====== VIRTUDES DO GRAAL ====== //[[graal|MISTÉRIO DO GRAAL]]// As virtudes principais do Graal podem ser resumidas como segue: * Virtude de luz, ou seja, virtude iluminadora. Do Graal emana uma luz sobrenatural. Chretien de Troyes: uma luz tão grande vinha de lá / que as velas se perdiam / em sua claridade, como as estrelas / quando o sol ou a lua nascem. Robert de Boron descreve o aparecer do Graal na prisão de José de Arimateia como o de uma grande luz, acrescentando que José "logo que viu o recipiente, foi inteiramente permeado pelo Espírito Santo". Em Vaucher, o "rei pescador" que carrega consigo o Graal de noite, ilumina com ele o caminho. Falando de seu aparecer a José, o Grand St. Graal diz que dele emanava "uma claridade tal, como se ardessem mil velas", e refere-se a uma espécie de arrebatamento para além da condição do tempo: quarenta e dois anos passados por José na prisão com o Graal, a ele, de fato, não pareceram mais que três dias. Em Gautier, Parsifal segue, apesar da proibição dela, uma donzela em uma selva escura. Subitamente aparece uma grande luz, a donzela desaparece, se desencadeia uma tremenda tempestade e no dia seguinte Parsifal vem a saber que a luz provinha do Graal carregado pelo "rei pescador" na floresta. Em Wolfram ele é a "pedra da luz": "Satisfação perfeita de todo desejo e paraíso, isso é o Graal, a pedra da luz, diante da qual todo esplendor terreno é nulo". Na Queste du Graal, Galaad, vendo o Graal, é tomado por um grande arrepio e diz: "Agora vejo claramente tudo o que a língua jamais poderia expressar e, o coração, pensar. Aqui vejo o princípio dos grandes atrevimentos e as causas das proezas, aqui vejo a maravilha das maravilhas". Na Morte Darthur, a manifestação do Graal se acompanha a um estouro de trovão e a "um raio solar sete vezes mais resplandecente que a luz do dia" e naquele momento "todos foram iluminados pela graça do Espírito Santo". Em tal ocasião, o Graal se apresenta em uma forma enigmática, "ninguém podia vê-lo nem carregá-lo", por mais que cada cavaleiro tivesse "o alimento que mais ansiava no mundo". * Isso corresponde à segunda virtude do Graal. Além de ser luz e força sobrenatural iluminadora, ele dá alimento, dá "vida". Do Graal, concebido como uma "pedra", lapsit exillis, são nutridos, em Wolfram, todos os cavaleiros templários: sie lebent von einem steine. Trazido à mesa, ou ao seu aparecer magicamente sobre ela, cada cavaleiro recebe justamente o que mais deseja. O falar, aqui, de alimentos físicos correspondentes aos vários gostos, é a materialização do significado superior do vário efeito de um único dom de "vida" dependendo da vontade, da vocação e da natureza própria ou qualificação daqueles que o vão receber. No limite, um tal alimento se torna aquele que destrói todo desejo material, de onde no Perceval li Gallois em virtude do aroma que emana do Graal os convidados esquecem de comer e Galvão em um arrebatamento extático consegue a visão dos anjos. No Grand St. Graal, o Graal reproduz o milagre da multiplicação dos pães. Na Queste du Graal, onde sua aparição é precedida por uma "luz resplandecente como o sol", ele se move magicamente e após ter dado a cada um seu "alimento" desaparece, como segundo a já referida narração da Morte Darthur. Em particular, é dito que os fortes, os heróis, amam o alimento fornecido pelo Graal — assim Robert de Boron dá a seguinte etimologia: "Se chama Graal, porque agrada aos valentes: agree as prodes homes". Já vimos, depois, que o mesmo José de Arimateia junto aos seus cavaleiros recebeu, além de luz, vida (alimento) do Graal por todo o período da prisão imposta pelo rei Crudel, que durou quarenta anos. * O dom de "vida" do Graal se manifesta, porém, também na virtude de curar feridas mortais, de renovar e prolongar sobrenaturalmente a vida. Em Manessier, Perceval e Ector, combatendo um contra o outro, permanecem ambos feridos de morte e aguardam o fim, quando à meia-noite o Graal, carregado por um anjo de figura "imperial", aparece e os cura instantaneamente e completamente. O mesmo episódio se encontra na Morte Darthur, onde igual fenômeno se verifica também para Lancelot. Na Queste du Graal é narrada a visão tendo como objeto um cavaleiro sofredor estendido em um caixão, que se arrasta até o Graal e, tocando-o, se sente revigorado e sua dor dá lugar ao sono. Mas neste caso se tem também a interferência de um motivo adicional, o dos reis que, na espera do restaurador ou vingador predestinado, são mantidos pelo Graal em uma vida artificialmente