====== URGÊNCIA ====== //DAUGE, Yves Albert. L’ ésotérisme: pour quoi faire? Paris: Dervy-Livres, 1986.// * A época atual concentra ao mesmo tempo as condições para uma destruição severa e para uma mutação extraordinária, e a tomada de consciência imediata é o único caminho para orientar-se em direção ao melhor e evitar o pior. * A travessia da ponte giratória da lenda de Perceval simboliza com exatidão a situação presente: é necessário avançar com fé até o ponto de suspensão sobre o abismo para que a passagem se complete, e todos os incapazes são eliminados pela prova. * A ponte giratória vai apenas até o meio do rio, fixada a um pilar de cobre, e só pivota para alcançar a outra margem quando o cavaleiro predestinado avança até o limite. * Os abrigos mentirosos que devem ser rejeitados são o arcaísmo e o futurismo, segundo a terminologia de Toynbee em A Study of History, bem como a futurologia reacionária que transporta o passado para o futuro. * Carlo Suarès é citado pelo conceito de abrigos mentirosos. * À mentalidade puramente psíquica, que sacrifica o presente em uma concepção horizontal do tempo, deve opor-se a mentalidade criadora e esotérica, axialmente vertical, orientada para a circulação sempre renovada das Energias no aqui e no agora. * Jean-Louis Bernard identifica nas rupturas de ritmo e mutações cruciais observadas desde 1945 o sinal de um crescimento das radiações vindas do coração do céu, com a propriedade de acelerar os processos em curso de vida e de morte, regenerando ou dissolvendo. * Em termos astrológicos, o fenômeno corresponde à passagem de Peixes a Aquário, entendida não como data precisa mas como vasta período de transição. * Thomas Dowding anunciou essas ondas de fogo já em 1917, convocando à criação de vasos receptores e ao recolhimento no silêncio interior. * Etienne Guillé, a partir de seus trabalhos sobre vibrações e alquimia da vida, conclui que a situação cosmotelúrica atual é comparável à do início do Gênesis, onde aparece a Aliança do Fogo, e que os homens podem adquirir energias novas se seu nível de espiritualidade for suficiente. * Nicolas Berdiaev é citado: as ideias são ondas de chama. * A temática Aquário-Taça-Graal-Coração é identificada como sintomática do interesse dos contemporâneos pelo circuito das energias entre o Derramador de água viva e o portador da Taça, entre o Graal de cima e o Graal de baixo, entre a Sephirah Tiphereth (Coração de Deus) e a Sephirah Malkhuth (Coração do Homem). * O caráter apocalíptico do tempo presente implica revelação e transtorno, abismo entreaberto e promessa de transfiguração, sendo uma escatologia relativa mas capital para as gerações atuais. * O Message retrouvé (XII, 46) é citado: é imediatamente que é preciso Deus e seu Reino, para escapar à vertigem do abismo aberto neste mundo. * O futuro engendra necessariamente maravilhas, e a pressão crescente das forças negativas, por reação, estimula a emergência de uma nova raça espiritual destinada a triunfar sobre o caos. * Ramakrishna é citado: quem somos nós para fechar a porta do futuro à face do Deus que avança. * Novalis escreve nos Fragmentos que os evangelhos contêm os traços essenciais de futuros evangelhos superiores. * A condensação da noite e das névoas e o desencadeamento do fogo negro, por reação, estimulam o crescimento e a cristalização das luzes e a circulação das Energias divinas. * A atmosfera apocalíptica contribui para o florescimento do Royaume e para a multiplicação do esplendor dos Trinta e Seis Justos. * O conceito de terceiro reinado, devido a Joaquim de Fiore (1130/45-1202), é apresentado como o tipo mesmo de Ideia-Força impaciente por realizar-se. * A doutrina das três épocas -- do Pai, do Filho e do Espírito -- visa mostrar o caráter necessário e urgente do advento do Espírito e preparar a instauração de um novo estado do ser que reflita a perfeição do circuito das Energias divinas. * O terceiro reinado é definido como a época dos viri