====== TRÊS ASPECTOS DA VIA ====== * O Sufismo operativo, como toda via contemplativa, implica três elementos constitutivos — a doutrina, a virtude espiritual e a “alquimia espiritual” — cuja integração orienta a transformação interior. * A doutrina fornece a assimilação das verdades. * A virtude representa a conformidade volitiva. * A alquimia espiritual é arte de concentração. * A inteligência doutrinal, embora indispensável, é estática e não transforma a alma sem o concurso da vontade, podendo inclusive dissipar-se quando apropriada apenas mentalmente, como advertido pelo exemplo da solução sobressaturada. * A compreensão pode libertar tensões, mas não transmutar por si. * A vontade é o elemento dinâmico da via. * A adesão puramente mental conduz à perda da intuição inicial. * A vontade deve tornar-se “pobre” diante de Deus, conformando-se à virtude espiritual (al-ihsân), definida pelo Profeta como adoração como se Deus fosse visto, e cuja profundidade depende do sentido interior dos ritos mais do que da extensão quantitativa do saber. * A virtude é concentração latente da alma. * O esforço quantitativo e a vontade cega não conduzem ao conhecimento. * O essencial é a realização atual dos significados rituais. * As práticas espirituais incluem elementos que excedem a inteligência teórica, sendo os suportes menos discursivos os que frequentemente transmitem graças mais poderosas, pois a Verdade supera suas prefigurações mentais. * Há inversão entre clareza racional e eficácia espiritual. * Os símbolos tornam-se mais simples e sintéticos na contemplação. * A economia espiritual reflete a transcendência da Verdade. * A aproximação à Realidade divina, que é simultaneamente Conhecimento e Ser, exige superar não apenas a ignorância, mas também o apego ao saber teórico e outras formas de irrealidade. * O saber puramente mental pode tornar-se obstáculo. * A superação inclui o abandono da apropriação intelectual. * O Conhecimento unitivo elimina a mente discursiva. * Muitos sufis, entre eles Muhyî-l-Dîn Ibn ‘Arabî e ‘Omar al-Jayyam, afirmam a primazia da virtude e da concentração sobre o saber, reconhecendo a relatividade de qualquer formulação teórica. * O estudo deve culminar na intuição. * A verdade transmitida pela mente deve ser superada. * A contemplação exclui o erro, mas também a limitação mental. * A virtude espiritual é forma qualitativa da vontade e participação numa Cualidade divina, distinguindo-se da virtude ordinária por sua pureza de interesse individual, conforme ensina Ahmad Ibn al-’Arif. * A virtude contém conhecimento implícito. * Não visa recompensa exterior. * Não é mero ascetismo nem sublimação psíquica. * Nasce de um pressentimento da Realidade divina. * Reflete irradiação crescente da Cualidade divina. * O conhecimento é supraindividual, enquanto as virtudes são aquisições estáveis do ser que refletem graus de conhecimento e constituem suportes indispensáveis para ele. * As virtudes são estáveis e volitivas. * Correspondem a graus espirituais. * Não são improvisações mentais. * A distinção entre “estado” (al-hâl) e “estação” (al-maqâm) descreve imersões passageiras na Luz divina e sua estabilização, sendo os esquemas psicológicos apenas indicativos. * Estados incluem lawâ’ih, lawâmi’, taŷallî. * Estação é estado tornado permanente. * A correspondência com virtudes é complexa. * Todas as virtudes podem resumir-se na pobreza espiritual (al-faqr), que é vacare Deo, e na sinceridade (al-ijlâs ou al-sidq), anulação do ego diante da Verdade. * A pobreza é vazio para Deus. * A humildade pertence ao servidor. * A veracidade reflete atributo do Senhor. * A simplicidade divina é analogia inversa da pobreza. * A sinceridade implica o fim da duplicidade da consciência e a independência frente ao ego, de modo que o al-siddîq age sem complacência consigo mesmo. * O ego é pseudo princípio interposto entre Deus e o mundo. * A visão sincera contempla com o olhar da Verdade. * O ato não busca reconhecimento próprio. * O amor integral, colocado por Muhyî-l-Dîn Ibn ‘Arabî no cume das moradas da alma, é síntese das virtudes e vontade transfigurada pela atração divina. * Exige amor a Deus na criação e em Si mesmo. * Inclui caridade para com os “menores”. * Resume as virtudes na santidade (al-wilâya). * A virtude é base indireta da concentração, pois alma viciosa não sustenta atenção espiritual, e a alquimia interior opera a transmutação das potências naturais do psiquismo. * A concentração abre caminho à Graça. * A alma é como matéria a ser transmutada. * O objetivo é tornar a alma cristalina e ordenada. * A alquimia espiritual envolve fases de liquefação, congelamento, fusão e cristalização, mobilizando forças análogas ao calor, frio, umidade e secura, correspondentes aos princípios do Enxofre e do Mercúrio. * O calor corresponde à expansão e ao amor. * O frio corresponde à contração e ao temor. * A umidade indica passividade receptiva. * A secura indica atividade fixadora. * O equilíbrio é alternância harmoniosa, como respiração. * A Espiração e a Ordem divinas operam na concentração por meio do símbolo verbal repetido (dhikr), cujas permutações (tasrîf) no coração exprimem as Realidades divinas (haqâ’iq). * O Nome divino reúne doutrina, virtude e alquimia. * O poder teúrgico do Nome atua interiormente. * O símbolo é meio de Graça. * A dissolução do egocentrismo pode ocorrer por conversão (al-tawba), sacrifício ou renúncia que revelem o “olho do coração” (‘ayn al-qalb), enquanto a alquimia transforma a estrutura psicofísica pela ação orgânica e pela irradiação da Graça. * A virtude atua sobre a volição. * A concentração atua sobre os fundamentos orgânicos. * A visão interior pode surgir subitamente. * A máxima de al-’Arabî al-Hasanî al-Darqâwi resume a via ao afirmar que o sentido espiritual (al-ma’nâ) exige suporte sensível (al-hiss), recordação (al-dhikr) e ruptura das disposições naturais passivas. * O sentido é sutil e requer suporte concreto. * A conversação espiritual (al-mudâkara) conserva a percepção. * A ruptura das rotinas naturais sustenta a vigilância.