====== HINDUÍSMO – TEOLOGIA E AUTOLOGIA ====== //[[https://archive.org/details/in.gov.ignca.17404|HINDUÍSMO E BUDISMO]]// * O Sacrifício (yajña) realizado no mundo humano é apresentado como mimesis ritual da ação primordial dos Deuses e como operação que participa simultaneamente do caráter de pecado e de expiação, estabelecendo uma relação circular entre compreensão do Mito e realização do Sacrifício. * O Sacrifício reproduz o que os Deuses fizeram no começo. * A operação sacrificial é simultaneamente culpa e expiação. * A compreensão do Mito depende da realização do Sacrifício. * A realização do Sacrifício depende da compreensão do Mito. * A investigação preliminar exige responder às questões acerca de Deus e acerca da natureza humana. * Deus é definido como essência sem dualidade (advaita), ou como realidade sem dualidade mas dotada de relações (viśiṣṭādvaita), cuja essência subsiste em natureza dupla enquanto ser e devir. * A essência divina é apreendida como ser (asti). * A natureza dupla manifesta-se como ser e como tornar-se. * A Intereidade (kṛtsnam, pūrṇam, bhūman) reúne pares complementares: explícito e não explícito, sonante e silente. * Outras polaridades incluem saguṇa e nirguṇa, temporal e eterno, manifestado e não-manifestado. * O conhecimento do aspecto imanente (apara) implica conhecimento do aspecto transcendente (para). * A Pessoa no coração, que come e bebe, é também a Pessoa no Sol. * O Sol é apresentado como Luz das luzes e como o Ātman universal de todas as coisas. * A presença divina é simultaneamente interior e exterior, indivisa nas coisas divididas. * Deus não provém de lugar algum nem se torna alguém, mas assume todas as modalidades possíveis de existência. * A multiplicidade dos nomes divinos como Agni, Indra, Prajāpati, Śiva ou Brahma exprime manifestações diversas daquele que é realmente uno. * A tradição afirma que muitos nomes designam o mesmo ser único. * Deus assume as formas concebidas pelos adoradores. * As tríades Agni–Vāyu–Āditya ou Brahmā–Rudra–Viṣṇu são consideradas encarnações supremas do Brahman incorpóreo. * Essas incorporações participam de um único Si comum definido por operações distintas. * Tais formas são meios de ascensão progressiva nos mundos. * No ponto final dessa ascensão alcança-se a simplicidade da Pessoa. * A sílaba AUM é apresentada como o símbolo mais perfeito de Deus, reunindo todos os sons e servindo como suporte de contemplação do princípio sem forma. * AUM representa a totalidade dos sons e a música das esferas cantada pelo Sol. * O símbolo audível possui valor equivalente ao ícone plástico. * Ambos funcionam como suportes contemplativos (dhiyālamba). * O invisível e o inaudito são apreendidos por analogia no visível e no audível. * Os símbolos são meios para abordar o sem-forma. * Tais formas devem ser abandonadas antes da identificação final com o princípio. * A realidade designada como “Isso” (tat) é descrita como sizígia de princípios conjuntos sem composição nem dualidade. * Os princípios não se distinguem interiormente. * Exteriormente distinguem-se como suficiente e insuficiente. * A oposição surge quando se considera a auto-manifestação (svaprakāśatvam). * A manifestação introduz as categorias de sujeito e objeto. * O universo percebido aparece como multiplicidade de existências individuais. * O Uno pode ser denominado simultaneamente Multiplicidade Integral e Luz Oniforme, porque a criação é exemplar e procede de princípios originalmente unidos. * Pares como Céu e Terra, Sol e Lua ou homem e mulher eram originalmente um. * A conjunção desses princípios produz um terceiro. * O terceiro reproduz a imagem do primeiro e a natureza do segundo. * A conjunção da mente (manas) e da voz (vāc) gera o conceito (saṅkalpa). * A união do Céu e da Terra gera o Filho, o Fogo (Agni), cujo nascimento separa os pais e ilumina o espaço intermediário. * O Fogo nasce no espaço intermediário (antarikṣa). * No microcosmo o mesmo fogo é aceso no espaço do coração. * O Filho permanece no seio da Mãe possuindo todos os seus poderes. * Ele atravessa os Sete Mundos e passa pela porta do Sol. * A ascensão é comparada ao fumo que sobe do altar. * Agni é descrito simultaneamente como mensageiro divino, hóspede nas casas humanas e sacerdote que conduz a oferenda ao mundo além do céu. * Agni reside tanto em casas construídas quanto no corpo humano. * Ele constitui o princípio pneumático e luminoso da vida. * O fogo transporta a oferenda queimada ao mundo celeste. * A via que conduz além da abóbada do céu é a “Via dos Deuses” (devayāna). * A Via divina é apresentada como caminho que conduz à outra margem do rio da vida e fundamenta simbolismos universais de viagem, ponte e porta. * A travessia conduz da margem terrestre à margem celeste. * O caminho segue os passos do Precursor. * Os símbolos de peregrinação e passagem derivam dessa concepção da