====== HINDUÍSMO – VIA DAS OBRAS ====== //[[https://archive.org/details/in.gov.ignca.17404|HINDUÍSMO E BUDISMO]]// * O Sacrifício é apresentado como reflexo invertido do Mito, convertendo o processo cosmogônico de geração e divisão em processo soteriológico de regeneração e composição. * A mimesis sacrificial inverte a ordem do paradigma mítico. * A divisão primordial reaparece como recomposição e reintegração. * A regeneração é descrita como retorno operativo ao princípio. * A condição humana é descrita pela coabitação de dois “sí mesmos”, dos quais um é nascido de mulher e o outro é nascido do Fogo sacrificial, e a ausência de renascimento mantém o homem reduzido ao sí mesmo mortal. * O segundo nascimento procede de matriz divina associada ao fogo ritual. * O renascimento é descrito como tornar-se outro que o que se era. * A permanência no si mesmo mortal é vinculada à não realização do processo sacrificial. * Sacrificar é identificado a nascer, e a falta de sacrifício é equiparada a um estado de não-nascimento. * O nascimento sacrificial é apresentado como critério de verdadeira existência humana. * O sacrifício é afirmado como passagem ontológica, não mera formalidade. * O Progenitor, Pai, ao expressar os filhos e habitar amorosamente neles, é descrito como incapaz de reunir-se novamente a partir deles, tornando necessária a sua “reedificação” (punar ci) pelo sacrifício. * A habitação amorosa é caracterizada por preṇā e sneha vaśena. * A recomposição é negada como retorno espontâneo do Pai a partir dos filhos. * A “reedificação” é apresentada como tarefa que permite o florescimento. * O motivo da reedificação é exemplificado pela prosperidade dos Deuses após terem edificado, e pela prosperidade atual do sacrificador aqui e no além ao reedificar o mesmo princípio. * O precedente divino fundamenta a repetição humana. * O florescimento é afirmado como efeito simultâneo no mundo e no além. * Na edificação do altar do Fogo, o sacrificador reúne ao mesmo tempo a deidade desmembrada e a própria natureza separada, e a crença em separação real entre Deus e o homem é apresentada como engano brutalizante. * A operação é descrita como junção (saṃdhā, saṃskṛ) de uma única realidade. * A totalidade do espírito e do si mesmo é exigida como disposição integral do operador. * A presença consciente do Fogo é figurada como entrega ao sacrificador. * A tese “Ele é um e eu outro” é recusada como erro degradante. * O sacrifício é afirmado como ação obrigatória que repete o gesto primordial dos Deuses, sendo frequentemente designado simplesmente como Trabalho (karma). * A norma de repetição ritual é formulada como dever de imitação do começo. * A identificação do sacrifício com trabalho integra liturgia e ação. * A equivalência entre operar, fazer o sagrado e hieropoiein é usada para afirmar que fazer bem é fazer sagrado, enquanto não fazer ou fazer mal é descrito como vazio e profano. * A sacralidade é vinculada à perfeição do ato. * O profano é definido como inação ou ação malfeita equivalente a nada (akṛtam). * O primado da ação é associado ao contexto indiano. * A analogia entre sacrifício e profissão é reforçada por regras de remuneração sacerdotal e pela impropriedade de receber dons quando o sacrifício é coletivo em benefício próprio. * O pagamento é condicionado ao ofício em benefício de outros. * A recepção de dons é declarada fora de ordem no sacrifício para benefício comum. * O Rei é descrito como Patrono supremo do Sacrifício em benefício do reino e como figura do sacrificador “in divinis”, servindo de tipo para os demais sacrificadores. * A função régia é definida por patronato e representação. * A tipologia funda uma hierarquia de operadores. * A controvérsia sobre a “origem de bhakti” é apresentada como equívoco, porque bhakti é definida primariamente como parte que se dá e, por consequência, como devoção e amor pressupostos por toda liberalidade. * Bhakti é interpretada como porção oferecida. * Devoção é derivada da estrutura do dom. * Dar a Deus sua parte (bhāgam) é identificado ao sacrifício. * O doador do quinhão é designado bhakta. * A equivalência entre “dar a parte” e “amar” é ilustrada por linguagem hínica que identifica reciprocidade de dom com reciprocidade afetiva. * A