====== PROBLEMA DA IMORTALIDADE ====== //[[jede|DOUTRINA DO DESPERTAR]]// Com estas notas, pretende-se indicar brevemente de que modo o problema da sobrevivência e o próprio da imortalidade se apresentam do ponto de vista iniciático, que, como se disse, é essencialmente um ponto de vista de experiência e de realidade. O primeiro ponto a precisar é o seguinte: para quem se coloca o problema, antes de tudo, de sobreviver, ou não, à morte? Aqui, não pode haver questão de alguma entidade abstrata, concebida pela filosofia ou pela teologia, mas sim daquilo que se é concretamente, isto é, do que se pode chamar de consciência viva. Trata-se de uma consciência individuada que obtém praticamente o sentido de si da correlação com a unidade de certo organismo psico-físico, bem como com a experiência sensorial em geral. Afirmar, pois, de modo simples, a sobrevivência, ou mesmo a imortalidade, de tal consciência, não é algo que se possa fazer sem reflexão. Com efeito, deve-se, antes de tudo, levar em conta o grau em que as faculdades de uma tal consciência, inclusive aquelas que servem de base à sua unidade organizada, ressentem-se das contingências corporais. Pode-se observar que, já com o sono, pela diminuição das percepções sensoriais, a consciência também se enfraquece, ou que dela restam apenas formas reduzidas, próprias ao comum dos sonhos. Existem enfermidades que atacam precisamente, grau a grau, a unidade orgânica, avançando, mas também recuando, a ponto de se sentir novamente a vida com uma metade de saúde, e depois retomando o curso. Foi justamente notado que, em casos desse gênero, experimentam-se sucessivamente as impressões daquele que nasce para a vida e, depois, daquele que se vai em direção à morte; com o desenvolvimento do mal, conhece-se uma espécie de experiência da morte, chega-se a aproximar-se suficientemente dela para que, pelo meio daquilo que em matemática se chama "passagem ao limite", se possa pressentir o seu sentido: sentido de um engolfamento, de uma dissolução. É fato que não seria legítimo esperar outra coisa, quando se trata dessa consciência amalgamada com a vitalidade animal. O problema deveria, então, ser colocado de modo diverso: seria necessário ver em quais casos e sob quais condições há no homem, de fato, algo de diferente, algo a mais do que aquilo que se denominou "consciência viva". Aqui, o ensinamento iniciático difere nitidamente da maior parte das concepções religiosas (ao menos segundo a sua acepção exotérica), porque não coloca o problema da sobrevivência e da imortalidade de modo abstrato e geral — para o homem em geral —, interessando-se, ao contrário, por diversas possibilidades e condições. Entretanto, se não se tem em vista uma consciência organizada e centralizada, como aquela à qual se pensa ao dizer "eu", pode-se admitir, de modo geral, a sobrevivência de algo à crise e ao engolfamento da morte. Assim como o organismo físico, com a morte, não se dissolve no nada, mas dá lugar, primeiramente, a um cadáver, e depois aos produtos da dissociação desse cadáver, que seguem diversas leis físico-químicas, deve-se pensar que o mesmo ocorre aproximadamente com a parte "psíquica" do homem: à morte sobrevive, durante certo tempo, algo que se assemelha a um "cadáver psíquico", uma espécie de fac-símile da personalidade do defunto, que, em certos casos, pode dar lugar a manifestações variadas. São precisamente essas manifestações, do "cadáver psíquico" ou de partes dele (caso já tenha ocorrido sua dissociação ulterior), que foram tomadas pelos espíritas como provas "experimentais" da sobrevivência da alma, mesmo onde valem, para um olhar mais penetrante, antes como demonstração do contrário. O caráter automático, próprio dessas forças sobreviventes e doravante impessoais, não impede que, por vezes, as mencionadas manifestações possuam intensidade particular. Tal é o caso, por exemplo, quando sentimentos, paixões e inclinações profundas foram despertados durante a vida e alimentados até a morte. São tais forças, então, que sustentam a imagem esvaziada do morto, tomando, por assim dizer, o lugar de seu "Eu", como, de resto, embora em menor grau, já ocorria