====== GESTO UNIVERSAL ====== //BENOIST, Luc. La Cuisine des Anges. Un essai sur la formation du langage. Paris: AWAC Bretagne, 1978// * O primeiro obstáculo encontra-se na própria natureza do caminho pelo qual a finalidade global da pensamento se transforma e se fragmenta em palavras dispostas numa sucessão irreversível, de modo que o exame da palavra, como o da pensamento, assume o caráter de autópsia retrospectiva, pois apenas se pode falar e depois reconhecer o que foi dito, que nem sempre coincide com o que se quis dizer. * Transformação da finalidade global em sequência verbal. * Irreversibilidade fatal da sucessão das palavras. * Exame como operação post mortem. * Dissociação entre intenção e enunciado efetivo. * Conforme a observação de Gabriel Marcel em //Journal métaphysique//, não há ciência possível da passagem da ideia ao ato, pois nenhuma lógica exterior vincula necessariamente os graus de uma emissão desconhecida, restando apenas a constatação posterior do itinerário percorrido. * Referência a Gabriel Marcel. * Inexistência de lógica obrigatória entre os graus. * Constatação retrospectiva da existência. * O fato de falar, assim como o de nascer, supõe abandono prévio a uma vontade interior e assentimento sem reservas à realidade, configurando-se como verdadeiro ato de fé. * Paralelo entre falar e nascer. * Abandono à vontade interior. * Assentimento integral à realidade. * A questão decisiva consiste em determinar onde termina a obscuridade da passagem e onde começa a clarividência do ato, considerando-se que, assim como a saída do seio materno apenas manifesta um nascimento iniciado na concepção, a palavra não constitui ato completo, mas seu término e coroamento. * Penumbra das origens pouco examinada. * Analogia com o nascimento da criança. * Palavra como culminação e não como início. * Impõe-se indagar se o movimento de aparição que surge como gesto necessário e instantâneo não comporta etapas anteriores, pausas e momentos de exame que precedem sua manifestação indivisível. * Gesto percebido como instantâneo. * Hipótese de relais anteriores. * Possibilidade de momentos de suspensão. * A experiência direta parece sempre tardia diante do milagre já consumado, pois a coisa realizada emerge das limbos da pensamento geradora e torna impossível o retorno à fonte de onde brota o fluxo inesgotável. * Desejo de regressar às transformações passadas. * Impossibilidade de inverter o curso. * Corrente que jorra de fonte desconhecida. * Se a experiência imediata é vedada, permanece contudo a observação paciente e renunciante como método verdadeiro para surpreender o sentido das transformações e apreender a palavra no ponto mais alto de seu devir. * Método fundado na paciência. * Renúncia respeitosa da ordem universal. * Analogia com filme em câmera lenta. * A ideia, libertada da agitação perturbadora, pode repetir lentamente suas metamorfoses e desintegrar diante do olhar uma complexidade antes impenetrável. * Repetição ampliada das transformações. * Desvelamento progressivo da complexidade. * Suspensão da agitação. * O lugar ocupado por cada ser no mundo constitui, quando compreendido, o ponto mais favorável para visão justa, pois somente aí se reconhecem as leis que o ultrapassam e o regem. * Perspectiva situada como condição de verdade. * Reconhecimento das leis superiores. * Dependência da compreensão do próprio lugar. * O saber corresponde à recompensa de uma flexibilidade sobrenatural, ampliando-se na medida em que cresce a acolhida simpática e a atenção concedida à natureza. * Ciência como fruto de abertura. * Ampliação pelo acolhimento. * Escuta atenta da natureza. * O procedimento da palavra, além de irreversível, é instantâneo, razão pela qual Renan afirmou que Révélation Divine seria metáfora adequada para traduzir sua origem, sendo cada símbolo a figura necessária das verdades mais altas. * Referência a Renan. * Instantaneidade do processo. * Função simbólica como mediação. * Para maior clareza, seria preciso trazer esse gesto breve ao campo da inteligência humana, dilatando-o no tempo perceptível sem perder seu rigor intrínseco. * Dilatação do instante. * Conservação da rigidez estrutural. * Tradução ao tempo humano. * A hipótese cinematográfica de condensar uma vida inteira em imagens sucessivas projetadas em segundos revelaria um gesto único que exprime a realidade de toda uma existência, tão brusco e inevitável quanto o percurso da pensamento que se torna palavra e se dissipa em outra esfera. * Analogia com crescimento das plantas filmado. * Pausas calculadas entre berço e túmulo. * Paralelo com trajetória da pensamento. * A própria vida humana constitui, em escala própria, o ralenti natural desse filme, acompanhando a trajetória da ideia ao ato e da pensamento à palavra de modo tão ajustado à lentidão que o mistério da origem se converte em mistério cotidiano permanente. * Vida como versão desacelerada do gesto. * Identificação entre sujeito e processo. * Permanência do mistério. * No vínculo orgânico que une palavra e vida, pode-se suspeitar, sob diferença de grau, uma identidade de natureza, pois a palavra apenas prolonga e exterioriza o sentido de sua origem. * Diferença quantitativa e identidade qualitativa. * Palavra como prolongamento. * Exteriorização do sentido originário. * A palavra só pode ser concebida em estado nascente ou de perpétuo renascimento, pois mesmo fixadas nas gramáticas, as palavras só possuem valor quando recriadas pelo ardor incessante da pensamento. * Metáfora dos insetos fixados. * Recriação contínua pelo pensamento. * Função diária de começar. * No desenrolar melodioso da palavra, o mistério desce em direção ao homem e cresce no microscópio natural de seu mecanismo, permanecendo as coisas fiéis a si mesmas e subsistindo apenas pelo espírito que as estabeleceu. * Descida do mistério. * Ampliação pelo mecanismo. * Fidelidade ontológica das coisas.