Via. * As duas metades da unidade primordial podem ser distinguidas segundo perspectivas políticas ou psicológicas. * Politicamente aparecem como Sacerdotium e Regnum (brahma-kṣatrau). * Psicologicamente aparecem como Si mesmo e não-si mesmo. * Correspondem ao Homem Interior e à individualidade exterior. * Correspondem ainda aos princípios masculino e feminino. * Esses pares são dispares e hierárquicos, pois o princípio subordinado permanece contido de modo mais eminente no superior. * O Sacerdotium reúne em si Sacerdotium e Regnum. * Exemplos simbólicos incluem Mitrāvaruṇau ou Indrāgnī. * O Regnum, isolado, é apenas função subordinada. * O Sacerdotium dirige o Regnum como hegemon. * A relação hierárquica expressa-se também simbolicamente em termos de sexo e correspondências metafísicas. * Mitra corresponde ao para Brahman. * Varuṇa corresponde ao apara Brahman. * Varuṇa é feminino em relação a Mitra. * O sacerdote é masculino em relação ao rei. * O rei é masculino em relação ao reino. * A mesma hierarquia estende-se à ordem humana e social, na qual o princípio intelectual governa o princípio ativo. * O homem está sob o governo conjunto da Igreja e do Estado. * O homem exerce autoridade sobre a esposa. * A esposa administra o domínio doméstico. * O princípio noético determina o que o princípio estético executa. * O desordem surge quando o princípio estético se separa da orientação racional e identifica a paixão com liberdade. * O princípio estético torna-se escravo das próprias paixões. * Essa escravidão passa a ser confundida com liberdade. * A aplicação principal dessa doutrina recai sobre o indivíduo, cuja individualidade exterior é feminina em relação ao seu Sí mesmo interior contemplativo. * O controle de si mesmo corresponde à submissão do homem exterior ao homem interior. * Essa submissão constitui a verdadeira autonomia. * A autoafirmação corresponde ao contrário dessa ordem. * O retorno a Deus é interpretado por meio de simbolismo erótico que expressa a união do si mesmo com o Si mesmo solar. * A união elimina a distinção entre “eu” e “tu”. * Śaṅkara explica esse estado pela unidade. * Todas as coisas são amadas apenas por amor do Si mesmo. * O verdadeiro amor do Si mesmo dissolve a oposição entre egoísmo e altruísmo. * O Si mesmo é visto igualmente em todos os seres. * Todos os seres são vistos nesse mesmo Si. * Meister Eckhart afirma que amar o próprio Si mesmo é amar todos os homens. * O dito sufi declara que o amor consiste em tornar-se o próprio outro. * O casamento sagrado realizado no coração simboliza simultaneamente morte e ressurreição beatífica. * O termo “casar” (eko bhū) significa também morrer. * O termo grego teleo significa perfeição, casamento ou morte. * Quando cada um é ambos, toda relação desaparece. * A beatitude (ānanda) é apresentada como fundamento de toda vida e felicidade. * Sem essa beatitude não haveria vida em lugar algum. * O processo do mundo é descrito como jogo (krīḍā, līlā) do Espírito consigo mesmo. * O jogo é comparado à luz solar que ilumina sem ser afetada. * A vida humana é um jogo conduzido por apostas temporais. * O amor divino é comparado a jogo em que perder equivale a ganhar. * A separação do Céu e da Terra estabelece os três mundos e o espaço etérico intermediário (ākāśa). * O espaço intermediário permite a manifestação de possibilidades finitas. * Do éter derivam sucessivamente ar, fogo, água e terra. * Os cinco elementos formam os corpos das criaturas. * Deus entra nesses corpos e divide-se para preencher os mundos como os distintos deuses. * As inteligências formam a hoste dos seres (bhūtagaṇa). * Esses seres operam em nós como alma elemental (bhūtātman). * Esse conjunto constitui o si mesmo consciente mortal. * Os seres elementais ignoram o seu Si mesmo imortal. * Devem ser distinguidos das deidades imortais chamadas Arhats. * Os Arhats alcançaram sua condição por mérito. * A Pessoa no coração recebe alimento físico e mental por meio dessas deidades mundanas. * A Pessoa interior é também a Pessoa no Sol. * O alimento sustenta o processo do ser ao devir. * Os poderes que atuam na consciência refletem a providência e a onisciência atemporal do Espírito solar. * O mundo não é fonte do conhecimento divino. * O mundo é consequência da contemplação divina de si mesmo. * A diversidade do mundo é comparada a pintura feita pelo próprio Espírito. * O Espírito não se conhece por meio do mundo, mas o mundo surge de seu autoconhecimento. * Conhecer Deus por meio do mundo pertence ao conhecimento inferencial humano. * A teologia e a autologia são apresentadas como uma única ciência cuja resposta fundamental é a identidade entre o homem e o princípio divino. * A resposta à pergunta “o que sou eu?” é “Isso és tu”. * Há dois em quem é simultaneamente Amor e Morte. * Há também dois no ser humano. * Esses dois não constituem dois de Deus nem