====== ARQUÉTIPOS DEMÉTRICOS E AFRODÍTICOS. A VIRGEM. A NUDEZ ABISMAL. ====== //[[sexo|METAFÍSICA DO SEXO]]// * Até aqui consideramos sobretudo a polaridade primigénia desde o ponto de vista abstrato e metafísico; agora vamos estudá-la brevemente na forma de figuras divinas propriamente ditas, de teofanias e de cratofanias. * Repetimo-lo: para a Antiguidade tradicional, estas figuras eram arkhai, seres reais. * Com elas aproximamo-nos já do plano existencial, ou seja, da sexualidade humana concreta, pois os significados do mito sagrado, neste novo âmbito, referem-se a cultos, a instituições, a ações rituais. * No entanto, para distinguir caracterizações diferenciadas no campo mitológico, há que ter uma capacidade especial de discriminação. * Porque na mitologia encontram-se uma massa de figuras que quase sempre têm caráter polivalente, que servem de base, pois, a conteúdos muito variados, tanto devido à multiplicidade dos aspectos que nessas figuras se podem descobrir e examinar, como por causas exteriores e históricas: a mistura, a transformação ou a justaposição de mitemas e cultos diversos nas civilizações, e às vezes mesmo no quadro de uma mesma civilização. * Pelo que atina ao princípio feminino, a grande variedade das suas imagens ou epifanias podemos reduzi-la a dois tipos fundamentais, que denominaremos o tipo afrodítico e o tipo demétrico, e que se nos apresentam como arquétipos eternos da amante e da mãe humanas. * Estes dois tipos correspondem ao "poder do divino", ousia, hyle ou shakti, nos seus aspectos de força em estado puro e de força que recebeu forma do eterno masculino e que se converteu em vida que alimenta uma forma. * O tipo demétrico está documentado no Ocidente antigo desde o Paleolítico superior; prossegue no Neolítico, concreta-se nas divindades maternas pré-helénicas, reaparece na zona meridional que, arrancando nos Pirineus e passando para além da cultura egeia, Egito e Mesopotâmia, chega à Índia pré-ariana e à Polinésia. * O tema da fecundidade está em primeiro plano; enquanto tradução naturalista da ideia da Deusa como vida, expressa-se nos informes ídolos esteatopígicos do Paleolítico. * Antes de manifestar-se na tardia e casta forma da Deméter helenizada, aparece também nas deusas desnudas mais antigas, as representações mais radicais das quais são a deusa de inumeráveis peitos e as imagens desnudas, de pé ou deitadas de costas, com as pernas muito separadas para mostrar o órgão sexual, mas também para libertar, fazer fluir o sacrum sexual em forma de energia mágica, do mana de fecundidade da Genitrix ou Mater primigenia. * Em alguns povos primitivos, o mesmo tema expressa-se de forma típica no desenho linear estilizado da matriz e do órgão sexual — o triângulo invertido, às vezes com um traço no ângulo inferior, que evoca o início da fenda da vulva — adotado como símbolo de uma força mágica destinada a fertilizar e, ao próprio tempo, a espantar, a fazer retroceder aqueles que não hão de acercar-se dela. * Pode deduzir-se um sentido análogo do gesto feminino do anasurma, que consiste em levantar a túnica para mostrar o sexo, gesto que também teve o segundo sentido de que acabamos de falar: na lenda, por exemplo, este é o gesto com que as mulheres lícias fazem retroceder as ameaçadoras ondas de Poseidon, e no ciclo islâmico, com este gesto, além de tirar o véu, a antiga deusa lunar al-Uzza detém o enviado do Profeta que queria talar as árvores consagradas à deusa. * Não é este o lugar de deter-se nos múltiplos nomes levados pela Grande Deusa, pela Magna Mater Genitrix, imagem do princípio demétrico, mas também poder e força muito real. * Ela é a Mãe Terra. * É a Ardvî iraniana que Ahura Mazda chama "minha Água", e à qual se relaciona com um rio mítico que desce das alturas, de que se supõe que provêm as águas da terra, no seu significado simbólico de energias vitais, de forças de fecundidade e de fertilização. * O princípio húmido constitui aqui a substância elementar da Deusa, e uma etimologia neoplatônica põe também em relevo o outro aspecto deste princípio quando faz derivar o nome de uma epifania da deusa, Rea, de rein = fluir. * Por isso vemos que deusas de tipo demétrico, como a Hera de Argos, mas também de tipo amazônico, como Palas Atena, recobram a virgindade submergindo-se nas águas, a sua substância primigénia, que como tal as renova e as devolve à sua natureza própria. * Um mitema dos Mistérios de Hera que chegou até nós, mostra-nos a deusa saindo sempre virgem do banho ritual nas águas da fonte Kanathos. * Também pode recordar-se a relação