prolongada. Wolfram, referindo que em virtude do Graal "a Fênix se consome e se torna cinza, mas também se transforma, reaparecendo em seguida em todo seu esplendor e mais bela que nunca", de modo claro estabelece depois uma relação entre o dom de "vida" do Graal e a regeneração, da qual a Fênix tem sido tradicionalmente um símbolo. Wolfram diz de fato que "tal pedra (o Graal) infunde no homem um vigor tal, que seus ossos e sua carne reencontram logo sua juventude — selhe kraft dem menschen git der stein / daz im fleisch und bein / jungent enpfaeht al sunder twal". O Graal, portanto, além de iluminar, renova; porém recusa seu alimento simbólico, ou "dom de vida", àqueles que se mancharam de culpas — segundo alguns textos, aos vis e aos mentirosos. * O Graal induz uma força de vitória e de dominação. Quem usufrui dele, n'en court de bataille venchu. Segundo Robert de Boron todos aqueles que conseguem vê-lo, além de gozar de alegria eterna, nunca serão privados de seu direito e nunca serão vencidos em batalha. No Lorengel, o Graal se apresenta como a "pedra da vitória" com a qual Parsifal repele o rei Átila e seus Hunos no ponto em que eles estavam prestes a atropelar a cristandade. Daquele que supera a prova do Graal, em Wolfram é dito: "Agora não há ser no mundo que o supere em nobreza e honra. Você é o Senhor de todas as criaturas. A suprema potência lhe será transmitida". O aspecto do Graal segundo o qual ele confere uma força de vitória virá, além disso, mais em destaque em conexão com a "espada do Graal". Mas já neste trecho de Wolfram se preanuncia a essência mais alta do Graal, a relação que ele tem com uma realeza transcendente, com o princípio do "Senhor do mundo". Veremos, além disso, que o próprio Graal, a modo de oráculo, designa os cavaleiros chamados a revestir a dignidade de rei em várias terras. Há quem, não sem razão, aproximou o Graal do objeto que simboliza e encarna a força celeste da realeza segundo a antiga tradição iraniana, o hvareno, e que assume os vários aspectos de pedra mágica, de pedra da soberania e da vitória, de taça: aspectos que o Graal também tem de fato. * Se o Graal, por um lado, tem uma virtude vivificante, por outro tem uma virtude temível, destruidora. O Graal cega. O Graal fulmina. Ele pode agir como uma espécie de voragem. Nescien reconhece no Graal o objeto do desejo já nutrido por ele quando era um jovem cavaleiro, mas, logo que a custódia foi aberta, treme e perde a vista e com ela todo domínio sobre o próprio corpo. A Queste du Graal acrescenta que Mordrain, com um ato semelhante, tinha tentado contemplar o que a nenhuma língua é dado expressar: sua tentativa desencadeia um vento sobrenatural que lhe destrói a vista, e em tal estado ele é condenado a permanecer em vida até que venha o herói que realizará o mistério do Graal e o curará. O tema não é novo. O mesmo Dante, ao contemplar o empíreo, perde a vista, mesmo que para readquiri-la mais aguda em um segundo tempo. As empresas do herói persa Rostan são voltadas a restituir a vista e a liberdade a um rei, cujas vocações prometeicas resultam claras de sua tentativa de escalar mediante águias o céu. Outros exemplos poderiam ser facilmente apresentados. Segundo a narração de Gerbert, Mordrain, que construiu um altar para o Graal, encontra o acesso a ele barrado por um anjo com espada de fogo . O anjo, como castigo por sua tentativa, lhe anuncia que ele não poderá morrer e que suas feridas permanecerão abertas até a vinda do cavaleiro que "fará a pergunta". No Diu Crone, o se pôr no caminho do Graal é declarado ser "coisa mortalmente perigosa". Mas justamente àquela visão do Graal de perto, que atingiu Mordrain e Nescien, aspira, na Morte Darhur, Galvão, o qual parte em busca de aventuras, propondo-se não voltar antes de ter chegado a tanto. A natureza perigosa do Graal, em segundo lugar, nos é revelada em relação com o tema do "posto perigoso" e com a prova que este constitui para quem quer assumir a parte do "herói esperado" e a função de chefe supremo da cavalaria da Távola Redonda. Trata-se do "posto vazio" ou "décimo terceiro posto" ou "posto polar", do qual já falamos; posto, sob o qual se abre o abismo, ou que é fulminado, quando nele se senta um indigno e um não-eleito. Assim, Moses, quando vai ocupá-lo, é agarrado por sete mãos de fogo e destruído "como a labareda destrói um pedaço de madeira" — em seguida, o texto apresenta a coisa nestes termos: metade do fogo que arde Moses se apagou, mas a outra metade não se apagará até que