====== SER-PARA-MORTE ====== //[[ject|Cavalgar o Tigre]]// * A obscuridade do existencialismo de Heidegger advém da concepção do ser como algo externo e anterior ao ente, uma totalidade de possibilidades a ser perseguida, o que reflete a vivência da transcendência como uma força coercitiva sofrida por um sujeito destituído de liberdade real. * Interpretação da finitude como negação e dívida (Schuld) * O ser como um "estar-adiante-de-si" (Sich-vorweg-sein) em um processo de busca incessante * Caracterização da temporalidade autêntica como uma sucessão extática horizontal * Projeção das possibilidades excluídas do ente em metas temporais inalcançáveis * A perspectiva de Heidegger reduz o Dasein a uma busca sequencial e sedenta pelo ser que nunca se possui, configurando uma fuga para frente em que a existência é marcada pela carência e pela tensão inquietante, em oposição à decisividade do homem integrado que age a partir de um princípio livre. * Analogia entre o Dasein heideggeriano e o homem sedento que jamais alcança a água * Crítica à impossibilidade ontológica de atingir o ser quando este não é raiz prévia * Destruição da tensão e da necessidade no homem vinculado à dimensão transcendente * Transferência do acento do Eu para o Ser como fundamento da ação * O existencialismo sem abertura religiosa manifesta o ritmo da morte sob a forma de um desejo frenético de viver a qualquer preço, revelando-se como uma filosofia da crise que admite a insignificância da vida socializada e anódina. * Identificação do conteúdo existencial profundo como um ritmo de morte * O niilismo como subsolo das construções filosóficas acadêmicas * Limite extremo do pensamento moderno diante da vacuidade existencial * Heidegger localiza a única possibilidade de capturar a totalidade do ser na morte, definindo a existência como um ser-para-a-morte, o que demonstra a persistência de uma condição passiva mesmo diante do fim que deveria representar o cumprimento (telos). * A morte como interrupção da privação irremediável e da não-totalidade * Angústia diante da morte interpretada como a "possibilidade mais própria" * Crítica à coragem da angústia frente ao ideal tradicional de morte triunfal (mors triumphalis) * Rejeição da impassibilidade em favor de uma preocupação tida como autêntica * O processo existencial que gravita em torno da morte é descrito como um destino sombrio em que o indivíduo é lançado em sua possibilidade derradeira, deixando na obscuridade qualquer consideração sobre estados pós-morte ou a tipologia tradicional do falecimento. * O morrer como um "ser-lançado" (Geworfenheit) na própria finitude * Ausência de reflexão sobre a sobrevivência ou hierarquia de estados post-mortem * Negligência quanto ao impacto da atitude diante da morte no destino da alma * Os motivos positivos tocados por Heidegger, como a liberdade como fundamento e abismo, são neutralizados por sua visão do ser como algo excêntrico ao Dasein, restando ao homem apenas a escolha entre a inautenticidade social ou a perseguição vã de uma miragem de totalidade. * A liberdade reduzida a uma conformidade com a exigência do ser-para-a-morte * Transcendência experimentada apenas como uma força que impele por trás (vis a tergo) * Alternativa entre a fuga de si mesmo ou a obediência a um destino fatalista * O colapso final do existencialismo manifesta-se em Jaspers através da doutrina do fracasso (Scheitern), na qual o impulso humano de abraçar o ser total é destinado à derrota diante das situações-limite de culpa, acaso e morte. * Impossibilidade de atingir o ser puro, que se manifesta apenas como linguagem cifrada * Powerlessness do indivíduo perante a ambiguidade do mundo e o imprevisto * Reação autêntica descrita como desespero e angústia frente à realidade * A solução de Jaspers para o fracasso consiste em um salto na fé após o reconhecimento da própria derrota, identificando o colapso trágico do eu com uma abertura extática à transcendência, o que revela uma base teológica protestante subjacente. * Desejo do próprio naufrágio como via de acesso ao ser * Paralelismo com o princípio evangélico de perder a vida para encontrá-la * A epifania da transcendência no momento da fuga do Ser * Paz existencial fundamentada na aceitação da impotência da criatura * O conceito de abrangente (das Umgreifende) em Jaspers resulta em uma experiência mística de dissolução do sujeito no todo, assemelhando-se ao mergulho passivo de Heidegger no ser através da morte, o que é antitético à conquista soberana da transcendência. * Incapacidade de superar a dualidade sujeito-objeto sem aniquilar o Eu * O "mergulho no abrangente" como regressão mística e passiva * Ausência de uma realização afirmativa e criativa da unidade primordial * O existencialismo incorpora demandas nietzschianas, mas recai em complexos emocionais subintelectuais — angústia, náusea, solidão —, falhando em prover uma relação central e positiva com a transcendência que fundamente o domínio do Dasein. * Transcendência concebida como o "outro" e não como o Si-mesmo verdadeiro * Fracasso das soluções baseadas em sentimentos de culpa e desraizamento * Regressão ao mundo religioso em crise sob uma terminologia abstruza (Jaspers, Marcel) * A diferença fundamental entre o existencialismo e o homem de tradição reside no fato de que o primeiro é uma projeção do homem na crise, enquanto o segundo preserva uma dignidade natural e desapegada, restabelecido no Ser de modo inabalável. * Alienação da filosofia existencialista para quem redescobriu o Si-mesmo * Soberania interior versus o caminhar trêmulo sobre o abismo * Contraste entre a existência conformista dos filósofos acadêmicos e a realidade dos homens em revolta ou combatentes * A ideia existencialista de uma escolha original atemporal pode ser integrada à doutrina tradicional da pré-existência, reativando a consciência das origens e de uma liberdade superior que gera força e distância no coração do mundo. * Distinção entre pré-existência e a doutrina popular da reencarnação * Crítica à teologia criacionista por suprimir a dimensão não humana da pessoa * A pré-existência como abertura para a dimensão do Ser além do Eu físico * Fortalecimento da capacidade de entrega total sem ferimento essencial, reunindo as "duas partes da espada"