====== GRANDES E PEQUENOS MISTÉRIOS ====== //L'ÉSOTÉRISME. Paris: PUF, 1975// * As etapas da iniciação comportam uma hierarquia variável de graus, sendo conveniente recorrer à terminologia dos mistérios antigos por sua aplicabilidade mais geral, distinguindo-se os Pequenos Mistérios, os Grandes Mistérios e o Adepto ou Epopteia (gr. iniciado em Elêusis) como as três etapas de uma iniciação completa. * Os Pequenos Mistérios tinham por objeto mostrar aos mystes as leis do devir que regem a cosmologia e restituir o estado primordial, constituindo uma preparação para os Grandes Mistérios mediante ritos de purificação pelos elementos. * Os ritos de purificação são chamados às vezes de viagens ou provas. * O myste devia ser reconduzido a uma simplicidade comparável à da criança ou à da matéria-prima alquímica, tornando-se capaz de receber a iluminação iniciática. * A influência espiritual portada por essa luz não deve encontrar nenhum obstáculo devido a preformações inarmônicas. * Na linguagem da Cabala, essa purificação corresponde à dissolução das cascas; na linguagem maçônica, ao despojamento dos metais, figurando ambos os resíduos psíquicos dos estados anteriores a superar. * Segundo um simbolismo geométrico tomado ao Islã, essa primeira libertação libera o ser no sentido horizontal da amplitude e tem por efeito restaurar o estado do Homem Primordial, identificado ao Homem Verdadeiro do taoismo. * O indivíduo permanece homem, mas é liberado em seu espírito do tempo e da multiplicidade. * Aos Grandes Mistérios eram reservados os fins propriamente espirituais e a realização dos estados superiores, condicionados e não condicionados, até a liberação deste mundo e a união com o Princípio, meta que as tradições nomeiam de formas diversas como visão beatífica, luz da glória ou identidade suprema. * O desenvolvimento dessa segunda etapa se efetua no sentido vertical da exaltação. * O Islã denomina esse estado o do Homem Universal; o taoismo, o do Homem Transcendente. * Enquanto o Homem Primordial constitui o ponto culminante e a síntese dos reinos da natureza, o Homem Universal pode ser identificado com o próprio Princípio da manifestação inteira. * A pretensão de comunicar com os estados superiores se justifica pelo fato de que se trata da tomada de posse de um tesouro interior que pertence virtualmente a todo homem dotado, garantida pela existência de dons correspondentes ao que se chama geralmente revelação e inspiração. * O que aparece exteriormente como revelação se manifesta interiormente como inspiração. * Os meios eficazes se repartem em duas fases: o desapego e a concentração, sendo que não pode haver concentração sem prévio desapego. * Nos mistérios antigos, o postulante submetia-se a um jejum severo antes de enfrentar as purificações pelos elementos, nu e em silêncio, sendo as provas organizadas como viagens sucessivas associadas aos diferentes elementos, com descida subterrânea, travessia das águas e ascensão celeste pelo ar. * A exploração subterrânea figurava uma descida aos Infernos, isto é, aos estados inferiores do ser, recapitulando os estados anteriores ao estado humano e permitindo ao myste esgotar as possibilidades inferiores que carrega em si. * A iniciação era considerada um segundo nascimento, e essa descida infernal figurava uma morte ao mundo profano. * A mudança de estado se passava nas trevas, como toda metamorfose, e o myste recebia um nome novo representando sua nova entidade. * Morte e renascimento constituíam apenas as duas fases complementares de uma mesma mudança de estado vista de dois lados opostos. * O segundo nascimento sendo uma regeneração psíquica, as primeiras etapas do desenvolvimento iniciático se efetuavam na ordem psíquica, sendo o momento crucial a passagem dessa ordem à ordem espiritual realizada pelos Grandes Mistérios, simbolizada por uma saída da caverna. * Esse estágio representava um terceiro nascimento e uma libertação fora do cosmos. * Nos mistérios de Elêusis, a união final com a divindade era figurada por uma hierogamia celebrada entre o hierofante e a deusa, personificada por uma sacerdotisa. * O fruto dessa união era anunciado sob o nome do próprio myste, integrado doravante na família dos filhos do céu e da terra, conforme diziam as tábuas órficas. * Um ano depois, os mystes podiam aceder ao grau de epopte, isto é, de contemplativo ou adepto, o que consagrava seu estado virtual de união permanente com a divindade.