descobertas e não origens das noções, como já advertira Leibniz. * Limitação explicativa da sucessão de fatos. * Diferença entre história e fundamento. * A diversidade formal reunida pela história obscurece a identidade profunda das línguas, levando à percepção ilusória de influências onde há recomeços íntimos. * Incapacidade de reconhecer princípios presentes. * Suposição de influências externas. * Recomeços interpretados como dependências. * Todos são permanentemente reinventores do linguagem, permanecendo primitivos na medida mesma em que falam e vivem, pois as ideias variam enquanto o procedimento permanece constante. * Condição permanente de primitividade. * Permanência estrutural do processo. * Não se pode alcançar uma etapa histórica antiga das línguas, pois sua idade coincide com a do homem falante, coexistindo internamente estados monossilábico, aglutinante e flexional em cada idioma. * Contemporaneidade dos diferentes gênios linguísticos. * Coexistência dos estados linguísticos. * As línguas de povos selvagens podem ter sofrido variações mais rápidas por não estarem fixadas pela escrita, podendo encontrar-se hoje mais distantes de seu tipo inicial que as línguas ditas civilizadas. * Ausência de fixação escrita. * Maior facilidade de modificação. * Explicar o linguagem atual pelo primitivo, pelo selvagem ou pela criança equivale a explicar o conhecido pelo desconhecido, como se a Divina Comédia fosse deduzida do grito que conteria virtualmente todos os futuros chefes-d’œuvre. * Referência à Divina Comédia. * Comparação com evolução de germe ou larva. * Impossibilidade de justificar desenvolvimento sem visão do todo. * Os chefes-d’œuvre mais explícitos e diferenciados devem testemunhar em favor do grito infantil ou primitivo, invertendo o método explicativo. * Valorização das formas organizadas. * Função reveladora da complexidade manifesta. * Homero, Dante, Balzac e Dostoievski revelam parcialmente o sentido do grito primitivo, cuja complexidade contém virtualmente toda a civilização e cujo esclarecimento exigirá ainda milênios. * Civilização presente no cérebro do primeiro homem. * Evolução como desenvolvimento de germe obscuro. * A investigação não se fundamenta nem na história nem na psicologia, entendida como disciplina instável destinada a resolver-se numa estética sob a influência da Metafísica e da Biologia. * Psicologia como disciplina recente e arbitrária. * Superação do materialismo biológico. * Destino estético da psicologia madura. * Buscar a origem filosófica do linguagem consiste em aproximar-se das noções primeiras do pensamento, análogas aos axiomas matemáticos sobre os quais a ciência se apoia sem poder legitimá-los. * Princípios fundamentais não demonstráveis. * Dependência estrutural da ciência. * A ciência não consegue remontar às fontes últimas e conduz o espírito ao abismo metafísico, retardando o salto por fragmentação de etapas e multiplicação de obstáculos que a própria razão cria sem poder agir. * Confronto inevitável com o metafísico. * Limitação operacional da razão. * A inspiração profunda da ciência converge com o método intuitivo dos místicos e metafísicos, que colocam diretamente o espírito na fonte onde conhecimento e ser se identificam. * Identidade entre conhecer e ser. * Experiência dos iniciados. * Nem linguistas, nem clínicos, nem poetas, isolados em suas especialidades, puderam esclarecer a questão do linguagem, pois uns acumulam dados e outros cantam sem explicar o procedimento. * Limitação da especialização. * Insuficiência explicativa do canto poético. * Filósofos situados no cruzamento das atividades humanas superaram insuficiências conscientes e realizaram a fecundidade do imperfeito evocada por Goethe. * Figura do diplomata do espírito. * Superação consciente de limitações. * Esses seres singulares reconhecem no instinto dos gênios improvisadores uma potência natural que podem transformar conscientemente em arte ao escutar e decifrar a voz comum que também ressoa em si. * Escuta da alma dos que cantam. * Reconhecimento da mesma voz interior. * Transformação do instinto em arte consciente.