spirituales, seres realizados, libertos-viventes, Amigos de Deus e de todos, contemplativos e artistas, vencedores das trevas exteriores. * A realização desse arquétipo deve ocorrer imediatamente, no presente, pela disciplina do Coração, que é o centro do esoterismo. * A Ideia-Força do Cristo em marcha, enraizada no joanismo e no tomismo e desenvolvida sistematicamente por Berdiaev e Teilhard de Chardin e seus continuadores, representa a tomada de consciência cada vez mais rápida e profunda do ser humano de sua essência divina de Filho do Altíssimo e de sua função criadora e mediadora no mundo. * Nikolaus Lenau, em Die Albigenser (1842), escreve que o Cristo total ainda não se manifestou na terra e que a figura do Homem-Deus deve ainda ser completada. * Berdiaev, em Le Sens de la création, distingue o espírito de obediência, que vê apenas o Crucificado, do ato criador livre como princípio cristológico da realização humana, e anuncia uma terceira revelação em Espírito que se cumprirá no homem como revelação antropológica. * A especulação teilhardiana sobre a energética crística e a cristogênese é apresentada como admirável amplificação do mesmo tema. * No mundo islâmico, Hasan II proclamou em 8 de agosto de 1164 a Ressurreição das Ressurreições (Qiyamat al-Qiyamat), o advento de um islã espiritual puro, liberado da servidão da Lei, implicando a ressurreição pessoal de cada adepto. * A doutrina da Ressurreição propõe o fim dos cultos exteriores, a interiorização total da religião no Coração e a relação imediata com o Senhor do ser, e a ressurreição se dá no momento em que o homem, erguendo-se para o Céu (qiyamat, derivado de qa'im, estando de pé), reúne-se a Deus no hic et nunc. * A Lei não é abolida, mas ultrapassada por cima, transcendida, o que é o objetivo de todo esoterismo autêntico; e esse é também o caminho para a unidade transcendente das religiões, distinta do ecumenismo confuso e dos sincretismos de ressonância psíquica. * A questão do interregno e da urgência conduz necessariamente ao problema da conquista do tempo, que é, em última análise, a capacidade de religar-se à Fonte intemporal das Energias divinas. * Raymond Ruyer, em Profil des peuples long-vivants, examina a duração das civilizações e o tempo horizontal, concluindo que os povos do futuro serão povos de memória e de confiança em si, organicamente protegidos contra a subversão e guiados por um poder gnóstico-científico atento ao ritmo do Espírito cósmico. * //Message retrouvé// (XXIII, 22b) é citado: o objetivo final da humanidade não é sua instalação no mundo, mas sua transfiguração e sua fixação em Deus. * Para a pessoa singular, a solução é sair do tempo horizontal erguendo-se verticalmente em direção ao Eterno. * Roger Godel descreve o momento em que o escoamento do tempo no horizonte se transmuta subitamente em energia vertical, e o instante eterno é vivido em sua plenitude fora do espaço e da duração. * Os Dialogues avec l'Ange fornecem a fórmula: o essencial é o tempo além do tempo. * Jacob Boehme afirma que para aquele a quem o tempo é como eternidade e a eternidade como tempo, toda sofrimento é superado, o que remete à equivalência samsara-nirvana para o budista realizado. * Raymond Ruyer reconhece implicitamente a necessidade da verticalidade esotérica ao afirmar que uma teocracia pode ser indefinidamente durável desde que mantenha sempre perpendicular a salvação religiosa, sem fixar-lhe uma data histórica na linha do tempo ordinário. * Ernst Jünger, em Le nœud gordien (1953), propõe que no centro do devir existe uma essência íntima, imóvel e intemporal onde as constelações se encontram, e que há no fundo apenas um retorno, que ocorre quando o homem reconhece a emergência do eterno no tempo. * A conquista do tempo concerne a todos pessoalmente, e é na medida em que um número suficiente de pessoas realizar essa démarche esotérica que uma justa orientação poderá ser dada ao curso da civilização. {{tag>Dauge YDE}}