venha Galaad, para levar a cabo a aventura do Graal. Uma variante é "a prova do vaso": usufruem da êxtase do Graal aqueles que, na mesa de José de Arimateia (a qual se confunde com a da Távola Redonda, ou seja, é dada como o antecedente desta última), não são manchados por culpas; nesta ocasião, Moses, tendo-se sentado no posto perigoso, é engolido por um abismo que se abriu debaixo dele — segundo a explicação cristianizada, por causa de sua falta de fé, porque era um falso discípulo. Por outro lado, se encontra também o motivo de que só quem tiver se sentado no assento de ouro construído por uma mulher sobrenatural poderá cumprir a busca do Graal. Seis cavaleiros que tentaram sentar-se nele são engolidos por uma súbita voragem, Parsifal se senta nele também, ressoa um terrível trovão, a terra se rasga, mas ele permanece tranquilo em seu posto. Impassível, em sua calma dignidade, na pureza de sua força, nada pode contra ele. Em Robert de Boron, depois disso, ao audaz que sustentou tal prova e assim também a todos os cavaleiros da Távola Redonda se impõe uma série adicional de aventuras, que constituem o caminho para a conquista definitiva do Graal. A Queste du Graal e a Morte Darthur apresentam o tema em uma forma ainda mais direta: o posto perigoso é felizmente ocupado apenas por aquele que superou a "prova da espada", que soube tirar uma espada de uma pedra, demonstrando com isso ser o melhor entre todos os cavaleiros. Ao ter sucesso em tal prova, da qual já explicamos o significado, o Graal se manifesta na corte do rei Arthur, resplandece uma luz mais que de sol, o Graal aparece magicamente emanando seu aroma e dando a cada cavaleiro o alimento que lhe é adequado. Este aspecto perigoso do Graal deve ser considerado como o caso-limite do que o Graal pode justamente operar dependendo da vária natureza daqueles que entram em contato com ele. A força do Graal destrói todos aqueles que buscam impugná-la sem ter a qualificação adequada, que tentam de qualquer forma usurpá-la repetindo o gesto titânico, luciférico ou prometeico. Uma expressão, bastante significativa se encontra, a tal respeito, em Wolfram, quando ele diz figurativamente que para os culpados o Graal se torna tão pesado, que eles nem mesmo todos juntos poderiam sustentá-lo. É o excesso mesmo que a potência transcendente constitui para um ser condicionado e ligado à sua limitação, o que faz agir como força destruidora uma força de "vida" (cf. o fogo que consome Moses). Uma variante de tal significado se encontra na Morte Darthur na seguinte forma: ao perceber "uma grande claridade, como se todas as tochas do mundo estivessem reunidas naquela sala", devida ao Graal, Lancelot se adianta. Uma voz o adverte para não entrar, aliás, para fugir, caso contrário terá de se arrepender. Ele não obedece e entra, um fogo o atinge no rosto, ele cai ao chão e não pode mais se levantar, tendo perdido todo poder sobre seus membros. Aos companheiros, que o acreditam morto, um velho diz: "Em nome de Deus, ele não está morto, mas mais cheio de vida do que o mais potente de todos vocês". Lancelot permanece neste estado de morte aparente por vinte e quatro dias e as primeiras palavras que depois diz são: "Por que me acordaram? Eu estava muito melhor do que agora". Esta experiência é referida a ter visto o Sangreal como ninguém pode melhor vê-lo — evidentemente, trata-se de um estado iniciático, de um estado, no qual a participação na potência do Graal é tornada possível por uma suspensão da consciência de vigília e da limitação individual a ela relativa: coisa que evita o efeito negativo, destrutivo e avassalador que a experiência do "contato" tem em quem não sabe passar a formas superiores de consciência, a outros estados do ser. A duplicidade da virtude do Graal está em certa medida em relação com o significado que, em universal, nas tradições concordantes dos vários povos, e também fora de toda relação com o simbolismo cristão, tem o par taça-lança, a taça correspondendo sobretudo ao aspecto feminino, vivificante e iluminador, e a lança ao aspecto viril, ígneo ou regal (cetro) de um mesmo princípio: se se quer, a primeira à árvore "lunar" e a outra à árvore "solar", da qual já se disse, a primeira ao aspecto "Sabedoria santa" e a outra ao aspecto "fogo" e "denominação" do mesmo princípio. Mas no mesmo contexto se poderia inserir também a ambivalência da mesma lança, retomada da tradição irlandesa, que por um lado inflige as coup douloureux provocando uma destruição; por outro, a virtude de curar.