====== BUDISMO – O MITO ====== //[[https://archive.org/details/in.gov.ignca.17404|HINDUÍSMO E BUDISMO]]// * A compreensão do budismo é introduzida a partir do mito condensado na vida do Fundador, cuja narrativa épica representa a vitória sobre a morte e cuja personalidade histórica permanece obscurecida pela substância eterna do akālika dharma com a qual se identifica o Buddha, concebido não como homem, mas como manifestação antropomórfica de uma divindade solar junta ao próprio tempo. * A vida do Fundador, de cerca de oitenta anos, assume forma mítica que reúne a totalidade da epopeia da libertação da mortalidade. * A remoção dos elementos milagrosos da narrativa deixa apenas um núcleo histórico mínimo referente a um possível mestre individual. * A personalidade individual do mestre é eclipsada pela substância eterna do dharma atemporal (akālika dharma). * O Buddha é descrito como antropomórfico, não como um homem comum. * A posição de eruditos modernos evemeristas sustenta que teria sido um homem posteriormente divinizado. * A interpretação tradicional afirma o Buddha como deidade solar descendida para salvar homens e deuses da mortalidade. * O nascimento e o despertar do Buddha são considerados coetâneos do próprio tempo. * A distinção entre os epítetos Bodhisattva e Buddha estabelece a diferença entre o ser em processo de despertar e o ser plenamente desperto, sendo o Bodhisattva originalmente mortal que, pela atualização de virtudes e conhecimentos transcendentais, alcança o despertar total de um Buddha. * Bodhisattva significa “ser que desperta” ou de natureza em despertar. * Buddha designa “o Desperto”. * O Bodhisattva é originalmente mortal e torna-se apto ao despertar por virtudes e conhecimentos transcendentes. * Gautama Siddhārtha permanece Bodhisattva até o momento do oni-despertar. * Cada eón sucessivo conhece o nascimento de um Buddha. * Gautama Siddhārtha é o sétimo de uma série de encarnações proféticas. * Maitreya é o Bodhisattva que sucederá futuramente. * Bodhisattvas como Avalokiteśvara permanecem voluntariamente fora da plena Buddheidade até que todos os seres sejam redimidos. * Antes de seu último nascimento terreno, o Bodhisattva reside no céu de Tuṣita e, instado pelos deuses a libertar o universo do sofrimento, escolhe conscientemente o tempo, o lugar e a linhagem de seu nascimento, determinando nascer da rainha Mahā Māyā, esposa do rei Śuddhodana do clã Śākya em Kapilavastu no País do Meio. * O Bodhisattva habita o céu de Tuṣita antes de encarnar. * Os deuses solicitam sua descida para libertar o universo do sofrimento. * A escolha do nascimento envolve decisão sobre época, local e mãe. * Um Buddha deve nascer de casta sacerdotal ou real. * A predominância da casta real determina o nascimento entre os Śākyas. * Mahā Māyā concebe após o sonho do elefante branco que desce do céu. * Intérpretes de sonhos anunciam a possibilidade de nascimento de um Imperador Universal ou de um Buddha. * O giro da roda indica domínio universal em sentido espiritual. * O nascimento do Bodhisattva ocorre no Parque de Lumbini de modo milagroso, sem dor e de forma lateral, seguido por sinais cósmicos que revelam sua natureza extraordinária. * Mahā Māyā dá à luz apoiando-se na rama inclinada de uma árvore. * O nascimento ocorre pelo costado da mãe. * A possibilidade de nascimento virginal é sugerida. * São Jerônimo menciona tradição semelhante em estudo sobre a virgindade, associando-a também aos nascimentos de Platão e de Cristo. * Deidades guardiãs dos quatro quadrantes recebem o recém-nascido. * O menino dá sete passos e proclama sua primazia no mundo. * O universo inteiro se ilumina. * Nascem simultaneamente os “sete conaturais”, incluindo Yaśodharā, o cavalo e o discípulo Ānanda. * Tais eventos são considerados normais sempre que nasce um Buddha. * Após a morte de Mahā Māyā uma semana depois do parto, a criação do príncipe continua em Kapilavastu sob proteção real, acompanhada por presságios de seu destino e por sinais sobrenaturais de sua natureza. * Prajāpatī assume o lugar de Mahā Māyā. * Brâmanes adivinhos predizem que o menino será Imperador ou Buddha aos trinta e cinco anos. * A divindade tutelar dos Śākyas inclina-se diante dele no templo. * Śuddhodana procura impedir sua vocação espiritual criando-o em reclusão luxuosa. * A sombra do árvore sob a qual repousa permanece imóvel enquanto o sol se move. * O príncipe demonstra aprendizado sobrenatural. * Aos dezesseis anos vence prova de arco e flecha atravessando sete árvores. * Casa-se com Yaśodharā e nasce Rahula. * A visão sucessiva dos quatro sinais — velhice, doença, morte e vida monástica — conduz o príncipe à decisão de abandonar o mundo para buscar libertação da mortalidade. * Os quatro sinais aparecem apesar da tentativa real de ocultar o sofrimento. * Os deuses assumem as formas de velho, enfermo, cadáver e monge. * A serenidade do monge revela possibilidade de superação da mortalidade. * O príncipe anuncia a Śuddhodana a decisão de abandonar o mundo. * As portas do palácio são mantidas fechadas. * Durante a noite parte silenciosamente após despedir-se de esposa e filho. * O cavalo e o auriga acompanham a fuga. * A partida do Bodhisattva é seguida pela primeira tentação de Māra e pela renúncia definitiva aos sinais da realeza. * Māra oferece o domínio do mundo em troca do retorno. * O