====== ARTE, UMA SUPERSTIÇÃO OU UM MODO DE VIDA? ====== * A superstição é definida como algo que sobrevive de uma época anterior sem que sua compreensão ou aplicação a qualquer uso atual seja preservada. * Uma maneira de viver constitui um hábito condutivo ao bem do homem e ao alcance de sua felicidade presente e última. * A cultura contemporânea caracteriza-se por uma divisão de classes entre artistas e trabalhadores, segregando a arte das ocupações cotidianas de ganha-pão. * O divórcio absoluto entre a vida contemplativa e a vida ativa resultou na substituição da contemplação por uma vida estética baseada no prazer. * A indústria moderna é a primeira na história a existir sem arte, uma vez que o trabalho e o fazer foram apartados da criatividade intelectual. * O valor desmedido concedido à opinião pessoal transforma a obra de arte em uma espécie de autobiografia ou projeção de sentimentos do artista. * A emancipação do artista de sua condição de servidor da igreja ou do estado é vista como um progresso, embora deixe sua imaginação ao acaso. * O respeito à iconografia tradicional, como o demonstrado por Blake, é frequentemente ignorado em favor do conceito de gênio individual. * O conceito de progresso na história da arte é uma ilusão que ignora o declínio do vigor primitivo em direção ao refinamento da sentimentalidade. * O artista primitivo não desenhava como criança por incapacidade, mas sim por possuir um conhecimento da natureza mais íntimo que o do homem urbano. * A arte contemporânea é essencialmente figurativa e representativa da natureza do artista, baseando-se na autoexpressão em vez da forma. * As fórmulas abstratas da arte antiga eram um veículo natural e comum do mundo, ao passo que a abstração moderna é uma invenção pessoal ininteligível. * A estética moderna fundamenta-se na sensibilidade emocional, onde apreciar uma obra significa meramente senti-la fisicamente. * O propósito da arte foi reduzido à revelação de uma beleza que agrada aos sentidos, tornando-o um luxo acessório e inútil. * A composição artística atual é vista como uma distribuição de massas para agrado visual, ignorando a lógica de um conteúdo significante. * O artista trabalha frequentemente para seu próprio prazer, enquanto o patrono perfeito é aquele que não sabe o que quer e respeita a licença do produtor. * A civilização atual nega ao trabalhador o deleite naquilo que faz, tornando o trabalho um fardo do qual ele deseja se evadir no lazer. * O mestre Eckhart observava que o artesão ama falar de seu ofício, diferentemente do operário moderno que foca sua atenção em distrações externas como o futebol. * A indústria sem arte produz aparelhos que carecem de beleza e significação, aproximando a vida civilizada de uma existência mecânica e animal. * A vida dos selvagens, como a dos índios americanos, contrasta favoravelmente por não admitir a existência de uma manufatura desprovida de arte. * A visão normal da arte afirma que esta é a maneira correta de fazer as coisas, onde o artista é o artífice e o homem comum é o patrono. * Na sociedade normal, a ocupação é vocacional e hereditária, visando o bem do grupo e a perfeição individual do trabalhador. * O contato com a civilização industrial destrói a estrutura vocacional de povos tradicionais, reduzindo o artista ao nível de um empregado assalariado. * O medo e o ódio das nações ocidentais por outros povos derivam de razões espirituais e da destruição da arte nativa. * A arte é a incorporação em material de uma forma preconcebida, exigindo operação intelectual livre e manual servil. * Santo Agostinho sustenta que julgamos por ideias como as coisas devem ser, pois as ideias não possuem autoria, mas apenas acolhida no intelecto. * O fim geral da arte é o bem do homem, e em sociedades tradicionais não há distinção entre a arte sagrada e o secular ou utilitário. * A boa arte não é questão de humor, mas um hábito de consciência da forma, tal como a prudência é um hábito de conduta. * O estilo é o homem, sendo a marca inconsciente da natureza pessoal do artista livre que expõe uma doutrina tradicional com originalidade. * A liberdade do artista consiste em seu serviço à obra, enquanto a adulação e a repetição mecânica sem compreensão são servidões desonrosas. * A imitação da natureza na arte refere-se à imitação de Deus em sua maneira de operação, criando formas inteligíveis em vez de aparências passageiras. * A arte normal é abstrata por não buscar o parecido, mas sim a verdade da forma essencial concebida na mente. * A compreensão de uma obra antiga exige a identificação com a mentalidade do artista e do patrono originais, transcendendo a análise dimensional ou química. * O esteta moderno, ao focar apenas no efeito prazeroso em suas terminações nervosas, falha em atingir o conhecimento humano característico da arte. * A beleza é a perfeição apreendida como poder atrativo, dependendo do julgamento e da informação das superfícies, e não das sensações. * Não há graus de perfeição; uma cabine telefônica bem feita é tão bela em seu tipo quanto uma catedral o é no dela. * O artista tradicional não persegue a beleza como fim isolado, mas como um acidente inevitável de fazer o trabalho retamente conforme a razão. * Considerar a beleza à parte do uso é ser um idólatra, pois a beleza está ordenada à geração física ou regeneração espiritual. * A inteligibilidade da arte tradicional depende da legibilidade de seus símbolos, que transmitem um conhecimento de analogias cósmicas. * O homem pré-histórico identificava suas armas com o raio da divindade, e a tecelagem manual com a radiação da luz da criação. * O pecado na arte é definido como qualquer desvio da ordem em direção ao fim, tornando o operário chapuceiro um pecador técnico. * O artista é amoral em sua técnica, mas moralmente responsável como homem por aquilo a que sua vontade consente produzir. * A censura é um autocontrole exercido em sociedades unânimes para garantir o bem do Homem, sendo exercida por uma elite que conhece a verdade metafísica. * A indústria tornou-se um vício e a arte um luxo; a solução exige a prioridade da contemplação sobre a ação. * A arte é uma superstição na modernidade, mas já foi uma maneira de viver integral para a totalidade do ser humano.