====== SUFISMO E MISTICISMO ====== * Os manuais científicos definem habitualmente o Sufismo como «misticismo muçulmano», admitindo-se o qualificativo «místico» apenas se for entendido no sentido dos Padres gregos e de seus continuadores espirituais, isto é, como conhecimento dos mistérios, e não como mera intensificação subjetiva da religião islâmica ordinária. * O termo «místico» é aceitável quando vinculado ao conhecimento dos mistérios. * A acepção original remete ao uso patrístico grego. * A distinção visa separar o Sufismo da religiosidade islâmica comum. * A expressão «misticismo» passou a designar indevidamente manifestações religiosas marcadas por subjetividade individual e limitadas ao horizonte exotérico, embora existam casos extremos como o maŷdûb, cuja atração divina anula as faculdades mentais, sem que isso constitua formulação doutrinal contemplativa. * O abuso terminológico associa misticismo a experiências subjetivas. * O maŷdûb exemplifica atração divina predominante que invalida faculdades mentais. * A incapacidade de formular doutrina distingue tais estados do esoterismo estruturado. * No mundo islâmico, o termo tasawwuf aplica-se exclusivamente a vias contemplativas regulares dotadas de doutrina esotérica e transmissão iniciática, sendo legítima a comparação entre sufis e místicos cristãos apenas sob o sentido estrito do termo, mas permanecendo diferenças quanto à centralidade do amor espiritual e do conhecimento intelectual puro. * Tasawwuf implica transmissão de mestre a mestre. * A comparação com místicos cristãos exige acepção original de mística. * O amor espiritual (almahabba) aproxima-se do bhakti-marga hindu. * Figuras como Ibn ’Arabî e Shrî Shankarâchârya representam contemplação intelectual pura. * O esoterismo islâmico distingue-se claramente do exoterismo definido como lei comum. * Toda via contemplativa integral, como a sufi ou a mística cristã em sentido original, distingue-se da devoção impropriamente chamada mística por implicar atitude intelectual ativa orientada à Realidade essencial (al-haqîqa), ultrapassando o pensamento discursivo e a subjetividade individual. * A atitude ativa não corresponde a individualismo intelectualista. * A abertura dirige-se à Realidade essencial transcendente. * A superação da subjetividade individual caracteriza a contemplação integral. * O sufi mantém adoração conforme a Lei revelada e reconhece sua condição permanente de servidor, ainda que sua inteligência, identificada ao «Raío divino», transcenda os limites impostos pela razão e pela forma religiosa, manifestando simultaneamente passividade individual e ato puro espiritual. * A prática religiosa comum permanece obrigatória. * A máxima al-'abd yabqâ-l-’abd afirma permanência da servidão. * A Presença divina manifesta-se como Graça. * A inteligência identifica-se ao Raio divino em atualidade espiritual. * Nem todo contemplativo sufi alcança conhecimento supraformal, mas a finalidade visada exige meios espirituais que permitem assumir posição ativa frente ao eu empírico, conforme indicado pelo Corão e pela invocação de ’Abd al-Salam ibn Mašǐš, culminando na identificação com a Verdade e o Nome divino. * O fim determina horizonte intelectual e meios espirituais. * O Corão (XXI, 18) afirma a destruição da vaidade pela verdade. * ’Abd al-Salam ibn Mašǐš invoca a destruição da vaidade. * A emancipação conduz à superação da individualidade. * A essência intelectual do Sufismo imprime caráter às virtudes humanas, entendidas como orientações que dão acesso às Verdades universais, em oposição à concepção moralista e individualista da virtude. * A comparação com os hesicastas evidencia convergência prática. * Virtudes são orientações subjetivas às Verdades universais. * Rejeita-se concepção quantitativa e apriorística da moral. * A diferença entre Sufismo e misticismo religioso reduz-se à doutrina, pois enquanto o exoterista mantém separação irredutível entre si e a Divindade, o sufi reconhece a Unidade essencial de todos os seres, conforme expressões como a de Mestre Eckhart acerca do Intelecto incriado. * O esoterismo afirma natureza divina do Conhecimento. * O exoterismo limita-se à inteligência formal e verdades parciais. * Mestre Eckhart menciona algo incriado na alma identificado ao Intelecto. * A mentalidade religiosa confunde Intelecto divino com reflexo criado. * A incompreensão exotérica atribui ao sufi pretensão voluntarista, quando na ordem principial o conhecimento impessoal precede a vontade, sendo os meios iniciáticos de natureza conforme à Verdade supraindividual os únicos capazes de dissolver o nó da individuação, ao contrário da ascesis (al-zuhd), que possui função apenas preparatória. * O exoterista enfatiza esforço e mérito. * O conhecimento é dom divino e não produto de iniciativa individual. * A Verdade (al-haqîqa) dissolve a ilusão egocêntrica. * A ascesis tem papel auxiliar. * O simbolismo do combate entre o Espírito (al-Rûh) e a alma (al-nafs) pela posse do coração (al-qalb) exprime a luta entre princípio intelectual transcendente e psique egocêntrica, culminando na transformação do coração em tabernáculo (miskât) do Mistério (sirr) divino quando o Espírito prevalece. * Al-Rûh representa princípio intelectual supraindividual. * Al-nafs designa psique centrífuga e veladora. * O coração é ponto de interseção entre vertical e horizontal. * A vitória do Espírito ilumina e transmuta a alma. * O Espírito (al-Rûh), feminino em árabe e receptivo em relação ao Ser Supremo, identifica-se com a Ordem divina (al-Amr) simbolizada pelo «kun» corânico, e a realização contemplativa reintegra o ser nessa enunciação primordial, conforme também indicado pelo Evangelho de São João e pela máxima segundo a qual «o Sufí não foi criado», retomada por Muhyî-l-dln ibn ’Arabî ao afirmar a possibilidade principial eterna. * O Corão (XVII, 84) associa o Espírito à Ordem do Senhor. * O «kun» simboliza enunciação eterna do Ser. * O Evangelho de São João afirma que tudo foi feito pela Palavra. * A máxima al-Sûfî lam yujlaq indica identificação com o Ato divino. * Muhyî-l-dln ibn ’Arabî menciona possibilidade principial imutável.