====== CONTRA-CIVILIZAÇÃO E MAL ====== //JEAN BORELLA. La Charité profanée. Subversion de l’âme chrétienne. Paris: Éditions du Cèdre, 1979.// * A destruição construtivista e o processo de desessencialização da civilização moderna * A ausência de evidências naturais inspiradoras da caridade caracteriza o mundo contemporâneo, no qual não subsistem mais evidências naturais, mas apenas construídas. Por definição, somente é naturalmente evidente aquilo que se dá como expressão da natureza das coisas, o que implica uma cultura essencialista sustentada na crença em um mundo arquétipo. Desde o século XVII, o movimento civilizacional moderno, identificado ao racionalismo, realiza uma vasta operação de desnaturalização, reduzindo toda compreensão à razão, a qual constrói o dado e, portanto, nega sua objetividade. Assim, o cartesianismo, o kantismo e o axiomático matemático exemplificam o esforço de substituição das evidências naturais por estruturas construídas e convencionais. * As ciências humanas reproduzem o mesmo processo de destruição dos dados humanos, culminando na negação do próprio homem, como atesta a filosofia de Michel Foucault. A ideia de "natureza humana" passa a ser vista como produto histórico, ligado a uma estrutura cultural determinada. O estruturalismo, embora se pretenda uma objetivação científica, ignora a noção de natureza, desconhecendo o ponto de vista essencialista das civilizações tradicionais. A experiência da vida, segundo o autor, é necessariamente platônica, pois o homem só pode viver sua sexualidade e sua existência segundo o modo de uma essência. * O processo de desnaturalização, estendido à experiência corporal, redefine o dado corpóreo como construção racional e técnica. A civilização industrial substitui o processo natural por um processo técnico, instaurando a ilusão de domínio absoluto. O universo real torna-se um universo fabricado, onde tudo é objetivação da potência humana. A técnica não domina o universo, mas cria um universo de dominação. Nesse mundo de concreto e pílulas, a realidade é o produto industrial, e o homem é cercado por testemunhos materiais de seu poder. No entanto, apesar dessa aparência de mutação, a natureza do homem permanece fundamentalmente a mesma. * As virtudes naturais como relativização do mal e a perda do senso essencial * Quando uma civilização impede a percepção das evidências naturais, o indivíduo é entregue à indeterminação da vontade. Sem determinação essencial, não há determinação prática. Assim, a substituição do dado pelo construído introduz a contingência em todas as ações humanas. Existencialismo e estruturalismo, embora se apresentem como adversários, convergem na negação da natureza. Ambos substituem o ser pelo fazer, e o ser pela posse. A filosofia moderna busca possuir a natureza que outrora era o homem, e a construção de si mesmo torna-se o sinal de uma possessão ilusória. Toda construção implica destruição, e toda destruição, desnaturalização. * A concepção marxista de trabalho como construção do homem mediante a apropriação e transformação do mundo participa do mesmo movimento ideológico de autoafirmação construtivista. Expressões como "fazer a história" ou "construir o mundo" revelam o mesmo princípio voluntarista. Na medida em que o dado natural é vestígio do paraíso terrestre, a civilização moderna, ao destruí-lo, esgota as possibilidades da queda original. Fora do Éden, o homem se confronta com as contradições mortais do criado e com a indefinição do mal. * As virtudes naturais, mediadoras entre o absoluto e o relativo, preservavam o equilíbrio ontológico do homem tradicional, permitindo-lhe compreender o mal como dimensão inevitável do mundo decaído. A tradição medieval, longe de ser passiva, manifestou grande atividade técnica e construtiva. O homem tradicional reconhecia a dor e a morte como limites intransponíveis da ação humana, aceitando-as como horizonte de sua existência. Essa aceitação ontológica não implicava indiferença, mas consciência da finitude. A dor pessoal refletia a dor cósmica, e a ordem da impossibilidade definia o campo da ação legítima e das satisfações humanas. * O construtivismo moderno como absolutização do mal e perda do limite ontológico * Privado das virtudes naturais, o homem moderno absolutiza o mal, que passa a invadir toda a criação. Quando o mal deixa de ser reconhecido como dimensão inevitável do criado e se crê possível sua erradicação total, o resultado é o fracasso e a contradição. A inteligência moderna, ignorando o caráter necessário do mal, vive na ilusão da onipotência técnica; a vontade, sem orientação essencial, perde seus limites e busca o impossível. A liberdade se transforma em tirania da possibilidade. * O homem tradicional possuía uma vontade pré-determinada por evidências naturais tão inquestionáveis quanto uma montanha ou o curso de um rio. "A terra não é o Céu", dizia o axioma implícito de sua ontologia, e, por isso, a fome e a injustiça, embora combatidas, não eram vistas como problemas absolutos. O reconhecimento da hierarquia dos bens tornava possível a caridade concreta e limitada. Já o homem moderno, entregue ao ideal totalista, não distingue mais o relativo do absoluto. Sua ação se universaliza e, ao pretender eliminar o mal em sua totalidade, dissolve-se na teoria e no sistema. * A caridade moderna torna-se uma construção racional mediada por abstrações sociológicas e econômicas. Como nos paradoxos de Zenão, a razão analítica nunca alcança o movimento real: para cada condição superada, outra se interpõe, e o movimento caritativo é indefinidamente adiado. "A razão não alcança o real." Assim, a reconstrução do mundo, necessária para eliminar o mal, é infinita e alienante. A análise marxista que condena o ato imediato de alimentar o faminto como reforço do sistema exemplifica essa alienação. Enquanto o senso prático ainda prevalece, o perigo cresce de que a obsessão por soluções totalistas substitua a ação concreta pela utopia racional. * A alienação teórica e o advento do mal universal * A mentalidade cristã moderna sofre profunda mutação: as evidências da caridade se tornam dependentes de teorias progressistas e socialistas. Argumenta-se que as palavras de Cristo impõem a supressão universal da dor e que, se as ciências sociais oferecem instrumentos mais eficazes, devem ser adotadas. Contudo, tais argumentos pertencem ao domínio da lei natural, não ao mandamento sobrenatural da caridade. * A lei natural, embora não codificada, confere às disposições racionais uma qualidade participativa na ordem das coisas, assegurada por uma virtude natural de estima e medida. Essa sabedoria prática, esse senso do possível e do impossível, é insubstituível. Sem ele, a razão legisla no vazio abstrato do a priori, onde tudo é possível e nada é real. Rousseau e Kant exemplificam essa razão pura, que, desligada das virtudes naturais, produz alienação nas mediações abstratas. Tal racionalismo oferece o "miragem das soluções perfeitas", que constitui um pecado contra a inteligência. * A interpretação social da caridade destrói sua essência mais evidente. Em lugar do amor ao próximo concreto, instaura-se uma devoção sentimental a um sistema teórico. A caridade deixa de ser amor a Deus e ao homem individual, tornando-se amor à construção abstrata que promete a felicidade coletiva. O resultado é a alienação estrutural, em que a razão econômica e social devora o coração das antigas virtudes cristãs. Assim, "a caridade do cristão moderno não é o amor pelos homens, mas o amor por uma construção abstrata que deve torná-los felizes", enquanto o deserto da razão se estende sobre o espírito humano e aprofunda o desespero universal.