dois do homem, mas uma única realidade comum. * Entre começo e fim o homem aparece dividido entre essência e natureza. * Essa divisão faz Deus parecer separado do homem. * A relação entre o Pássaro-Sol e o Pássaro-Alma ilustra a dualidade aparente entre espectador e participante. * Ambos estão pousados na Árvore da Vida. * Um observa e o outro come os frutos. * Para o Compreensor os dois pássaros são um. * A iconografia representa essa unidade como pássaro de duas cabeças ou como dois pássaros entrelaçados. * A diferença entre espectador e participante corresponde à diferença entre liberdade e envolvimento. * O participante sofre até reconhecer seu Senhor. * Outra imagem compara a constituição do indivíduo a uma roda (cakra). * O centro é o coração. * Os raios são as faculdades. * A circunferência corresponde aos órgãos de percepção e ação. * Os dois polos dessa roda correspondem ao sí mesmo profundo e ao superficial. * O polo axial permanece imóvel. * O polo periférico reage ao contato com a terra. * A roda representa o ciclo do devir (bhava-cakra). * A confluência das rodas em movimento constitui o samsāra. * O fluxo universal envolve mundos e indivíduos. * O si mesmo elemental está implicado nesse fluxo. * As experiências humanas resultam da operação de causas mediatas (karma). * O ponto central da roda permanece independente dessas causas. * O ponto está na roda mas não pertence a ela. * A presença divina participa também da natureza passível e sofre aparentemente com as ações humanas. * O princípio divino entra em nascimentos diversos. * Ele experimenta bem e mal, verdade e falsidade. * O Senhor é descrito como o único transmigrador. * O ato de conceder consciência implica que o próprio Senhor se prende na rede do mundo. * A metáfora compara essa condição a pássaro capturado na rede. * Essa captura é apenas aparente. * A questão da libertação conduz à investigação sobre o que é realmente livre das limitações da individualidade. * A individualidade baseia-se na noção de “eu” e “meu”. * A libertação é libertação desse “eu”. * Somente aquele que jamais se tornou alguém é livre de virtudes e vícios. * Libertar-se de si mesmo implica deixar de ser alguém. * Permanecer o mesmo impede a libertação. * A verdadeira libertação corresponde à realização da identidade “Isso és tu”. * Na porta do Sol a resposta correta à pergunta “quem és?” é “tu mesmo”. * O sacrifício exprime essa identificação entre sacrificador e vítima. * A oração “o que tu és, isso seja eu” exprime a mesma identidade. * A questão decisiva da morte é partir no próprio si mesmo ou no Si mesmo imortal. * A realização do Si mesmo cumpre totalmente a finalidade da vida humana. * O estado alcançado é descrito como kṛtakṛtya. * Não resta nenhuma potencialidade por cumprir. * A libertação e a imortalidade são apresentadas como realidades realizáveis já nesta vida. * O jīvan-mukta não morre novamente. * O conhecedor do Si mesmo não teme a morte. * O liberado é descrito como homem morto que continua a andar. * Ele não ama mais a si ou aos outros como indivíduos. * Ele é o Si mesmo em todos. * A morte do próprio si mesmo implica também morte aos outros enquanto alteridade. * A aparente ausência de egoísmo não resulta de altruísmo intencional. * O estado é descrito como de-si-mesmado. * O liberado está além de estatutos, deveres e direitos. * Torna-se um movedor-à-vontade (kāmacārī). * Esse estado é comparado ao movimento livre do Espírito (Vāyu). * São Paulo descreve essa condição como estar além da lei. * A imparcialidade dos que encontraram o Si mesmo manifesta ausência de amor ou ódio particulares. * Essa condição corresponde à exigência evangélica de abandonar pai, mãe e a própria vida mundana. * O estado do liberado não pode ser descrito positivamente, apenas negativamente. * A expressão de Dante afirma que a transumanização não pode ser significada por palavras. * Aqueles que não se conheceram a si mesmos permanecem prisioneiros de suas próprias sensações. * A autologia brahmânica é apresentada como ciência autorizada. * Tudo o que é estranho ao Si mesmo constitui desastre. * Onde não há outro não existe temor. * A distinção entre o homem exterior e o Si mesmo interior é indicada pela experiência comum de desconfiar de si ou esquecer-se de si. * A consciência de ser permanece válida apesar da identidade individual ilusória. * A gnose da deidade imanente pode realizar-se agora. * A realidade do princípio divino não pode ser demonstrada em ambiente puramente quantitativo. * Contudo não é científico negar hipótese suscetível de verificação experimental. * Existe uma Via prescrita para quem deseja segui-la. * A exposição conduz da consideração dos princípios contemplativos à consideração da operação sacrificial que permite verificá-los. * A passagem corresponde ao movimento da vida contemplativa para a vida ativa ou sacrificial.