====== RENOVAÇÃO DA CRIAÇÃO ====== * A doutrina sufí da “renovação da criação em cada instante” (Taŷdîd al-jalq bil-anfâs) afirma que as essências imutáveis (al-a‘yân al-thâbita) nunca aparecem como tais na existência, mas apenas suas modalidades relativas, cuja variação não se esgota sucessivamente, como o fluxo (fayd) de um rio que obedece à configuração imutável de seu leito. * As modalidades não “saem” de seus arquétipos. * O fayd representa a efusão incessante do Ser. * O leito simboliza a determinação imutável. * O prisma incolor figura o arquétipo que refrata a luz do Ser. * No mundo espiritual (‘âlam al-arwâh ou al-Ŷabarût), a multiplicidade dos reflexos de um arquétipo manifesta-se como riqueza de aspectos contidos uns nos outros, sem repetição, enquanto no mundo da individuação (‘âlam al-mitâl) essa variedade se exprime sucessivamente sob a condição da forma, aproximando-se da repetição no mundo corporal (‘âlam al-ajsâm), sem jamais atingi-la. * A variedade espiritual exprime diretamente a Unicidade divina. * A forma implica delimitação e exclusão recíproca. * O mundo das analogias contém formas psíquicas e corporais. * A repetição pura dissolveria as qualidades do mundo. * Considerada sob o ponto de vista temporal, a projeção do arquétipo renova-se a cada instante, de modo que o ser relativo está submetido a aniquilamento e manifestação contínuos, como ensina Muhyî-l-Dîn ibn ‘Arabî ao afirmar que não há intervalo entre destruição e aparecimento do semelhante (matal). * A sucessão é lógica, não temporal. * O instante de aniquilação coincide com o da nova manifestação. * ‘Abd al-Razzâq al-Qašâni confirma a ausência de intervalo perceptível. * O versículo corânico sobre a “criação nova” exprime essa renovação. * A imagem budista da chama ilustra identidade sem permanência substancial. * A analogia da chama mostra que a luz corresponde ao Ser (al-Wuŷûd) e a forma da chama ao arquétipo que sustenta sua continuidade relativa, exprimindo simultaneamente a descontinuidade quase absoluta do cosmos e sua continuidade quase absoluta enquanto reflexo da Causa divina. * A chama não possui autonomia, mas existe. * A descontinuidade exprime o caráter ilusório do mundo. * A continuidade exprime a dependência do reflexo em relação ao Princípio. * A não-existência permanente corresponde à pura possibilidade. * O Ser permanente é a revelação da Essência una. * Os “alentos” ou “espirações” remetem à Espiração do Clemente (Nafas al-Rahmân), princípio divino que dilata (naffasa) as possibilidades a partir de seu estado de interioridade (butûn), manifestando-as por Misericórdia (ar-Rahmâ) como transbordamento (afâda) do Ser sobre as essências limitadas. * A interioridade aparece como contração (karb). * A dilatação manifesta as possibilidades relativas. * A Espiração vincula-se à Misericórdia total. * O transbordamento não implica perda da plenitude divina. * O simbolismo do alento relaciona-se à Palavra divina, pois os sons ou letras (hurûf) são análogos aos arquétipos refletidos no cosmos, e o sopro que sustenta a articulação corresponde ao princípio que manifesta e mantém as possibilidades, sendo a Espiração complemento dinâmico e feminino da Ordem divina (al-Amr) expressa pelo “sê” (kun). * O alento é suporte da manifestação sonora. * Al-Amr representa o ato puro. * A Espiração corresponde dinamicamente à Ordem. * Muhyî-l-Dîn Ibn ‘Arabî identifica-a com al-Tabî‘a. * A função cosmogônica aproxima-se da Shakti hindu. * A teoria da renovação da criação relaciona-se diretamente à realização espiritual, pois a alma pertence ao mundo dos semelhantes (‘âlam al-mitâl), sendo composta por reflexos sucessivos sem continuidade própria, de modo que a identidade do “eu” é apenas reminiscência da huwiyya eternamente subsistente na Essência infinita. * A alma inclui paraísos formais e infernos. * O “eu” carece de continuidade substancial. * A huwiyya é possibilidade eterna na Essência. * O que ilumina e conhece a sucessão incessante dos semelhantes e os reconduz ao arquétipo não é a consciência individual, mas a Inteligência pura e transcendente. * A consciência individual é incapaz de apreender a totalidade. * A Inteligência pura estabelece a relação com o arquétipo. * A transcendência garante a reintegração na Unidade.