====== CONTEMPLAÇÃO SEGUNDO IBN ARABI ====== * Segundo Ibn ‘Arabî, o estado espiritual (al-hâl), como iluminação súbita do coração, nasce da ação recíproca entre a irradiação divina (al-taŷallî) e a predisposição (al-isti‘dâd) do coração, podendo cada polo parecer determinante ou determinado conforme o ponto de vista adotado. * Al-taŷallî e al-isti‘dâd formam uma polaridade constitutiva do al-hâl. * A determinação recíproca depende do ângulo de consideração. * A iluminação é descrita como súbita e cardíaca. * Diante da Realidade divina informal e onipresente, o caráter particular de um estado espiritual só pode ser atribuído à predisposição do coração, conforme a parábola de Al-Ŷunayd segundo a qual a água toma a cor do recipiente. * A Realidade divina não é delimitável por qualidades. * A receptividade íntima do coração dá o “colorido” do estado. * A imagem do recipiente explicita a diferenciação no receber. * A predisposição do coração é pura potencialidade e não pode ser conhecida fora da irradiação, porque a potencialidade só se sonda quando seus conteúdos se atualizam, sendo a irradiação o que atualiza e dá inteligibilidade ao estado. * A atualização manifesta a potencialidade. * A irradiação confere qualidade inteligível ao al-hâl. * A irradiação afirma-se como nome ou aspecto divino. * A predisposição permanece “a coisa mais oculta”, segundo Ibn ‘Arabî na Sabedoria dos Profetas, capítulo sobre Set. * A receptividade do coração não contém nada que não seja resposta às fulgurações da revelação divina, que variam segundo os nomes de Deus e não se esgotam nem pela irradiação inesgotável nem pela plasticidade primordial do coração. * A alternância das fulgurações estrutura a experiência. * A variação acompanha a multiplicidade dos nomes divinos. * O processo é inesgotável por ambos os lados. * Ibn ‘Arabî alterna dois critérios ao afirmar ora que a forma receptiva do coração colore uma irradiação cujo conteúdo é inacessível, ora que a forma do coração se adapta integralmente aos modos da irradiação, sendo o limite imposto pelo recipiente nulo diante do conteúdo qualitativo que é Qualidade (sîfa) ou Realidade (Haqîqa) divina na Essência una. * O limite receptivo não altera a realidade do conteúdo divino. * A manifestação pode ser entendida como objetiva nas qualidades universais. * A realidade subjetiva remete à Essência. * A contradição é apenas aparente por referir-se a planos distintos. * No capítulo sobre Jetro, Ibn ‘Arabî descreve o coração do gnóstico (al-‘ârif) como de tal amplitude que Abû Yazîd al-Bistâmi e Al-Ŷunayd ilustram sua capacidade de conter o eterno sem sentir o efêmero, mas sustenta que o coração deve dilatar-se e contrair-se conforme as modalidades da irradiação, pois o adorador se manifesta a Deus segundo a forma com que Deus se lhe revela. * A amplitude do coração é exemplificada por al-Bistâmi. * A anulação do efêmero diante do eterno é enfatizada por Al-Ŷunayd. * A irradiação varia e exige qabd e bast como respostas do coração. * A manifestação do adorador segue a forma do taŷallâ divino. * A predisposição fundamenta-se na essência imutável (al-‘ayn al-tâbita) do ser, recebida no estado de não-manifestação (al-gayb) no mistério da Aseidade (al-huwiyya), e depois é marcada objetivamente pelas formas dos nomes divinos, de modo que coração e revelação se espelham reciprocamente. * A predisposição exprime a possibilidade permanente do ser em Deus. * O núcleo essencial e imperecível recebe predisposição no al-gayb. * A comunicação ocorre na al-huwiyya. * A revelação imprime formas dos nomes e aspectos. * A reciprocidade é descrita como visão mútua e manifestação correlata. * A polaridade espiritual entre irradiação e predisposição reduz-se à polaridade metafísica entre o Ser (al-Wuyûd) e as essências imutáveis (al-a‘yân al-tâbita) no abismo não manifestado da Essência, sendo o desbordamento (afâda) do Ser inseparável das limitações implícitas que constituem o