existente entre o culto romano a Vesta e a água das fontes ou corrente: era a única que se utilizava, enquanto "água viva", em certos ritos purificadores praticados pelas vestais; acqua vivis fontibus amnibusque hausta. * Igualmente Ganga, a Grande Deusa hindu, encontra no rio sagrado — cujas águas lavam de todo pecado — a sua manifestação, a sua "forma líquida". * No mundo destas figuras encontramo-nos, pois, perante a hipóstase suprema quando a Grande Deusa se apresenta como a que, semelhante à Gea de Hesíodo, engendra o seu esposo, ou bem engendra fazendo-se fecundar por um esposo que por sua vez nasceu dela num primeiro momento, que é, pois, seu filho e seu amante: paredro que ocupa, respeito dela, uma posição subordinada e puramente instrumental, e que costuma ser considerado um ser efêmero destinado a morrer para renascer somente graças à deusa (Tammuz e Attis frente a Rea-Cibeles e Ishtar), pois o verdadeiro princípio e a fonte da vida estão nela. * Estamos aqui na linha fronteiriça, tanto das cisões e absolutizações que originam a ginecocracia de orientação demétrica (não necessariamente como soberania social da mulher, mas, em regra geral, como predomínio de tudo quanto tem que ver com ela, aqui com ela como mãe), como das regressões que conduzem à ideia, que analisaremos no seu momento, da imortalidade telúrica, ou imortalidade da Mãe. * No quadro destas absolutizações é onde o princípio feminino, ligado principalmente à Terra, pode também ser elevado à categoria de suma divindade celeste, de Magna Mater Deorum: transformação que se observa especialmente no caso da deusa egípcia Isis. * Esta, que na origem tinha sido uma deusa telúrica — a terra negra do Egito banhada e fecundada pela corrente do Nilo, que representava ao masculino Osíris no simbolismo cósmico e naturalista —, introduz-se de facto no mundo celestial e converte-se na "Senhora do Céu", "A que procura a luz do Céu", a "Rainha de todos os deuses". * Também leva a tiara da soberania a deusa elamita, que na mão direita leva a taça — onde vão beber os mortais o fluido vital embriagador — e na esquerda o anel, símbolo do círculo indefinido da geração. * Quando a Grande Deusa, de Terra Mãe que era, toma em particular a forma de divindade lunar, aparece então uma nova expressão de um dos dois significados fundamentais da feminilidade arquetípica. * A lua, de fato, é o astro cambiante; associada à força em ato ali onde haja mudança, alteração e transformação, reflete de certa forma a natureza mesma das Águas e da hyle cósmica. * Astro noturno, senhora da noite — "astro cambiante e inconstante" no plano da transposição moral —, a lua, por causa desta relação, foi considerada feminina e associou-se com o arquétipo da feminilidade divina; assim o crescente lunar é um dos atributos da Ardvî iraniana, que temos dito que era a "Água" de Ahura Mazda. * Mas talvez seja nas epifanias hindus da Grande Deusa — em Kali, de que já temos falado, em Bhairavî, em Karalâ e sobretudo em Durgâ (outras tantas formas de aparição da esposa ou shakti do "macho divino") — onde encontra a sua melhor expressão o princípio afrodítico da feminilidade primigénia enquanto força dissolvente, turbadora, extática e abismal do sexo: como oposto da feminilidade demétrica. * No mundo mediterrâneo, é essencialmente Ishtar, deusa do amor, a que possuía essas características; podemos relacionar com ela a bastantes outras deusas que apresentam uma estrutura análoga: Mylitta, Astarté, Tanit, Ashera, Anaitis. * Há que assinalar aqui um ponto fundamental. * O nome de Durgâ, equivalente hindu de Ishtar, significa a "Inacessível"; mas também é a deusa de alguns ritos orgiásticos. * As deusas mediterrâneas mencionadas recebem muitas vezes o calificativo de "virgens", parthenos; Ishtar é "virgem" apesar de ser também ao próprio tempo a "Grande Prostituta", a "Prostituta Celestial". * A própria Kali é considerada "virgem", enquanto Adya Kali; é kumarirupa dharini. * Consideram-se virgens a algumas deusas afrodíticas que têm amantes, e mesmo a deusas demétricas, que são mães. * Porne, Hetaira, Pandemos: outros tantos qualificativos que, no mundo egeo-anatólico, se consideraram compatíveis com o calificativo, oposto, de "virgem". * Shing Mu, a Grande Deusa, a Virgem Mãe chinesa é simultaneamente a patrona das prostitutas. * Se passamos a outro universo cultural, constatamos que as huris celestiais islâmicas vêm descritas como sempre virgens, apesar de se oferecerem ininterruptamente ao abraço dos eleitos; um rastro desta ideia, traspassada a um plano materialista, encontramo-lo