====== EQUAÇÃO DO DELÍRIO ====== //BENOIST, Luc. La Cuisine des Anges. Un essai sur la formation du langage. Paris: AWAC Bretagne, 1978// * A unidade do espírito não comporta múltiplos segredos, de modo que o mistério da filiação da palavra à pensamento é o mesmo da união da alma e do corpo, encontrando-se também na expressão discursiva das coisas. * O mistério essencial é o da união entre alma e corpo. * A relação entre palavra e pensamento reflete esse mistério na fala. * A palavra espontânea é toda impregnada de uma consciência antiga, admitindo-se a subsistência de um elemento intelectual fundamental no sopro e no grito. * A fala espontânea carrega uma consciência que a precede. * O grito e o sopro contêm uma base intelectual. * A missão do instinto é preservar algo superior e voluntário ao preço de um aparente obscurecimento da consciência, não sendo admissível a existência de um ser puramente sensível, pois a sensação, como síntese de juízos antigos, tem sua sede na alma. * A sensação é um ato organizado de origem intelectual, conforme a filosofia antiga. * Um ser puramente sensível ignoraria sua própria vida, o que é um absurdo. * O pensamento pretérito assume a aparência inconsciente no presente devido à existência de um elemento automático nele, que é sua mimese, sua forma, sua expressão. * A mimese é o componente automático do pensamento. * É por meio da forma e da expressão que o pensamento se torna hábito. * A imitação das coisas pelo homem se dá por meio de massas, encadeamentos e conjunções, tanto mais claras quanto mais amplo e aproximativo for o conjunto percebido. * A atenção natural do homem é limitada. * A clareza da imitação está na relação entre a amplitude e a aproximação da percepção. * Mesmo quando aparentemente analítica, a pensamento permanece uma síntese, resultado da integração de atitudes numerosas e rápidas, inadequadamente chamadas de inconscientes. * O pensamento sintetiza uma multiplicidade de atitudes. * O termo "inconsciente" é considerado uma escolha lexical pobre para descrever essas atitudes. * Essa integração vertiginosa de diferenças sutis só atinge a consciência atual quando elas adquirem o aspecto de uma qualidade nova, traduzida por um gesto ou palavra. * A plenitude interior das sensações as torna conscientes. * O gesto e a palavra são a tradução dessa nova qualidade percebida. * A consciência, por ser descontínua e sumária, é necessariamente retrospectiva, consistindo o mecanismo do pensamento (reflexão) em uma inibição voluntária que nos recoloca anteriormente à percepção para explicá-la. * As coisas prolongam sua trajetória no tempo indefinido. * A reflexão é um ato de parada que visa explicar a percepção passada. * Do ponto de vista físico, a vida do espírito é uma vibração alternada entre o repouso em si mesmo e a vida no meio do mundo, como um coração inteligente. * Há um movimento de vai-e-vem entre o interior e o exterior. * O coração inteligente é a metáfora para esse batimento espiritual. * A visão superficial das coisas assemelha-se a fotografias tiradas e reveladas sucessivamente por um fotógrafo míope e hábil, cujo esforço para conectar idealmente essas descontinuidades constitui a tensão da vida. * Cada percepção é um instantâneo único e irrepetível. * A compreensão do sentido exige religar os pontos descontínuos. * A pensamento, como o clichê fotográfico, é uma interpretação a posteriori, nunca exatamente contemporânea ou sobreponível à realidade. * A interpretação ocorre sempre com um atraso. * A imagem mental nunca é perfeitamente coincidente com o momento vivido. * O sonho, funcionando como um microscópio da sensibilidade, confirma essa suposição, sendo seu elemento essencial o juízo posterior que busca legitimar uma série de impressões confusas e minúsculas. * As impressões internas ou externas são a matéria-prima do sonho. * O julgamento vem depois para dar sentido a essas impressões. * O sonho não é formado pelas atitudes nascentes sugeridas pelas impressões, mas surge quando a lógica intervém para explicar esses males, razão pela qual o sonho é frequentemente absurdo. * A lógica atua como um mecanismo de defesa durante o sono. * A intervenção lógica sobre sensações difusas gera o absurdo onírico. * As sensações isoladas no sonho ganham uma importância desmedida, levando a um esforço de atenção que cria um vínculo lógico particular, gerando o sonho e sua absurdidade. * A ameaça sentida no sonho é proporcional à importância dada às sensações. * O esforço de compreensão é o que estrutura a narrativa do sonho. * Nos estados de sono profundo, a atividade lógica é amortecida e o sonho, formalmente, deixa de existir, restando apenas o jogo isolado das sensações interiores, fora de qualquer compreensão. * O sono profundo engendra a inconsciência. * As sensações internas operam sem a interpretação do espírito. * O fato de o sonho ser posterior às sensações que pretende