====== NIILISMO EUROPEU ====== //[[ject|Cavalgar o Tigre]]// * A proposição nietzschiana acerca da morte de Deus constitui a formulação definitiva para o processo simbólico de erosão da moralidade e da visão de mundo contemporâneas, assinalando o colapso de todas as sanções transcendentes que outrora conferiam validade às normas humanas. * Identificação da morte de Deus como ponto de partida para o niilismo europeu * Caracterização do homem moderno como desprovido de raízes no solo sagrado da tradição * Reconhecimento do caráter simbólico da luta de Nietzsche pela busca de sentido em uma existência entregue a si mesma * O advento do niilismo, previsto como um destino fático da Europa, retira a fundamentação de qualquer sistema de valores, validando a premissa de Dostoiévski de que a inexistência de uma instância divina implica na permissividade absoluta de todas as ações. * O niilismo como destino histórico e espiritual inevitável * Nexo entre a ausência de Deus e a autorização de todas as condutas * A morte de Deus expressa a incredulidade convertida em realidade cotidiana e a dessacralização integral da existência, processo iniciado no Renascimento que se consolidou como um estado irreversível, operando mesmo sob o simulacro de substitutos ideológicos. * Ruptura histórica com o mundo da tradição a partir do humanismo * Onipresença da dessacralização na consciência contemporânea * Existência de duplos e sucedâneos que ocultam a vacuidade do sagrado * A fratura ontológica inicial, que extingue a referência à transcendência, desdobra-se primeiramente na tentativa de fundamentar uma moral autônoma baseada exclusivamente na razão, fenômeno que tenta ocultar a perda do nível do sagrado através do fetichismo do dever. * Perda da referência ontológica à transcendência como fato elementar * Emergência da moral autônoma e do racionalismo ético * O imperativo categórico kantiano como símbolo da fase racionalista e do estoicismo do dever * A moralidade racional e secular, ao perder sua conexão efetiva com um mundo superior, revela-se desprovida de alicerces invulneráveis, reduzindo o mandamento ético a um eco rígido e vazio de uma lei outrora viva. * Fragilidade da fundamentação racional frente à crítica dialética * Inexistência de imperativos que não pressuponham axiomas sociais ou pessoais injustificados * Esvaziamento do conteúdo do dever na ética de Kant * A dissolução subsequente ao racionalismo ético manifesta-se na ética utilitarista ou social, onde a distinção entre bem e mal é substituída pela conveniência individual e pela tranquilidade material, revelando o niilismo sob a máscara do conformismo burguês. * Transição da moral absoluta para a ética da utilidade e do bem-estar social * O conformismo e a hipocrisia como sustentáculos da ordem burguesa * Dissolução anárquica preparada pelo individualismo do final do século XIX * A figura do herói romântico e as proposições de Max Stirner marcam a exaustão da rebeldia individualista, em que a destruição do Deus exterior é completada pela negação do Deus interior e de qualquer fantasmagoria idealista em nome do Único que se apoia no nada. * O herói romântico como transição trágica e afirmação do indivíduo superior * Crítica de Max Stirner à moral como última forma de fetiche divino * Identificação dos revolucionários niilistas como crentes em utopias sociais paradoxais * O niilismo europeu ataca não apenas a moralidade, mas a própria noção de verdade e finalidade, revelando que o mundo dos valores e do espírito foi uma invenção reativa destinada a negar a realidade do devir e dos sentidos. * Extensão do niilismo aos domínios do conhecimento e da teleologia * Interpretação dos valores superiores como sintomas de uma vida decadente e enfraquecida * Desvelamento das raízes irracionais e humanas das construções espirituais * A fase trágica do niilismo caracteriza-se pela percepção da existência como algo desprovido de meta e significado, onde a queda dos suportes metafísicos reduz a vida a uma realidade nua e sem referências externas, conforme a constatação existencialista de que a presença de Deus não alteraria a vacuidade do real. * Miséria do homem sem Deus e ausência de finalismo existencial * O conceito de Deus como alienação do eu na perspectiva de Kirilov * A redução sartriana da existência à sua factualidade bruta e absurda * Distinguem-se duas fases críticas: uma caracterizada pela rebelião metafísica e moral contra o estabelecido, e uma segunda, o niilismo propriamente dito, em que os próprios motivos da revolta se dissolvem, restando apenas a consciência da absoluta irracionalidade da condição humana. * Diferenciação entre rebelião moral e niilismo puro * Emergência do sentido do absurdo como tema central da contemporaneidade