====== CONHECIMENTO E AMOR ====== * Um traço característico do Sufismo consiste na manutenção frequente de um equilíbrio entre amor e conhecimento, de modo que a expressão afetiva integra mais facilmente a atitude religiosa islâmica, permite enunciar verdades esotéricas sem conflito com a teologia dogmática e simboliza, pela embriaguez do amor, os estados de conhecimento que superam o pensamento discursivo. * A linguagem do amor harmoniza-se com o ponto de partida religioso da espiritualidade islâmica. * As verdades esotéricas podem ser expressas sem oposição à teologia dogmática. * A embriaguez amorosa simboliza estados supra-discursivos de conhecimento. * Certas expressões evocam o amor por refletirem beleza interior como selo da Unidade na alma. * Da Unidade procedem a clareza e o ritmo, enquanto toda crispação mental e toda vaidade nas palavras contradizem a simplicidade e a transparência da alma diante do Espírito. * A clareza manifesta conformidade com a Unidade. * O ritmo exprime harmonia interior. * A vaidade verbal obscurece a transparência espiritual. * Entre os autores sufis distinguem-se aqueles de atitude fundamentalmente intelectual, como Muhyi-dîn ibn ’Arabî, Ahmad ibn al-‘Arîf, Suhrawardî de Alepo, Al-Ŷunayd e Abû-l-Hasan al-ŠSâdilî, que consideram a Realidade divina como essência universal de todo conhecimento, e aqueles que se exprimem pela linguagem do amor, como ‘Umar ibn al-Fârid, Mansûr al-Hallâŷ e Yalâl al-Dîn Rûmî, para os quais a Realidade divina é objeto ilimitado do desejo, sendo tal diversidade decorrente de diferenças de vocação e não de divergências escolares ou influências externas. * A atitude intelectual afirma a Realidade como essência do conhecimento. * A atitude afetiva exprime a Realidade como objeto ilimitado do desejo. * A diversidade relaciona-se a vocações e caracteres humanos. * Não procede a hipótese de influência neoplatônica como causa determinante. * A diferença entre atitude intelectual e afetiva é a mais geral nesse campo. * O Hinduísmo distingue explicitamente as vias do conhecimento (jnâna), do amor (bhakti) e da ação (karma), distinção que reaparece no Sufismo sob as formas da gnose (al-ma’rifa), do amor (al-mahabba) e do temor (al-jawf), sendo característica do Sufismo a tendência à síntese dessas atitudes sob a orientação intelectual derivada da doutrina da Unidade (al-Tawhîd), enquanto o amor surge espontaneamente onde a Realidade divina é reconhecida. * As três vias correspondem a três motivos principais de aspiração a Deus. * O Sufismo busca síntese mais que diferenciação. * A doutrina da Unidade fundamenta a orientação intelectual islâmica. * O amor nasce do reconhecimento ou contemplação da Realidade divina. * A opinião de que apenas os sufis de atitude amorosa representariam a mística islâmica resulta da aplicação indevida de critérios próprios do Cristianismo, onde o Amor divino é tema central, ao passo que no Islã a primazia do conhecimento é indiscutível, sem que isso implique supremacia do mental, pois o órgão da gnose é o coração e sua irradiação abrange toda a alma. * No Cristianismo a gnose exprime-se geralmente pelo simbolismo do amor. * No Islã o conhecimento possui primazia em todos os graus. * O conhecimento não exclui as faculdades emotivas. * O coração é centro secreto do conhecimento. * O conhecedor impessoal pode exprimir-se pela linguagem do amor. * A distinção entre via do conhecimento e via do amor reduz-se ao predomínio relativo de uma ou outra, pois o conhecimento gera amor e o amor pressupõe conhecimento do objeto amado, sendo o amor espiritual dirigido à Beleza divina, aspecto da Infinitude, coincidindo virtualmente com o conhecimento. * Nunca há separação completa entre os dois modos. * O amor integral possui infalibilidade subjetiva na relação pessoal com o Senhor. * A infalibilidade do conhecimento refere-se às verdades universais. * A Beleza divina constitui objeto do amor espiritual. * Verdade e beleza funcionam como critérios recíprocos, embora preconceitos sentimentais deformem a beleza e o racionalismo limite a verdade. * O critério estético pode confirmar o verdadeiro. * O critério da verdade pode confirmar o belo. * Sentimentalismo e racionalismo introduzem distorções. * A tradição islâmica mostra que não há metafísico muçulmano que não tenha composto poesia, como se observa inclusive em ’Umar ibn al-Fârid e Yâlal al-Dîn Rûmî, cujas obras unem imagens poéticas e apreciações intelectuais. * A prosa metafísica transforma-se por vezes em linguagem cadenciada. * A poesia amorosa contém elementos intelectuais. * Intelecto e beleza coexistem na expressão sufí. * A atitude do temor (al-jawf), correspondente à via da ação, atua de modo implícito, podendo despertar o homem do «mundo» e colocá-lo diante da Realidade eterna, sendo o amor superior ao temor e o conhecimento imediato superior ao amor, por transcender o pensamento discursivo. * O temor situa-se no limiar da contemplação. * Pode romper o sono coletivo do mundo. * O conhecimento imediato ultrapassa a razão. * O amor espiritual imprime o selo da Unidade às faculdades. * Ahmad ibn al-’Atîf define o amor (al-mahabba) como princípio dos vales da extinção (fana’) e colina que conduz aos graus do aniquilamento (almahw), ponto de encontro entre o crente ordinário e os eleitos. * O amor inicia o processo de extinção espiritual. * Marca transição entre graus de realização. * Une vanguarda do crente e retaguarda dos eleitos. * Muhyi-l-Dîn ibn ’Arabî considera o amor a estação suprema da alma, subordinando-lhe outras perfeições humanas, pois o conhecimento perfeito identifica-se com a Realidade divina e não constitui mais uma estação da alma, enquanto o amor integral representa a absorção completa da vontade humana pela atração divina, tendo como protótipo humano Abraão. * O conhecimento perfeito não possui limite psíquico. * O conhecimento situa-se do lado da Realidade divina. * O amor integral é absorção da vontade humana. * O estado do «louco de amor» tem como figura exemplar Abraão.