explicar demonstra que a interpretação é seu elemento essencial, como nos exemplos de Descartes, que sonhou com um duelo a partir da picada de uma pulga, e de Maury, que sonhou com sua guilhotinação a partir de um golpe no pescoço. * A sensação física é a causa eficiente do sonho. * A interpretação lógica é projetada retroativamente, tornando a sensação também uma causa final. * A atividade do espírito no sonho revela-se como uma razão automática, que divaga quando não pode mais retornar à realidade da terra. * A lógica onírica opera mecanicamente. * O divagar da razão é consequência do afastamento do real. * É possível duvidar que o mesmo mecanismo opere na vigília, mas o sonho, mesmo patológico, é revelador, pois a doença opera pelo mesmo mecanismo da saúde. * O sonho é apenas levemente anormal. * O mecanismo que causa a doença é o mesmo que assegura a saúde. * Existem indivíduos que, em estado de vigília, apresentam os mesmos fenômenos interpretativos de forma hipertrofiada: são os delirantes interpretativos, que constroem raciocínios falsos sobre bases reais. * Esses doentes possuem memória e raciocínio frequentemente superiores à média. * A doença mental se manifesta pelo excesso e monotonia da lógica. * O delirante, como o sonhador, é um lógico formidável que quer tudo explicar, construindo sistemas para legitimar tudo o que o perturba. * A lógica exacerbada é uma característica comum ao delirante e ao sonhador. * Dante é citado pela associação de Satanás a um lógico implacável. * O homem normal, em vigília, também interpreta incessantemente, mas a diferença crucial está na elasticidade de sua razão, em sua humildade adaptativa, que o distingue do louco sistemático. * A interpretação constante é necessária para a vida. * A flexibilidade da razão permite o retorno à realidade após os desvios. * O homem normal também se desvia, mas retorna constantemente, submetendo sua razão errante ao olhar implacável da realidade que o reorienta. * O desvio é frequente, talvez cotidiano. * A realidade funciona como um corretivo para a razão. * A saúde do espírito reside no equilíbrio entre ardor e despojamento, entre ímpeto e submissão, devendo o espírito ser um instrumento disponível e ingênuo, sem apego excessivo a ideias particulares. * O perigo reside em ter ideias sem considerar sua hierarquia e frequência. * A saúde da alma é definida como uma fé ampla e generosa. * O homem de uma única ideia permanece paralisado em uma atitude fixa, como o sonhador que repete o mesmo sonho todas as noites, qualquer que seja a causa desencadeante. * A rigidez mental é comparada a um "cran d'arrêt" fatal. * O automatismo do sonho repetitivo é análogo à fixação do homem de uma ideia. * A palavra é o pensamento discursivo, por trás de cuja espontaneidade existe uma deliberação automatizada, sendo o juízo uma síntese, o que estabelece a mesma relação entre pensamento e palavra que entre o mundo das sensações e o da razão, e que os gregos nomeavam "logos". * O termo grego "logos" designa tanto a palavra quanto a razão comum. * A palavra é um juízo de juízos, uma integração. * Lógica e linguagem são nomes para uma atividade de mesma natureza, um mecanismo interpretativo que define o encontro de todas as experiências particulares, sendo ambas fenômenos de frequência. * O mecanismo interpretativo é comum à lógica e à linguagem. * Ambas são definidas como fenômenos de frequência. * A vida é vivida como artistas, mas a fala é resignada como a de sábios, cabendo à razão conciliadora estabelecer o vínculo entre a vida única e a palavra comum. * A razão está sempre pronta a justificar tudo, mesmo pelo absurdo. * Essa função de ligação é a razão de ser da própria razão. * A palavra é ainda mais retrospectiva que o pensamento, pois falar é inserir a visão do mundo nos gestos dos antepassados, sendo a língua uma pátria onde ressoa a voz reconhecível dos ancestrais. * A fala é herdeira de gestos passados. * A língua é um território de memória ancestral. * Na escala de uma vida, falar é contar suas memórias, pois o gesto ou verbo banal do automatismo une instantaneamente a todos os gestos e estados de alma análogos, passados e futuros. * O automatismo da fala ressuscita estados passados. * A fala também pode profetizar estados futuros pela analogia. * Os sonhos são fluxos e refluxos de uma maré espiritual, retornos ou antecipações, e as descobertas traçam o caminho das analogias por onde as ideias virão bater à porta. * O movimento espiritual é de vaivém. * As descobertas preparam o caminho para ideias futuras. * Não é possível imaginar o impossível nem criar o desconhecido, sendo até mesmo o mentir uma impossibilidade, pois o que é pessoal e singular no homem, como a mentira, mais o trai e revela suas limites. * A mentira, por ser pessoal, é quase uma confidência de si mesmo. * O silêncio é um espaço de liberdade, enquanto a palavra abre a porta para a prisão vindoura.