fórmula “se tu me dás minha parte” é tomada como sinônimo de “se tu me amas”. * A relação entre dom e amor é apresentada como inerente. * O Sacrifício é frequentemente descrito como comércio entre Deuses e homens, mas o sentido tradicional desse comércio é distinguido das transações modernas e aproximado do potlatch como competição por dar. * A leitura moderna é acusada de falsificar o sentido original por projetar modelos destrutivos. * O potlatch é invocado como paradigma de rivalidade generosa. * A troca é definida como superabundância, não como extração. * O sacrificador é descrito como certo de receber medida plena e transbordante, porque o próprio tesouro é limitado e o da outra parte é inesgotável. * A reciprocidade é apresentada como lei da liberalidade. * A desproporção entre finitude humana e inexauribilidade divina fundamenta o “transbordamento”. * Deus é descrito como Imperecedor (Auṃ) que derrama todos os seres e não pode ser superado em derramamento, e o recebimento humano depende do quanto de si mesmo foi entregue. * O monossílabo Auṃ é associado ao imperecível. * O dom divino é proporcional à capacidade receptiva. * A capacidade receptiva é definida pela autodoação. * A relação de troca é formulada em termos de lealdade feudal e intimidade amorosa, e não como obrigação bancária, por meio de fórmulas como “tu és nosso e nós somos teus” dirigidas a Varuṇa. * A reciprocidade é figurada como vínculo de senhorio e vassalagem. * A intimidade é pedida como pertencimento e amor. * A linguagem comercial é resemantizada por matriz feudal. * A sobrevivência do vocabulário de comércio é exemplificada por hino devocional atribuído a Mīrā Bāī, no qual o “preço” pago é a totalidade do próprio ser. * A compra é figurada como entrega integral. * O preço é descrito como amor, vida, alma e tudo. * A conexão entre ação e devoção é apresentada como implícita no próprio conceito de operação, de modo que o que é feito perfeitamente deve ser feito amorosamente, e o malfeito é associado ao descuido. * A perfeição do ato é vinculada a cuidado e amor. * O erro prático é correlacionado a negligência. * A eficácia plena do Sacrifício exige compreensão vivida (erlebt), porque atos meramente físicos garantem apenas vantagens temporais. * A compreensão é posta como condição de efetividade total. * A materialidade do rito é limitada a frutos temporais quando isolada. * A celebração ininterrupta do Sacrifício é descrita como manutenção da corrente infinita de riqueza (vasor dhārā) que desce do céu como chuva, passa por plantas e animais, torna-se alimento e retorna ao céu no fumo da oferenda. * A circulação é descrita como economia cósmica fechada. * A chuva e o fumo são articulados como polos do mesmo ciclo. * O retorno do alimento ao céu é figurado pela fumaça ritual. * O ciclo é interpretado como presente nupcial no matrimônio sagrado do Céu e da Terra e como implicado também na polaridade Sacerdotium–Regnum. * O casamento sagrado é inserido na lógica do circuito de dádivas. * As duas hierarquias, cósmica e política, são integradas pela operação. * O propósito último do Sacrifício exige mais que atos simbólicos, pois se afirma que ele não pode ser alcançado por ação nem por sacrifícios, sendo o conhecimento o bem supremo. * A insuficiência dos atos é formulada explicitamente. * O bem supremo é identificado ao conhecimento do princípio. * Ao mesmo tempo, o Sacrifício é afirmado como realizado também “intelectualmente” (manasā), silente e invisivelmente, no interior do homem, fazendo da prática um suporte externo da teoria. * A interiorização é descrita como dimensão essencial da operação. * O rito visível é apresentado como demonstração e apoio do entendimento. * Distingue-se o verdadeiro sacrificador de si mesmo (sadyājī, satiṣad, ātmayājī) daquele que apenas assiste ao sacrifício (sattrasad) e espera que a deidade faça o trabalho real (devayājī). * A autenticidade é definida por autossacrifício e presença interior. * A passividade ritual é caracterizada como delegação do trabalho ao divino. * Afirma-se que quem, como Compreensor, faz o bom trabalho ou mesmo apenas compreende sem rito efetivo recompõe plenamente a deidade desmembrada, e que é pela gnose, não pelas obras, que esse mundo é