Bodhisattva corta turbante e cabelos. * Deuses elevam esses objetos ao céu como relíquias. * Vestes de peregrino são fornecidas pelos deuses. * O auriga retorna à cidade. * O cavalo morre de tristeza. * O Bodhisattva dedica-se ao aprendizado com mestres brâmanes e às austeridades extremas, abandonando-as posteriormente ao reconhecer sua ineficácia. * Cinco discípulos acompanham a prática ascética inicial. * Os discípulos abandonam-no quando cessa os jejuns. * Sujātā oferece arroz com leite impregnado de ambrosia pelos deuses. * O alimento é recebido em recipiente de ouro. * O Bodhisattva banha-se no rio antes de alimentar-se. * O alimento deve sustentá-lo por sete semanas. * O recipiente lançado ao rio flutua contra a corrente, sinal de triunfo iminente. * O Bodhisattva retorna ao Árbol do Despertar. * Indra, associado a Agni e ao modelo do sacrificador, oferece feixes de erva sacrificial. * O Bodhisattva circunda a árvore e toma assento voltado para o leste. * O trono situa-se no “umbigo da terra”, local tradicional do despertar dos Buddhas anteriores. * O confronto com Māra culmina na vitória espiritual do Bodhisattva, confirmada pelo testemunho da Terra e pela derrota das forças demoníacas. * Māra reclama o trono. * A Terra testemunha as virtudes do Bodhisattva. * Demônios atacam com fogo, trevas e tempestades. * Todas as armas caem desarmadas aos pés do Bodhisattva. * Os deuses retornam após a retirada de Māra. * Durante a noite do despertar o Bodhisattva compreende plenamente a origem causal (pratītya samutpāda) e alcança o estado de Buddha, proclamando a vitória sobre o ciclo da morte. * A realização ocorre gradualmente ao longo da noite. * A compreensão da causalidade universal conduz ao despertar completo. * O universo inteiro se transfigura. * O canto de vitória anuncia a destruição da sede e da construção da “casa” da existência. * O Buddha permanece sete semanas junto à Árvore do Despertar e enfrenta novas tentações antes de decidir ensinar. * As filhas de Māra tentam seduzi-lo. * Surge hesitação diante da possibilidade de ensinar a Lei. * O temor de incompreensão humana suscita vacilação. * Brahmā e os deuses insistem que alguns estão preparados para compreender. * O Buddha dirige-se a Benarés. * A Primeira Predicação põe em movimento a Roda da Lei. * A doutrina do anātmya afirma a ausência de um eu permanente. * O Cogito ergo sum é rejeitado como ilusão. * Os cinco antigos discípulos tornam-se Arhats. * A atividade missionária continua em direção a Uruvelā, onde novos episódios de conversão e domínio espiritual ocorrem. * Trinta jovens são conduzidos à busca do verdadeiro si mesmo. * Surge a referência ao ātman como realidade autêntica. * Em Uruvelā encontra comunidade bramânica adoradora do fogo. * Um Dragão habita o templo do fogo. * O Buddha vence o Dragão assumindo forma ígnea. * O Dragão domado aparece na tigela de esmolas. * Os brâmanes abandonam o agnihotra e tornam-se discípulos. * A chama interior substitui o sacrifício externo. * O ensinamento relaciona-se ao Agnihotra interno descrito no Āraṇyaka Brahmânico segundo observação de Keith. * A vida posterior do Buddha caracteriza-se pela formação de uma comunidade monástica, pela pregação constante e pela preparação para a morte. * Comunidade de monges errantes forma-se gradualmente. * Mulheres são admitidas como monjas. * Mosteiros e conventos são doados por leigos. * Debates com brâmanes terminam sempre em vitória do Buddha. * Diversos milagres são realizados. * A morte iminente é anunciada. * Ānanda expressa tristeza. * A impermanência das coisas compostas é reafirmada. * Honra verdadeira consiste em viver segundo a Via. * O Buddha afirma que ver a Lei é ver o Buddha. * A última exortação recomenda ter o ātman como lâmpada e refúgio, juntamente com o dharma. * A prática espiritual central consiste em vida de constante recordação consciente (smṛti), na qual toda ação deve ocorrer em plena presença de consciência. * Nada deve ser feito sem presença consciente. * O pecado inadvertido é considerado pior que o deliberado. * O comportamento instintivo é rejeitado. * Platão exprime princípio semelhante ao afirmar que nada deve ser feito contra o princípio imanente que governa o corpo. * O autodomínio consiste na submissão aos princípios superiores. * A ética da presença consciente repousa sobre fundamento metafísico segundo o qual o conhecimento é recordação de uma onisciência latente, paralela às doutrinas das Upanishads e de Platão. * O reconhecimento é recuperação de conhecimento previamente possuído. * A doutrina lembra a teoria platônica da reminiscência. * Ensino e experiência funcionam como recordadores do que foi esquecido. * A distinção entre o espírito imortal e a alma mortal, presente no brahmanismo e na Philosophia Perennis, expressa a verdadeira identidade espiritual do ser humano. * Platão fala de dois princípios ou almas no homem. * Apenas o imortal constitui o verdadeiro si mesmo. * O espírito retorna a Deus enquanto o pó retorna ao pó. * A máxima gnōthi seauton expressa o autoconhecimento essencial. * A negação de si mesmo aparece nas palavras atribuídas a Cristo. * São Bernardo descreve a dissolução completa do eu. * Meister Eckhart afirma que o Reino de Deus pertence ao completamente morto. * A palavra divina separa alma e espírito. * A entrega da alma à morte elimina a egoidade.