====== CRIAÇÃO ====== * A ideia de criação comum às três religiões monoteístas parece contradizer a Unidade essencial de todos os seres, mas essa oposição se atenua quando a “nada” (‘udum) é entendida metafisicamente como não-existência ou não-manifestação, de modo que as possibilidades estão contidas na Essência divina sem distinção nem existência (mawŷûd) antes de sua expansão relativa. * A creatio ex nihilo parece negar a preexistência e a subsistência das possibilidades na Essência. * A noção hindu de manifestação relaciona os seres como reflexos do Absoluto. * A “nada” é interpretada como estado principial de não-manifestação. * “Existência” implica condição e distinção virtual entre conhecedor e conhecido. * O ato de “criar”, segundo o sentido árabe de jalaqa, corresponde a “atribuir medida” e, em plano metafísico, à primeira determinação (ta‘ayyun) das possibilidades no Intelecto divino, distinguindo-se logicamente de sua “produção na existência” (îŷâd) e descrevendo uma cosmogonia em que Deus concebe simultaneamente as possibilidades, fixa seu qadr e as faz aparecer, manifestando-se (zahara) nelas. * Jalaqa é entendido como atribuição de medida própria. * Ta‘ayyun designa a primeira determinação no Intelecto divino. * A criação precede logicamente o îŷâd. * O qadr define a capacidade de desenvolvimento relativo. * A manifestação ocorre como zahara nas possibilidades tornadas existentes. * Enquanto Criador (Jâliq), Deus opera uma escolha entre possibilidades manifestáveis, o que se exprime por atributos pessoais como Juízo (al-hukm), Vontade (al-irâda) e Ação (al-fi‘l), sendo o antropomorfismo apenas uma alusão (išâra), ao passo que uma perspectiva mais ampla considera que, na Infinitude da Essência, as possibilidades são eternamente o que são e a escolha coincide com sua própria natureza. * A escolha liga-se à Persona (al-Nafs) divina por analogia com a pessoa humana. * Os atributos pessoais são linguagem alusiva, não limitação. * No Infinito, as possibilidades estão contidas no Conhecimento divino como são. * A seleção das possibilidades coincide com sua natureza essencial. * O Ser divino manifesta-se em si mesmo segundo todos os modos possíveis, sem limite. * O mundo é essencialmente a manifestação de Deus a si mesmo, conforme o hadît qudsî “Eu era um Tesouro oculto; quis ser conhecido e criei o mundo”, e os sufis comparam o Universo a espelhos que refletem em graus diversos a irradiação (at-taŷallî) do Ser único, espelhos que significam tanto determinações da Essência (al-Dât) quanto, cosmologicamente, substâncias receptivas (qawâbil) diante do Ato puro (al-Amr). * O vínculo entre criação e conhecimento é explicitado pela máxima sagrada. * Os espelhos simbolizam possibilidades de autodeterminação da Essência. * Kamâl fundamenta a soberania da Essência sobre suas possibilidades. * Em sentido cosmológico, os espelhos são qawâbil em relação ao al-Amr. * A multiplicidade integra-se na Unidade pela irradiação do Ser único. * A polaridade entre o Ser divino (al-Wuŷûd), como primeira afirmação perfeita da Essência (al-Dât), e as possibilidades principiais (al-a‘yân al-tâbita), entendidas como determinações ou relações (nisab) “não existentes como tais embora permanentes”, reverte inteiramente à Essência, como formula Ibn ‘Arabî na Sabedoria dos Profetas ao tratar de Henoch. * Al-Wuŷûd é a afirmação incondicionada da Essência. * Al-a‘yân al-tâbita são determinações e relações. * A permanência não equivale a existência como tais. * Ibn ‘Arabî fornece a formulação da permanência não-existente. * A oposição lógica entre Ser e possibilidades principiais não designa entidades cósmicas distintas, mas funciona como chave para reintegrar todas as dualidades na Unidade da Essência, e o simbolismo da fonte luminosa cujo transbordamento (al-fayd) recai sobre possibilidades comparadas ao espaço tenebroso não implica emanação substancial, pois nada existe fora do Ser. * A distinção é especulativa e reintegrativa. * O al-fayd é símbolo de revelação, não de saída substancial do Ser. * O Ser não pode sair de si mesmo porque nada é fora dele. * A comparação com espaço tenebroso expressa receptividade e limitação. * O Ser revela a Essência por afirmação, enquanto as possibilidades principiais se reduzem a ela por negação por serem limitações quando logicamente separadas do Ser, de modo que Ibn ‘Arabî afirma que todas as possibilidades (mumkinât) se reduzem à não-existência (‘udum) e que não há ser senão o Ser de Deus manifestado nas formas dos estados derivados dessas possibilidades. * Afirmação e negação são modos complementares de referência à Essência. * As possibilidades são limitações apenas sob separação lógica. * Mumkinât reduzem-se a ‘udum como princípio. * O Ser de Deus aparece nas formas dos estados resultantes das determinações essenciais. * A formulação é atribuída por Ibn ‘Arabî ao capítulo sobre Jacob. * A distinção no limite do concebível entre Ser e essências imutáveis permite ver a manifestação universal como autodeterminações (ta‘ayyunât) da Essência e como revelações (taŷalliyât) divinas nelas, afirmando o Ser como único em cada possibilidade manifestada e sustentando a diversidade sem separação essencial do Uno. * Ta‘ayyunât expressam subjetivações da Essência. * Taŷalliyât são aparições divinas nas determinações. * O Ser confirma sua unicidade em cada possibilidade. * A diversidade provém das possibilidades sem romper a Unidade. * Embora formulável logicamente, essa distinção não se situa no plano racional, pois a coincidência paradoxal do Ser (Wuŷûd) com as possibilidades principiais (a‘yân), que segundo Ibn ‘Arabî “nunca sentiram o cheiro da existência”, espelha a coincidência de existência e ausência (‘udum) e exprime simultaneamente a vacuidade das coisas e sua condição de símbolos puros. * A distinção resolve-se na Infinitude divina além do raciocínio. * A‘yân são descritas como sem contato com a existência. * A coincidência Wuŷûd/‘udum é apresentada como paradoxal. * A vacuidade budista é aproximada como expressão correlata. * As coisas aparecem como símbolos, não como realidades autônomas.