em tais casos durante a vida. Trata-se sempre de ações "elementares" que nada têm a ver com o que se pode chamar de personalidade espiritual do falecido. O emprego desta última expressão requer, entretanto, um esclarecimento, pois implica evidentemente algo mais do que aquilo que se chamou "consciência viva". No domínio da ontologia, é evidente que, sem alguma relação com um princípio transcendente, não somente o homem, mas qualquer ser de qualquer natureza, não poderia ter existência — e nem sequer uma existência ilusória. Do ponto de vista iniciático, pode-se dizer que se sente "Eu" pelo reflexo de um princípio superior, de modo que se pode compreender a condicionalidade já indicada pela consciência ordinária viva como aquela que existe entre uma imagem refletida e o meio em que tal imagem se forma. Entre uma e outra existe, de fato, uma estreita relação que define e mesmo organiza aquilo que, em termos hindus, poderia ser chamado de "Eu dos elementos", ou, ainda melhor, o "Eu samsarico", enquanto a noção correspondente, na terminologia clássica, é a alma, enquanto contraparte do nous, do espírito, entendido como princípio olímpico incorruptível. Quando um espelho se quebra, isto não atinge o objeto que nele se reflete, mas a imagem refletida desaparece. É nesses termos que se deve interpretar o fenômeno da morte, quando tem um desfecho unicamente negativo, como foi dito pouco antes ao falar da consciência viva. Em tal caso, o que possui natureza de Eu humano não sobrevive. Mais exatamente, intervém uma verdadeira mudança de estado, e, fora do espectro e dos resíduos psíquicos já mencionados — que são como automatismos subsistentes por força de inércia —, aquilo que é propriamente vida do Eu samsarico é reabsorvido em uma cepa subpessoal, à qual se podem atribuir os caracteres de um "organismo-raiz". Nesse plano, é novamente concebível uma sobrevivência sui generis, pois esse organismo não apenas deu a vida a um corpo dado, mas pode ainda dá-la a outros, antes e depois desse corpo; à dissolução de uma agregação psico-física determinada e do reflexo do Eu nela sustentado, tal força persiste, tornando-se apenas latente, como a potencialidade de um fogo capaz de reacender-se no seio de nova combinação, a qual significa um novo indivíduo, uma nova existência. Naturalmente, não se trata aqui apenas da espécie e da cepa biológicas, nem das vidas produzidas por um mesmo sangue, mediante geração sexual. As existências, que são diversas manifestações desse organismo, salvo raríssimas exceções, podem parecer absolutamente separadas e absolutamente estranhas umas às outras. Une-as um nó que escapa aos sentidos físicos, um nó invisível, sem base material. Convém limitar-nos a essa indicação, pois o problema das relações entre as diversas hereditariedades que o homem resume conduzir-nos-ia demasiado longe. Seja como for, o motivo desta indicação é dissipar o equívoco da reencarnação, visto que, ao contrário do que pensam muitos "espiritualistas" e teósofos contemporâneos, não corresponde em nada a um ensinamento esotérico aquilo que, em diversos textos ocidentais antigos, pareceria referir-se a ela, sendo apenas uma forma simbólica e popular de expor uma doutrina dotada de significado muito diverso. Em geral, existe uma contradição de termos na suposição de que um "Eu samsarico" — que é, aproximadamente, aquilo que, para uma imensa maioria, vale como seu "Eu", como o "Eu" propriamente dito — possa reencarnar-se; trata-se de uma contradição, porque a identidade relativa de um tal "Eu" existe em função de um organismo psico-físico determinado, isto é, de uma combinação dada, a qual, uma vez dissolvida, não se reproduzirá jamais idêntica a si mesma. O que, em uma série de existências, se continua, não é aquilo que foi produzido, mas a força produtora, isto é, o poder subpessoal acima indicado. Em outros termos: chamando A, B, C, etc., os "Eus" que tomaram forma em diversas existências da série, não é A que se reencarna em B, e de B em C, e assim por diante; é, sim, a força que agiu em A, e na qual A se redissolve, que se remanifesta em B, C, etc. A continuidade encontra-se apenas do lado dessa força, que