====== TEÍSMO E ATEÍSMO ====== //[[ject|Cavalgar o Tigre]]// * A gênese da crise espiritual no Ocidente moderno vincula-se à percepção de que o cristianismo, desprovido de um ensinamento metafísico interior ou esoterismo, tornou-se uma forma religiosa puramente humana e sentimental, incapaz de resistir à demolição promovida pelo pensamento livre. * Inexistência de uma doutrina de princípios superiores além dos dogmas populares * Insuficiência da mística esporádica para suprir a carência de um corpo doutrinário absoluto * Facilidade da subversão racionalista diante de uma tradição mutilada e exoterizada * A morte de Deus anunciada por Nietzsche refere-se estritamente ao deus da moralidade e do teísmo, uma projeção dos valores sociais e suporte da fraqueza humana, cuja superação permite o ressurgimento da divindade em termos metafísicos, para além do bem e do mal. * Conquista sobre o deus pessoal e providencial do moralismo burguês * Distinção entre o colapso do teísmo e a perenidade da metafísica * Reaparecimento do princípio divino despojado da pele moral humana * As grandes tradições anteriores e exteriores ao cristianismo reconheciam um fundamento universal anterior a todas as antíteses, conferindo uma justificativa suprema a toda a existência, inclusive aos seus aspectos destrutivos, sob os símbolos do jogo e da dança divina. * Identidade transcendente entre o devir (samsara) e o incondicionado (nirvana) * Simbolismo da dança de Shiva como expressão da vontade divina no caos * Referência ao mistério de Osíris como deus negro e à unidade neoplatônica * O olhar livre que não julga segundo categorias humanas de bem e mal * O processo involutivo da modernidade provocou o desaparecimento desses horizontes metafísicos, transformando sistemas como o budismo e o taoísmo em formas devocionais populares e consolidando no Ocidente uma visão do sagrado restrita aos termos morais e sentimentais. * Regressão do plano metafísico para o religioso e confessional * Profanação das doutrinas internas originais por incapacidade de compreensão das massas * Exclusividade do modelo moral de transcendência no mundo ocidental * Alusões a uma liberdade superior e a uma era do espírito surgiram marginalmente no cristianismo, como na anomia proclamada pelos Irmãos do Livre Espírito ou na pobreza simbólica de Jacopone da Todi, que negava o temor ao inferno e a esperança no céu. * A terceira idade de Joaquim de Fiore como era de liberdade espiritual * Superação da lei e das categorias de mérito e castigo na mística radical * Virtude que prescinde de si mesma em favor da liberdade de espírito * Os conceitos fundamentais do Ocidente cristão, como o deus pessoal e a lei moral sancionada pelo além, são estranhos à visão metafísica da Tradição, sendo o ataque niilista a esses pilares a condição necessária para a abertura de uma nova essencialidade inviolável. * Queda do deus-ópio e da pequena moralidade burguesa * Permanência do núcleo metafísico inacessível aos processos de dissolução * Prova de força e de fé no sentido superior através da aceitação do niilismo * A realidade, em sua fundação absoluta, desconhece as categorias de bem e mal, as quais funcionam apenas em relação a fins humanos; a Grande Economia do universo integra o que se denomina mal como um aspecto particular de uma ordem superior. * Concepção da realidade livre de julgamentos naturalistas ou pantéicos * Insuficiência da teodiceia teísta frente à amoralidade do Absoluto * Legitimidade da ação vinculada ao Ser e não a finalismos coletivos * O outro mundo combatido pelo niilismo não constitui uma realidade separada, mas uma dimensão absoluta da própria realidade, na qual o real adquire significado na nudez pura do Ser, sem necessidade de negação do mundo sensível. * Superação da dicotomia entre mundo real e mundo ilusório * Significação absoluta da existência na dimensão da transcendência * Crítica ao niilismo que interpreta o espiritual apenas como evasão * A visão de vida adequada ao homem reduzido a si mesmo exige a descoberta de uma identidade suprema e a ancoragem na transcendência interior, convertendo-a no eixo imóvel que sustenta a superioridade sobre a vida no próprio seio desta. * Percepção da transcendência como centro gravitacional inabalável * Impossibilidade existencial da prece e da petição externa * A divindade como posse intangível e presença calma, não como objeto de crença * Identidade absoluta que torna sem sentido as etiquetas de ateu ou crente * O desafio existencial diante da dor e do absurdo deve ser enfrentado através da ativação consciente do princípio transcendente, transformando a adversidade em um meio de confirmar a própria força e valor. * Valorização do homem superior em combate com a sorte adversa * O que não destrói fortalece como máxima de coragem metafísica * Diferenciação entre o fortalecimento espiritual e o endurecimento estoico ou físico * O choque da realidade e o trauma contemporâneo podem atuar como catalisadores para o despertar da força interior, especialmente quando a distinção entre a individualidade humana e o princípio do ser é reduzida a uma película tênue. * Reação positiva ao vazio e à tragédia em oposição ao retorno religioso * Momentos de libertação realizados na própria desintegração * Exemplificação da visão Milleriana que justifica o caos a partir de um centro vivo * A ruptura de níveis, operada por um choque súbito, instila uma qualidade distinta no circuito da vida, permitindo que o indivíduo se situe em um centro onde o periférico e o caótico deixam de afetar a essência do ser. * Transição da periferia caótica para a centralidade absoluta * Mudança qualitativa na percepção do mundo após o trauma existencial * Desvinculação definitiva do destino individual em relação ao colapso do mundo exterior