no dogma cristão segundo o qual Maria, tendo concebido sem ter sido fecundada por um homem, seguiu sendo virgem mesmo depois do parto. * O sentido mais profundo de todos estes exemplos só o captaram superficialmente aqueles que proporcionaram a seguinte explicação: na Antiguidade usava-se às vezes o termo "virgem" para designar não só a mulher que ainda não tinha tido experiências sexuais, mas também a mulher não casada, a moça que podia ter tido relações com um homem, mas não em qualidade de esposa, e que queria evitar o vínculo e a subordinação do matrimónio. * Na realidade, o que mais importa em tudo isso é a capacidade que tem a matéria-prima de receber toda forma e de impregnar-se dela sem se ver jamais esgotada, sem ser possuída na sua raiz mais profunda. * A virgindade, por conseguinte, como inapreensibilidade, como abismalidade, como ambiguidade e elusividade da "mulher divina", constituinte do aspecto "Durgâ" ("inacessível") desta e que também tem relação com a qualidade fria, capaz de coexistir com a qualidade ardente e fascinante da natureza afrodítica, da hetaira. * É conhecido que a imagem mais corrente das sereias — que também se consideravam tanto "virgens" como feiticeiras — as representa com a parte inferior do corpo ictiforme, húmida e fria. * Um carácter análogo marca também, em certo aspecto, as divindades femininas de tipo amazônico, cuja castidade ou virgindade em sentido corrente costuma ser somente um traço tardio que se acrescentou a figuras mais arcaicas, devido a um processo de moralização. * Sabe-se, por exemplo, que Artemis-Dianae Atena, essencialmente consideradas virgens no mundo grego, tinham sido, como divindades pré-helénicas e pelásgicas, deusas mães do tipo de que temos falado mais acima. * O fato de que neste contexto as deusas virgens e a própria Ishtar, virgem e prostituta ao mesmo tempo, tenham podido apresentar-se também como divindades da guerra e da vitória (a Venus Victrix, Ishtar invocada como "Senhora das Armas", "Árbitra das Batalhas"; a presença dos dois temas é típica na seguinte invocação, dirigida a esta deusa: "És forte, ó Senhora da Vitória, tu que podes suscitar os meus desejos violentos") tem sido bem interpretado por Przyluski, que faz notar que a Grande Deusa é também a divindade dos combates porque à guerra, neste caso, considera-se essencialmente no seu aspecto de ação que destrói e que mata. * Por igual razão adota Afrodite, enquanto Areia, os traços de uma divindade guerreira e toma o sentido esotérico de "potência", de shakti, próprio de Ares-Marte. * Assim põe-se bem em relevo a ambiguidade de um poder que é ao próprio tempo poder de vida e poder de morte. * De Astarté disse-se, precisamente: Diva Astarte, hominorum deorum vita, salus, rursus eadem quae est pernicies, mors, interitus. * É a deusa lunar luminosa, mas cuja outra cara é a deusa "negra", abismal, a Mater Tenebrarum, a Hécate subterrânea (Artemis virgem também adota às vezes o aspecto de Hécate), a Juno infernal, a Domina Ditis (Virgílio), Ishtar e Kali, "Mãe terrível". * Outros tantos arquétipos nos quais converge igualmente o simbolismo de figuras derivadas, como as virgens das batalhas e das tormentas, as valquírias nórdicas, as fravashi iranianas. * Os homens tratam então de utilizar e lançar a deusa, poder desencadeado de vida e morte, contra os seus inimigos. * De modo que a deusa adota também os traços de uma deusa da guerra, da Promakhos do leão, que leva venábulo e arco. * E quando esse poder conduz à vitória, a Virgem aparece finalmente como deusa do triunfo. * Por isso Durgâ é igualmente a virgem negra — krishna kumari — invocada como aquela que concede a vitória na batalha. * No que concerne ao aspecto "infernal" deste conjunto, será interessante dizer umas palavras sobre a devotio romana, rito tenebroso pelo qual um chefe de guerra se oferecia como vítima voluntária às forças infernais para desatá-las contra o inimigo: na invocação, após as divindades luminosas, incluído Marte, vem o nome de Belona, que precisamente é uma deusa da guerra no sentido antes indicado, mas que alguns autores antigos identificavam também com as demais formas da Grande Deusa. * Há que citar além disso a deusa egípcia Sekhmet, de cabeça de leoa, deusa desnuda da guerra que gozava dos sacrifícios sangrentos e de quem se dizia que se unia viva com os vencedores. * Uma transposição moral do aspecto ontológico "Durgâ" da deusa podemos vê-la na crueldade que lhe atribuem diferentes mitemas cristalizados ao redor deste tipo de figuras. * A deusa compraz-se no sangue e