alcançado. * A compreensão é apresentada como suficiente para a recomposição. * A superioridade da gnose é reiterada em múltiplos ditos. * O rito é relativizado em favor da realização cognitiva. * O rito é apresentado como exercício de morte e como empresa perigosa, capaz de causar perda prematura da vida, e o Compreensor é descrito como passando de dever em dever até obter o mundo celestial. * A perigosidade do sacrifício é ligada à sua natureza mortífera. * O trânsito entre deveres é comparado à travessia entre correntes e refúgios. * O objetivo é formulado como bem supremo e mundo celeste. * A análise restringe-se à parte mais significativa da oferenda queimada (agnihotra), na qual a oblação de Soma é vertida no Fogo como na boca de Deus, introduzindo a pergunta sobre o que é Soma. * O foco recai sobre a operação de verter Soma no Fogo. * A boca de Deus é usada como imagem de consumação. * Exotericamente, Soma é descrito como bebida embriagante preparada de plantas, misturada com leite e mel e filtrada, sendo posto em correspondência com carne, vinho ou sangue de outras tradições. * A preparação inclui extração, mistura e filtragem. * A analogia intertradicional aproxima Soma de substâncias sacramentais. * O suco não é Soma até tornar-se transubstancialmente Soma por sacerdote, iniciação, fórmulas e fé, e a degustação do Soma verdadeiro é negada aos que habitam a terra. * A transformação é atribuída a mediações rituais e à fé. * A ignorância do Soma verdadeiro é atribuída aos homens comuns. * O conhecimento do Soma é atribuído aos Brāhmaṇas. * As plantas usadas são distinguidas da planta do verdadeiro Soma, localizada em rochas e montanhas, onde está incorporada. * O verdadeiro Soma é associado a giri, aśman e adri. * A localização elevada reforça a transcendência do referente. * A “pacificação” ou matança do Rei Soma é chamada Oblação Suprema, mas o que é morto é apenas o mal de Soma, pois Soma é purificado para entronização e soberania. * A morte é reinterpretada como eliminação do mal. * A purificação antecede coroação. * A soberania de Soma é apresentada como objetivo do processo. * O modelo sacrificial é dito reproduzido nos ritos de coroação (rājasūya) e interpretado como narrativa da preparação da alma para sua autonomia (svarāj). * A realeza ritual figura uma realeza interior. * A autonomia é tratada como soberania da alma. * Soma é identificado ao Dragão, e sua extração sacrificial é comparada à extração de seiva viva (rasa) de árvore descascada, sendo a procissão descrita pela regra de que “Soles são Serpentes” que deixam peles mortas. * O dragão fornece o corpo de onde se extrai o elixir. * A metáfora vegetal traduz a extração vital. * A serpente simboliza despojamento e renovação. * A saída do fluxo áureo de Soma é comparada à serpente que abandona pele inveterada, e a mesma estrutura é aplicada à liberação do Sí mesmo imortal das envolturas psico-físicas (kośa, endumata) como desvestir-se de corpos. * O despojamento é repetido em múltiplas imagens: junco retirado da bainha, flecha retirada do carcás, pele de serpente. * O abandono da pele é identificado ao abandono do mal. * A identificação do suco de Soma com a Água da Vida e da alma elemental composta (bhūtātman) com brotos de Soma prepara a explicação de como e por quem o Soma entendido pelos Brāhmaṇas é consumido no coração (hṛtsu). * O coração é apresentado como lugar de consumo interior. * A transformação do composto em elixir é definida como extração régia. * A oferta é descrita como sangue da vida da alma draconiana que, dominados seus poderes, é entregue ao Senhor soberano, e o sacrificador oferece o que tem e o que é, esvaziando-se de si e tornando-se um Deus. * O domínio dos poderes precede a entrega. * A autodoação é descrita como kenose. * A deificação é apresentada como efeito do esvaziamento. * A saída do rito é descrita como retorno do real ao irreal, e a frase “agora sou quem sou” é apresentada como indício de consciência de que essa identidade individual é apenas temporal. * O retorno ao eu empírico é relativizado. * A temporalidade da identidade individual é assumida como conhecida. * O renascimento pelo Sacrifício é apresentado como não ilusório, porque o “Dragão próprio” foi morto e o trabalho