não é um "Eu" nem a consciência viva. Ao contrário, se, por um prodígio, A — o "Eu" de uma existência dada — pudesse ver diante de si B, C, etc., isto é, os seres que seriam suas "reencarnações", estes lhe pareceriam, e deveriam parecer-lhe, tão estranhos quanto quaisquer outros homens, ou como "Eus" distintos de si no espaço. O plano no qual a "reencarnação" pode ser verdadeira é o plano samsarico (o mundo das Águas, o helênico "ciclo da necessidade") e nada tem a ver, portanto, com o da personalidade espiritual. É por isso — diga-se de passagem — que há motivo fundado para suspeitar de todas as doutrinas que realçam a ideia de "reencarnação", a menos que o objetivo seja, de modo prático, criar uma base para pôr em evidência uma direção totalmente oposta à da "libertação". Que existam experiências especiais, capazes de fornecer à doutrina da "reencarnação" uma espécie de prova, isto não é contestável: trata-se apenas de interpretá-las. Experiências desse gênero tornaram-se, na atualidade, e especialmente no Ocidente, extremamente raras, em razão de o "Eu" individual ter assumido forma cada vez mais rígida e ter-se encerrado sempre mais em si mesmo. É, contudo, possível que, por alguma abertura fortuita, ou mediante práticas iniciáticas, essa limitação seja afastada e se obtenha, então, certa percepção do enraizamento mais profundo da própria vida: é então que aparece a consciência samsarica, a qual pode também assumir a aparência de uma lembrança. No tronco profundo, subpessoal, existe efetivamente a memória de outras existências, daquelas que, em uma série descontínua de "Eus", surgiram como tantas manifestações caducas de um mesmo tronco exaurido. Isto possui, pois, apenas o significado de um deslocamento momentâneo da consciência individual e de uma "descida aos infernos" sui generis. E isto, conforme os casos, corresponde ou a uma regressão, ou a uma certa — ao menos virtual — superindividualidade. Com efeito, por mais que se empurre a fronteira da consciência individual, a consciência desperta, pela força das coisas, enfraquecer-se-ia, como no sono, e já não haveria experiência alguma. É apenas por uma espécie de eco de estados mais antigos que uma semi-consciência samsarica pôde atenuar, no Oriente, esse sentimento da única vida, aqui embaixo, do "Eu", sentimento que é, hoje, no Ocidente, normal e geral. Mas, se não se deve tratar de regressões, nem quase de franjas ou de prolongamentos de uma consciência que não se tenha inteiramente definido e estabilizado, a consciência samsarica deve ser considerada como uma forma da consciência iniciática. E cada um pode recordar que, nos textos budistas das origens, onde se fala da visão das "múltiplas vidas", tal visão está precisamente ligada, e sem equívoco, a estágios da alta contemplação. Trata-se de uma experiência que pressupõe o desapego. Por tal via, chegou-se ao núcleo central do problema iniciático da sobrevivência e à doutrina da natureza condicionada, tanto desta quanto da imortalidade. Utilizou-se, para o "Eu", a imagem de um reflexo, ligado ao meio em que se formou. Pode-se conceber, então, uma ascensão desde o reflexo até a origem, o que implica precisamente uma separação, uma reversão, um desapego, correspondendo este também a uma mudança de estado e a uma crise profunda, para que aí se realize, mais ou menos como na morte, o desaparecimento do apoio habitual proporcionado pelo corpo e pela vitalidade samsarica. Tal é a morte iniciática, a qual pode ser tida como uma morte efetiva, realizada de maneira experimental, após haver sido transmitido ao indivíduo em questão um poder capaz de sustentar-lhe a consciência. Quem efetivamente passou através dessa morte deixou de ser homem; na forma individual, já não está ligado a ela, seu "Eu" já não é reflexo, mas, ao contrário, um ser. Realizou, precisamente, a "personalidade espiritual". Nesse ponto, pode faltar também o apoio do corpo e da experiência sensível, sem que a consciência se dissolva e se perca. Em tais termos, a condição positiva para a sobrevivência encontra-se, portanto, realizada, e é suscetível, eventualmente, de contraprovas. Em determinadas condições, podem