na morte. * Isso é visível do modo mais claro em Kali. * Mas na época arcaica, em várias regiões da Grécia, em Esparta, em Brauron e outros lugares, ofereciam-se sacrifícios humanos a Artemis Orthia, também chamada Tauria; quando se aboliram os sacrifícios humanos, ficou como rastro o rito da diamastigosis, da flagelação de adolescentes em Esparta durante as festas desta deusa, a fim de que o seu sangue molhasse o altar: porque à deusa virgem gostava-lhe o sangue. * Noutras cidades gregas, também os adoradores de Deméter se flagelavam uns aos outros. * A festa de Cibeles, que em Roma se inspirava no culto à Grande Deusa, celebrava-se de 15 a 27 de março, e este último dia assinalava-o o calendário como dies sanguinis. * Esse dia, os sacerdotes da deusa se açoitavam e se infligiam feridas e uniam os seus gritos ao som das flautas e dos timbales. * Logo, após uma velada misteriosa, dizia-se que os iniciados se uniam à Grande Deusa. * Os ritos orgiásticos consagrados à deusa Ma, que também era uma deusa da guerra, tinham um carácter parecido. * Há um fenômeno que entra no mesmo contexto: costumava confiar-se a sacerdotisas a execução de sacrifícios sangrentos; por exemplo entre os gauleses e os índios americanos. * E se bem havia um rito arcaico praticado pelas vestais, as virgens sagradas romanas, guardiãs da chama que é vida, rito que consistia em atirar ao Tibre vinte e quatro bonecos, a opinião predominante considera que no princípio se tratava de vítimas humanas. * Mas já teremos mais adiante ocasião de ocupar-nos destes conjuntos rituais. * De momento terminaremos indicando que traço específico se põe em relevo em certas epifanias da Grande Deusa, como por exemplo Varunanî. * Esta é uma divindade hindu que levou posteriormente os nomes de Varunî ou Surâ, e que se apresentava como divindade do céu, das águas e das bebidas embriagantes. * Em pali, o termo Varunî, de facto, designa, ou um licor embriagante, ou uma mulher embriagada ou possuída, e na literatura épica, Varunî ou Surâ é a "filha" de Varuna, o deus urânio viril, a qual procura gozo e embriaguez aos deuses. * A relação entre Varunî e as bebidas embriagantes é evidente na Índia (até o ponto de que, em certos textos, beber devi Varunî — a manifestação da deusa, a deusa na sua "forma líquida" — é sinônimo de beber essas bebidas). * Enquanto Surá, nome dado à mesma divindade na literatura épica, é também no Irã um dos nomes da Grande Deusa. * Mesmo nos hinos do austero Shankara, a deusa é associada às bebidas embriagantes, leva a taça, ou bem ela mesma está embriagada. * O aspecto do feminino como princípio ou causa da embriaguez fixa-se, pois, neste arquétipo. * E a embriaguez em questão pode adotar duas formas: uma inferior e elementar, dionisíaca, selvagem e menádica; e uma forma superior, transfiguradora e luminosa. * O cristianismo fixou obscuramente esta segunda forma na figura da Virgem Maria, que domina, que aplasta sob os seus pés o crescente lunar ou inclusive a serpente, a qual, no simbolismo hebraico e com o nome de Nahash, simbolizava o princípio elementar e cósmico do desejo. * Talvez isto não careça de relação com a divisão que nos Mistérios antigos da Mãe se fazia entre, por uma parte, os Mistérios menores, relacionados com a Perséfone dos infernos, à sua vez relacionada com Afrodite, celebrados na primavera, mais ou menos no mesmo período que várias festas orgiásticas e telúricas; e por outra, as grandes festas de Eleusis, celebradas no outono. * Cabe recordar também a deusa egeia "Nossa Senhora das Ondas" e Stella Maris, no seu duplo aspecto de deusa que baixa dos céus e de deusa que remonta desde as regiões infernais, de "deusa das pombas" por uma parte, e de "deusa das serpentes" e das panteras por outra. * Um último ponto: quando a substância ou potência cósmica fica de certo modo travada no seu carácter fluido, fugidio e inapreensível, seja qual for o aspecto ou situação pelo qual se fixe a uma forma dada, encontramo-nos na presença do princípio demétrico em forma das figuras femininas enquanto "esposas" unidas a um deus pelo vínculo monógamo ou monoândrico: a substância, neste caso, já não é a "Virgem", nem a "Prostituta", mas a esposa divina como "fonte selada". * No plano da tradução moral do arquétipo, observam-se manifestações de castidade e de fidelidade que podem terminar por ocultar a natureza original desta substância (a Grande Deusa na medida em que é Hera). * No mito, os pares divinos sexuados que conhecem relações relativamente harmoniosas e equilibradas correspondem a esta situação ontológica.