foi concluído de uma vez por todas, conduzindo ao fim da senda e ao lugar onde Céu e Terra se abraçam. * A morte do dragão é associada a conclusão definitiva. * O fim do mundo é descrito como ponto de conjunção de Céu e Terra. * A liberdade subsequente é descrita como poder trabalhar ou jogar conforme a vontade. * A coroação de si mesmo como rei e papa é invocada como imagem de soberania interior após a consumação do caminho. * A fórmula italiana é usada como selo de autonomia espiritual. * A realeza e o sacerdócio são reunidos na pessoa interior. * A reintegração é descrita como auto-composição após guerra interna, com o rebelde dominado (dānta) e pacificado (śānta), e a unanimidade substitui o conflito de vontades. * A pacificação é apresentada como domesticação do insurgente. * A unidade volitiva é apresentada como resultado da operação. * A reconciliação contínua dos poderes em conflito é apresentada também como matrimônio, e a morte do Dragão admite mais de um modo, incluindo significação fálica do vajra como dardo de luz, dado que a luz é poder progenitivo. * A flecha do matador do dragão é interpretada como símbolo luminoso. * A luz é associada a potência geradora. * A leitura militar é complementada por leitura erótica. * A vitória é descrita como batalha de amor na expiração do Dragão, e Soma, enquanto Dragão, identifica-se à Lua, enquanto Elixir a Lua torna-se alimento do Sol que a traga nas noites de coabitação (amāvāsya), indicando assimilação. * A ingestão é definida como transformação do comido no comedor. * A coabitação lunar é ligada ao ritmo mensal. * A assimilação é explicada por analogia e por formulação de Meister Eckhart, segundo a qual a alma unida a Deus se transforma em Deus como alimento que se torna órgão no homem, porque aquilo que absorve define o ser. * A união é apresentada como mudança ontológica do sujeito. * A absorção é descrita como identidade superior ao eu próprio. * O matrimônio divino interior é descrito como consumação no coração da união das pessoas solar e lunar dos olhos direito e esquerdo, do Eros e da Psique, da Morte e da Senhora, culminando na beatitude suprema. * A união é comparada ao matrimônio humano. * O coração é descrito como caverna nupcial. * A beatitude é definida como culminância do processo. * No samādhi, o Sí mesmo recupera a condição primordial, sem consciência de distinção entre dentro e fora, reafirmando-se a fórmula identitária “Esse Sí mesmo és tu”. * A imagem do abraço de homem e mulher é usada como paradigma de não-dualidade vivida. * A dissolução do interior e exterior é tomada como sinal de reintegração. * Sacrificar sem conhecer interiormente a oferenda queimada é equiparado a oferecer nas cinzas, e a prática é prescrita não apenas em tempos fixos, mas ao longo de todos os dias de uma vida inteira. * A interioridade é afirmada como condição de validade. * A periodicidade é ampliada à totalidade do tempo de vida. * Para o Comprehensor, os poderes da alma edificam o Fogo mesmo durante o sono. * O Sacrifício como operação incessante é consumado em textos que interpretam sacramentalmente todas as funções da vida ativa, incluindo respiração, alimento, bebida e descanso, e fazem da morte a catarse final. * A vida cotidiana é convertida em liturgia contínua. * A morte é definida como purificação última. * A “Via das Obras” (karma mārga) da Bhagavad Gītā é apresentada como perfeição pelo cumprimento da vocação própria (svakarma) conforme a natureza própria (svabhāvatas), sem motivos autorreferentes. * A vocação é definida como prática própria segundo a natureza. * A ausência de motivos ego-referentes é exigida. * A perfeição é designada siddhi. * O fechamento do círculo é formulado como passagem da obrigação de celebrar perfeitamente ritos à compreensão de que cumprir perfeitamente quaisquer tarefas é celebrar o rito, definindo Sacrifício como santificação total do fazer e do ser. * O Sacrifício é descrito como fazer sagrado tudo o que se faz e tudo o que se é. * A santificação é descrita como redução das atividades a princípios. * A naturalidade do agir é tomada como condição de poder ser sagrado ou profano conforme o grau de consciência. * O agir in-naturalmente é declarado essencial e irrevogavelmente profano.