mundo e, ao mesmo tempo, sem realidade própria fora da Essência una (al-Dât). * As distinções são limitações constitutivas do mundo. * As limitações nada acrescentam à luz do Ser. * As essências imutáveis não se distinguem realmente da Essência. * As possibilidades relativas refratam o Ser em modos diversos. * O Ser polariza-se em aspectos pessoais em relação às possibilidades. * Essa visão global não pretende explicação psicológica, alquímica ou mística, mas funciona como chave intelectual para superar a antítese sujeito-objeto. * A finalidade é reintegração intelectual. * A oposição sujeito-objeto é tratada como antítese a superar. * O alcance é especulativo e não psicológico. * A predisposição do coração não se reduz à psicologia, embora tenha sombra psicológica, sendo apenas parcialmente captável retrospectivamente e por símbolos, e só podendo ser conhecida diretamente por integração intelectual no arquétipo fora de toda ordem criada, como participação predestinada no Conhecimento divino que abarca os arquétipos em não-manifestação. * As apreensões simbólicas são imperfeitas. * A totalidade escapa à consciência. * O conhecimento direto requer Conhecimento divino. * Os arquétipos são relações internas à Essência sem formas. * A participação é ajuda divina vinculada ao conteúdo da essência imutável. * O conhecimento do próprio arquétipo identifica-se com o Si mesmo (Atman) ou com a Ipseidade (al-huwiyya) e é subjetivo de modo divino por implicar identificação do espírito com o Sujeito divino, fazendo do ego um objeto relativo diante do Sujeito absoluto, enquanto a contemplação objetiva de Deus nos nomes é Deus contemplando-se em Suas qualidades das quais os seres são suportes. * Atman e al-huwiyya nomeiam o núcleo do conhecimento de si. * A identificação desloca o ego ao estatuto de objeto. * A contemplação nos nomes não é ato do sujeito relativo. * Os seres funcionam como suportes de manifestação das qualidades. * Em sua Essência infinita e impessoal, Deus não se torna objeto de conhecimento e permanece como Testemunho (Šâhid) implícito de todo ato cognoscitivo, conforme o Corão (VI, 102), sendo a identificação com o Sujeito divino operação procedente do próprio Deus e reconhecida quando Deus a faz ver. * O Testemunho não é apreendido porque apreende todas as coisas. * A identificação depende de conteúdo da essência imutável reconhecido por iluminação. * O conhecimento de si procede do Si mesmo e não do ego. * Há prefigurações intelectuais com graus de atualidade. * Ibn ‘Arabî afirma que a revelação essencial (Taŷallî dâtî) só ocorre segundo a forma da predisposição do ser, de modo que quem a recebe vê no espelho divino apenas sua própria forma e não vê Deus, analogamente ao espelho material, o que exprime a inapreensibilidade do Sujeito absoluto e evoca a perspectiva do Vedanta. * A forma refletida é vista graças ao espelho, sem ver o espelho. * A impossibilidade de ver simultaneamente espelho e forma é lei do símbolo. * O símbolo aponta para Atman como Sujeito inapreensível. * A polaridade simbólica não esgota a Essência além do dualismo. * Ibn ‘Arabî apresenta esse limite como ápice do que a criatura pode alcançar objetivamente e adverte contra buscar além, mas distingue tal limite de um conhecimento direto inexprimível, retomando a máxima atribuída a Abu Bakr e afirmando que há quem conheça sem impotência, por implicar o inefável. * O limite objetivo é descrito como fronteira extrema. * A advertência refere-se ao esforço por via objetiva. * A máxima de Abu Bakr caracteriza conhecimento como reconhecimento de impotência. * O conhecimento verdadeiro é dito inexprimível. * O mestre resume afirmando que Deus é o espelho em que o ser se vê e que o ser é o espelho em que Deus contempla Seus Nomes, sendo os Nomes Ele mesmo e a analogia das relações inversa. * A relação é especular e recíproca. * Os Nomes não são outros além de Deus. * A inversão preserva a transcendência da Essência.