====== INSTANTE ====== //[[jede|DOUTRINA DO DESPERTAR]] – [[jede|CONSCIÊNCIA SAMSARICA]]// * A teoria budista do samsara é apresentada como fundamento para o reforço da doutrina da instantaneidade (kshana), segundo a qual, sendo a existência e o sentido do eu condicionados por contatos, a vida se resolve numa sucessão pontual desses contatos e é, em rigor, instantânea. * Imagem da roda do carro que toca o solo num único ponto, embora o movimento seja contínuo. * Fórmula temporal tripartida: o ser do passado viveu mas não vive nem viverá; o do futuro viverá mas não vive nem viveu; o do presente vive mas não viveu nem viverá. * A consequência é descrita como golpe decisivo contra a teologia bramânica do âtmâ, e mesmo abstraindo formulações extremas de período posterior, esse horizonte conceitual é considerado suficiente para liquidar a teoria da reencarnação, entendida no hinduísmo como efeito em parte de influências exógenas. * Identificação do âtmâ como alvo teológico atingido pela instantaneidade. * Reencarnação tratada como construção dissolvida pela análise condicionada da consciência. * Indicação de que as formulações mais extremas são tardias, embora coerentes. * A preocupação com o que foi ou será além desta vida é colocada, para o Buda, no domínio da opinião e da divagação, caracterizadas por imagens de doença e ferida, de modo que o interesse pela hipótese da reencarnação deve ser excluído desde o princípio. * Classificação desse interesse como “doença, espinhos, feridas, silvado, tumores, labirinto”. * Exclusão a priori do interesse por especulações sobre além-vida. * A tese de que a consciência persiste imutável no ciclo das existências é explicitamente designada como falsa opinião não anunciada pelo Buda e atribuída a um espírito vão, sendo relatado que toda a Ordem dos discípulos concorda com isso após pergunta do príncipe Siddharta. * Rejeição da “persistência imutável” como falsa doutrina. * Associação da falsa opinião a vaidade intelectual. * Concordância do conjunto dos discípulos após a demanda do príncipe Siddharta. * O argumento fundamental afirma, em primeiro lugar, a ausência de dado imediato de consciência que permita reportar como fato ter existido no passado, e, em segundo lugar, que a natureza da consciência é condicionada, sobretudo por “nome-e-forma”, tornando inconcebível continuidade real quando “nome-e-forma” muda e novos khandhas surgem no fluxo. * Impossibilidade de fundar a preexistência em evidência imediata da consciência. * Consciência como condicionada por “nome-e-forma” e pelo surgimento de agregados psicofísicos (khandhas). * Afirmativa de que não é o mesmo “nome-e-forma” que renasce. * Com o esgotamento de uma vida, quando “nome-e-forma” cessa, não se admite a migração do mesmo agregado para outro lugar, mas propõe-se a analogia do som do alaúde, que nasce sem ter existido antes e não vai a outro lugar quando o tocar cessa. * Cessação de “nome-e-forma” como cessação da individualidade. * Som do alaúde como surgimento dependente sem trânsito espacial. * Recusa de uma entidade idêntica que “parte” para outro lugar. * Admite-se continuidade, porém impessoal, definida como continuidade da cobiça, do “corrente” e da vontade de arder para ser, que, após consumir uma vida como combustível, salta para outro suporte e permanece, nos estágios intermediários, como chama que tem a si mesma por combustível, isto é, como puro potencial calorífico. * Continuidade entendida como conatus de desejo que transcende indivíduos. * Vida figurada como combustão que se transfere de tronco em tronco. * Estado intermediário descrito como potência ígnea sem suporte externo. * Para exprimir um continuum que exclui identidade e diversidade absolutas, são empregadas comparações como as três chamas das vigílias da noite, nas quais uma tocha quase apagada acende outra e esta acende uma terceira, sendo as chamas nem iguais nem diversas, pois cada uma é chama de uma tocha distinta. * Transmissão por ignição como vínculo causal sem identidade substancial. * Nem igualdade nem diversidade absoluta como regime do processo. * Chama como vida e consciência de um suporte individuado diverso. * Uma comparação