ser provocados estados nos quais se pode dizer: "Tudo o que me vem do mundo dos sentidos está agora suprimido, e, contudo, sinto que minha consciência é clara, transparente, intangível". Quanto ao caráter concreto da transformação iniciática, basta recordar a afirmação que tanto escândalo causou na Grécia já "iluminista", a saber: se um delinquente é iniciado em Elêusis, seu destino, após a morte, não é comparável ao daquele que espera o homem mais virtuoso ou mais ilustre, por exemplo, algum Epaminondas. Nesse ponto, importa salientar que a sobrevivência consciente não se identifica com a imortalidade. Isto reconduz à teoria da hierarquia dos mundos e dos estados do ser, bem como às chamadas leis "cíclicas". De tudo isso, dir-se-ão apenas algumas palavras. Imortal, em sentido absoluto, é somente o incondicionado, o princípio além de todas as manifestações. Assim, não há imortalidade senão enquanto imortalidade "olímpica", em sentido superior, procedente de um estado de união com o incondicionado. Aquele que já realizou as condições para a sobrevivência pode tender a esse fim supremo. Mas não está dito que logre alcançá-lo. Pode-se buscar, durante a vida, a "libertação" completa que torna imortal. Algumas possibilidades disso são dadas no momento da morte; outras, em estados póstumos, nas quais o conhecimento e a consciência do iniciado, diferentemente das dos homens comuns, subsistem. Para a imortalidade, é decisivo extinguir todas as tendências que impeliriam a assumir este ou aquele "assento" sobre-humano — se se quiser, "angélico" ou "celeste" —, pois tudo isso, do ponto de vista iniciático, pertence sempre à manifestação, ao condicionado, e não ao incondicionado, e não ao caráter "eterno". Ainda que a luta pela imortalidade se desenrole em um plano propriamente mágico, o dever é enfrentar os organismos com os quais se entra em relação (personificações de modos determinados do ser), criando em si, na mesma direção deles, uma intensidade maior do que a deles. Aqui, o princípio é que, uma vez criado um vínculo, não dominar significa imediatamente ser dominado e, depois, agregado a uma condição determinada de existência. Mas, mesmo ao longo da via mágica, no cume, a força deve transfigurar-se em pura luz, para a "Grande Libertação". Cumpre, em suma, traçar uma linha bem nítida de demarcação entre os que sobrevivem e os "imortais", de um lado, e a grande massa dos homens, de outro, conforme reconheceram sempre, ainda que por símbolos, não apenas as escolas iniciáticas, mas também quase todas as religiões antigas. A ideia segundo a qual cada um possui uma "alma imortal", concebida, ademais, como fac-símile da consciência viva e do "Eu" individual terreno, é uma verdadeira aberração ideológica, ainda que sua utilidade, como ópio para as massas, não possa, por vezes, ser contestada. Não é a "alma" que é capaz de sobreviver e de ser imortal, mas o espírito enquanto nous, enquanto elemento sobrenatural. Mas é inútil falar dele, dizer que é indestrutível e eterno, quando não existe, entre a consciência que vive no reflexo samsarico e tal princípio, nenhum contato, nenhuma continuidade. A "alma" só pode sobreviver quando se conjuga ao "espírito", tornando-se a alma estável e não decaída, de que fala Agrippa. E isto é a metabole, a mudança de polaridade, de que a iniciação é o ponto de partida. A alma, em vez de apoiar-se no ser natural, apoia-se então no ser sobrenatural e nele se integra. Por essa via, constitui-se uma forma nova, a qual não é atingida pela morte. Por ocasião da desagregação do corpo, em vez do resíduo espectral e em vez daquilo que se denominou "segunda morte", liberta-se essa forma, como um "corpo" de luz incorruptível. Ela corresponde à energia que, mediante transformações adequadas, manifestar-se-á depois no plano do ser, correspondendo ao "conhecimento" diverso e à "dignidade" do iniciado. Do mesmo modo, em particular, escapará à morte e irá constituir uma espécie de substrato de continuidade tudo o que, da consciência viva, estiver integrado na alma "estável e não decaída", a qual, ademais, como diz Agrippa, é também o princípio atuante de toda operação de alta magia.