====== CONCEITO DE VALOR ====== //[[jctia|Teoria do Indivíduo Absoluto]]// * A doutrina da imanência tem como tarefa primária definir o conceito e o estado de valor, entendido como instância extrema no problema da certeza, além da qual nenhum critério ulterior pode ser pensado. * O valor é definido pela relação absoluta entre o princípio nu do Eu e tudo aquilo que, na experiência ou consciência do Eu, se distingue desse princípio. * O que se designa como "ser" é o correlativo distinto do Eu na relação que constitui o valor. * O valor é a forma em que a relação entre Eu e ser se apresenta como incondicionada, sem admitir mediação ulterior. * O "ser", em seu limite ideal, é tudo que na experiência interna ou externa está simplesmente presente como puro fato, como um Da-sein independente da potência do Eu e de qualquer relação com um significado. * O ser, nesse sentido, é incondicionado, mas segundo uma incondicionalidade que significa privação de condição. * O valor define-se como a mediação subjetiva dessa incondicionalidade, sua resolução no Eu, o transparecer do Eu naquilo que no ser enquanto ser é em si e por si como "outro". * Essa resolução ocorre necessariamente, de fato, sem uma razão ulterior. * A natureza dos conceitos de ser e valor é essencialmente formal, entendendo-se por forma o modo ou a função segundo o qual uma dada determinação da consciência ou experiência é vivida pelo Eu. * Ser e valor são os limites da série das possíveis qualidades do viver e do viver-se. * Ambos os conceitos são indiferentes ao seu objeto e contrassinalizam substancialmente níveis do espírito. * O valor pode ser entendido, em seu limite, como a completa resolução da matéria na forma, exigindo que tudo o que uma dada qualificação da experiência é seja interiorizado e consumido sem resíduo em um lampejo do espírito. * A relação absoluta que define o valor é, em si mesma, idêntica e simples. * Três aspectos dessa relação podem ser considerados para sugerir sua essência. * No ato de compreender, há um momento de perfeita transparência em que, diante de algo, o Eu se concilia consigo mesmo, e o ponto desse significato puro constitui uma instância extrema na ordem do conhecer. * O que foi compreendido e a síntese intelectiva são, em relação ao momento do puro significado, algo secundário e material. * No compreender pode-se captar uma simplicidade que permanece idêntica a si mesma em todas as compreensões e que transcende o "ser" do objeto. * O ponto do significado é essencialmente individual, interior e vivo, estando para a compreensão lógico-conceitual como ato para potência, alma para corpo. * F. Schlegel e H. Keyserling são evocados em relação à imediatez do significado e ao símbolo da visão. * O mesmo tipo de relação absoluta se realiza na experiência do puro domínio, em que o objeto, permanecendo correlativo necessário, torna-se em certo modo indiferente, e o Eu transparece em um puro e absoluto retomar-se a si mesmo. * O possesso que é domínio perfeito ama apenas a si mesmo e anula o objeto em uma relação de identidade-diferença. * O posse, a evidência do "Eu posso" e a potência são a extrinsecação mais próxima desse estado. * Há um possível aspecto da vontade que não é vontade disto ou daquilo, mas vontade de si mesma, determinação pura e absoluta que tem essencialmente a si mesma como fundamento de sua afirmação e de seu prazer. * Nesse estado, a vontade se mantém e se impõe a si mesma, fecundando-se em e por si mesma. * O que vem a existir ou é assumido em função desse possível determinar-se permanece ligado ao Eu segundo uma relação absoluta. * Os três fenômenos do compreender, do domínio e da vontade pura comunicam entre si, pois algo idêntico pode ser vivido nos três casos, e a distinção não concerne ao ponto mais profundo, mas ao objeto ainda em certo modo distinto da relação. * O compreender implica o domínio e a identidade-diferença em relação a todos os elementos que o significado compreende e resolve. * O ponto do puro determinar-se implica uma evidência-significado como persuasão. * Onde essa redução ao idêntico se efetua, atinge-se o que se entende por valor. * O valor aparece na ordem do conhecimento como sentido, na ordem prática como vontade nua e como domínio, e em ambos os casos como redução do incondicionado do "ser" ao incondicionado do Eu. * O incondicionado do "ser" é designado como alogon, incondicionalidade privativa. * O incondicionado do Eu é designado como logos, incondicionalidade positiva. * Esse plano define a certeza absoluta, o puro estado de direito ou estado de justiça. * O plano do valor tem como pressuposto essencial o princípio da liberdade, ao qual o espírito só pode chegar por absoluta espontaneidade, mediante um movimento interior que não pode amadurecer de nada e que procede de uma iniciativa pura. * Tudo o que venha a ser assumido em função de valor resulta igualmente constituído de liberdade. * Já na experiência comum, dadas circunstâncias se impõem por necessidade ao homem, mas depende de sua livre iniciativa o modo como são vividas e o sentido que lhes é conectado. * Não é possível entender a passagem ao significado sem pressupor, em alguma medida, a presença do ato de apreender mesmo em seu antecedente, pois o apreender puramente existencial já é, a seu modo, um compreender. * A unidade simples está já no início e não pressupõe o ser, mas a este se pressupõe de direito. * Dado que a forma enquanto valor esteja presente em uma experiência, ela condiciona de direito toda a experiência. * Onde o momento da necessidade ainda estivesse presente, só poderia sê-lo como elemento do ser ligado ao Eu segundo relação absoluta, isto é, como algo querido e dotado de sentido. * Onde haja real intervalo entre a forma da experiência e a experiência mesma, isso significa que o Eu não vive no nível do valor e é, em certa medida, exterior a si mesmo. * Nada poderia ser experimentado que não incorpore já, em algum grau, o momento do valor, sendo a participação no valor a condição transcendental para a possibilidade de toda certeza e conhecimento. * Apresenta-se assim um conceito de "categoria" que vai além do conceito incompletamente formal de Kant e do conceito completamente formal, mas exaurido no plano do sujeito puramente gnoseológico, do idealismo absoluto pós-kantiano. * Georg Simmel é evocado pela definição de filósofo como aquele que possui um órgão de reação para a totalidade do ser. * O órgão cuja reação define o Eu como indivíduo absoluto desloca o centro próprio ao nível do valor, determinando uma potência ulterior do princípio transcendental condicionador de certeza e experiência. * Revela-se uma afinidade entre esse ponto de vista e as formas mais altas de ascese, pois no asceta trata-se de uma tomada de posição vivente diante de toda a vida e da experiência na totalidade de suas formas reais e possíveis. * O problema do valor pode surgir em um mundo onde a simples existência esgota a validade em sentido genérico, mas essa ordem de vida passiva pode representar ela mesma uma solução do problema. * Nessa situação, o que é de fato vale como tal, sem mediação ulterior, e a presença, enquanto simplesmente presença, contém o critério da validade. * Tal situação pode ser considerada como negação do problema, pois o Eu não está determinativamente presente na relação incondicionada que a define. * Cabe perguntar se essa ausência do Eu é originária ou reflete um significado particular por proceder da natureza especial de uma relação absoluta na qual a situação pode ser assumida. * No limite do puro dado existencial, apresenta-se uma ambiguidade ela mesma significativa, que permite afirmar que o problema do valor contém em si sua própria mediação. * O ponto do surgimento do problema constitui um início absoluto, pois junto ao "ser" o problema não é posto. * Se o problema é posto, o ser enquanto ser não é mais posto, aparecendo não como antecedente, mas como possibilidade de valor condicionada e dissolvida por uma relação absoluta. * O não pôr-se do problema só pode valer como uma solução particular e tudo permaneceria fechado em um círculo. * A única resposta possível para como o problema pode em geral se pôr é o reenvio ao ato de absoluta liberdade, ato do qual não se deve buscar uma razão ulterior, pois todas as razões vêm depois. * Quando a vontade de valor é posta, o Eu é liberado do mundo e toda condicionalidade é suspensa, mas simultaneamente toda coisa vai gravitar sobre o Eu, que se torna um centro de responsabilidade universal. * No círculo que o Eu traçou ao pedir certeza absoluta e valor, toda matéria deve sublimar-se até a completa transparência. * Resta analisar e explicitar tudo o que se conecta a tal reviravolta.