adicional é a do leite que se torna coalhada, depois manteiga, depois queijo, em que a substância é a mesma, mas a mudança de estado torna impróprio manter o mesmo nome, exigindo mutação de denominação quando muda o “nome-e-forma” e, portanto, recusando falar de um mesmo eu e de uma mesma consciência. * Continuidade material sem continuidade nominal do mesmo estado. * Mudança de estado como critério para mudar a designação. * Variação do principium individuationis como chave filosófica da troca de “nome-e-forma”. * A única continuidade real é apresentada como continuidade causal e de herança impessoal, pela qual a chama assume, durante uma vida, certa qualidade e habitus que se conserva e se remanifesta na combustão seguinte, originando a noção de samkâras e a atribuição do determinismo agregador ao termo karma (kamma), até o ponto de chamá-lo matriz dos seres (kammayoni). * Habitus do fogo como qualidade transmissível ao processo sucessivo. * Samkâras como direções estabilizadas no desejo e como um dos cinco troncos da personalidade. * Karma/kamma como termo empregado para o determinismo de agregação de dhammas. * Kammayoni como matriz dos seres e causalidade impessoal das obras. * O princípio é formulado como surgimento de novo ser segundo as obras, com recomeço dos contatos como reinício do processo de combustão, e os seres são ditos herdeiros das ações, desde que se exclua a suposição de substrato individual contínuo e se mantenha a imagem da chama que se transmite com a qualidade adquirida. * Novo ser surgindo segundo as obras e reiteração de contatos como condição. * Herança das ações como herança impessoal de qualidade e direção. * Recusa do retorno de um substrato pessoal idêntico. * Diante de perguntas sobre ser o mesmo indivíduo ou outro o que sente efeitos de existência precedente, não se fornece resposta direta, remetendo-se apenas à gênese condicionada como processo que conduz à consciência samsárica, e à fórmula segundo a qual não é o mesmo “nome-e-forma” que renasce, mas ações realizadas por este condicionam o surgimento de outro “nome-e-forma”. * Remissão à origem condicionada como única resposta. * Ações boas e más como vias causais do surgimento de novo “nome-e-forma”. * Exclusão tanto do mesmo indivíduo quanto de um totalmente outro como soluções simplificadoras. * A conclusão declara que os efeitos surgem em série na qual se excluem identidade e diferença absolutas, não se podendo dizer que sejam criados pelo mesmo ser nem por algo diferente, podendo-se recorrer à analogia de uma bola que se move por choque de outra, ou à geração e hereditariedade biológica, onde tendências e taras se continuam sem identidade pessoal. * Série causal como regime intermediário entre identidade e alteridade. * Bola em movimento por impacto como transmissão de força e direção. * Geração animal como analogia de continuidade de vida e tendências em indivíduo distinto. * A doutrina recomenda pensar menos numa continuidade linear de existências individuais do que em múltiplas aparições de um único tronco de cobiça que é, em cada vida, o desejo que sustenta o indivíduo e, ao mesmo tempo, o transcende, reacendendo-se alhures após retornos à latência segundo direções previamente dadas. * Cobiça como tronco único que se singulariza em vidas particulares. * Transcendência do desejo em relação ao indivíduo que ele sustenta. * Latência e reacendimento como dinâmica de reaparição. * Com isso, é declarado superado o compromisso da concepção upanishádica entre uma consciência átmica e uma consciência samsárica, confirmando-se um ponto de vista rigorosamente realista, sem idealismos nem atenuações. * Ultrapassagem da oscilação entre âtmâ e samsara. * Realismo descrito como desprovido de idealizações. * O resultado não é caracterizado como consolador, pois o Buda é apresentado como tendo acelerado os ritmos e exposto a forma-limite de queda ou involução, precisamente para provocar reação total e fazer compreender a necessidade da ascese postulada pela via do despertar. * Exposição da forma-limite como estratégia de choque. * Queda ou involução como moldura interpretativa. * Ascese como necessidade decorrente para a via do despertar.