====== SIGNIFICADO E ORIGEM DOS TANTRAS ====== //[[jeip|Ioga do Poder]]// * Nos primeiros séculos da era cristã, sobretudo por volta do século V d.C., ocorreu na área da grande civilização indo-ariana uma profunda transformação espiritual e religiosa caracterizada pelo surgimento e difusão de uma nova corrente que marcou decisivamente o desenvolvimento posterior do hinduísmo e do budismo. * Influência sobre escolas de yoga, especulação pós-upanishádica e cultos de Vishnu e Shiva. * Surgimento, no budismo, do Vajrayana, o “Caminho do Diamante” ou “Caminho do Trovão”. * Convergência com cultos populares e práticas mágicas, bem como com ensinamentos estritamente esotéricos e iniciáticos. * Essa nova corrente, designada como Tantrismo, apresentou-se como síntese dos principais motivos da espiritualidade hindu e como desenvolvimento ulterior da tradição védica, reivindicando estatuto equivalente ao de um “quinto Veda”. * Significado dos termos Tantra e Agama como continuidade e desenvolvimento da revelação anterior. * Referência à doutrina dos quatro yugas, especialmente ao Kali Yuga como idade obscura. * Afirmação de que apenas as práticas baseadas na shakti são eficazes na idade atual, sendo as demais comparadas a uma serpente sem veneno. * O Tantrismo caracteriza-se por reação contra ritualismo estereotipado, mera especulação contemplativa e ascetismo unilateral, afirmando um caminho de ação prática e realização direta. * Ênfase na prática (sadhana, abhyasa) como palavra de ordem. * Aproximação ao “caminho seco”, em analogia com o budismo primitivo. * Valorização do mantra como palavra de poder capaz de produzir efeitos supra-humanos. * A sadhana tântrica é apresentada como união de Purusha e Prakriti no próprio corpo, superando a oposição entre filosofia abstrata e realização concreta. * Despertar das forças internas do corpo. * Subordinação do raciocínio à eficácia prática. * Possibilidade de abandono do método caso não produza resultados. * A eficácia de uma doutrina é comparada à de um medicamento, sendo comprovada pelos siddhis ou poderes obtidos mediante prática perseverante. * Rejeição de sinais exteriores como vestimentas ou discursos. * Ênfase na prática incansável como segredo do sucesso. * A análise do Kali Yuga evidencia a centralidade do corpo e a necessidade de dominar energias internas, em contexto de dissolução da ordem tradicional simbolizada pelo enfraquecimento do dharma. * Impossibilidade de puro desapego, como no budismo primitivo. * Despertar da deusa Kali durante a idade obscura. * Necessidade de enfrentar e transformar forças elementares, exemplificada pela imagem de “cavalgar o tigre” e “transformar o veneno em remédio”. * Emergência do Vama-marga, o Caminho da Mão Esquerda. * Considerando as condições do Kali Yuga, afirma-se a possibilidade de revelação mais ampla de ensinamentos antes secretos, ainda que restritos aos iniciados. * Reconhecimento do perigo para não iniciados. * Consolidação de ensinamentos esotéricos e iniciáticos no Tantrismo. * O Tantrismo introduz a passagem do ideal de libertação para o de liberdade, superando a oposição entre fruição do mundo e disciplina ascética. * Reinterpretação do ideal do jivanmukta. * Superação da antítese entre gozo e yoga. * Recusa da concepção do mundo como maya, afirmando-o como poder. * União de Shiva e Shakti como meta suprema. * O Shaktismo constitui elemento fundamental do Tantrismo, centrado na figura da deusa Shakti em suas múltiplas epifanias, especialmente Kali e Durga. * Predominância do elemento feminino nas duplas divinas. * Associação das Shaktis a deuses hindus, buddhas e bodhisattvas. * Emergência do motivo dos casais divinos com ênfase no princípio feminino. * O Shaktismo possui raízes arcaicas exógenas, ligadas a substratos dravídicos e a cultos da Grande Mãe análogos aos do mundo mediterrânico proto-histórico. * Paralelos entre Kali, Durga, Deméter Melaina, Cibele, Diana e as “Madonas negras”. * Vestígios arqueológicos em Mohenjo-Daro e Harappa. * Reemergência de cultos subterrâneos após a conquista indo-europeia. * Metafisicamente, o casal divino simboliza a dimensão imutável representada pelo deus e a energia imanente representada pela deusa. * Correspondência entre ser e vida, transcendência e imanência. * Indício de deslocamento de perspectivas no Kali Yuga em favor do princípio ativo. * O nome Shakti expressa poder, e sua elevação ao princípio supremo implica visão do mundo como potência ativa, especialmente desenvolvida na escola da Caxemira. * Reformulação da teoria dos tattvas do Sankhya e dos darshanas. * Integração com doutrinas upanishádicas e mahayanistas. * Fundamentação metafísica do sistema de yoga tântrico. * O Shaktismo e o Tantrismo favoreceram também práticas mágicas e rituais de origem pré-indo-europeia, por vezes limítrofes com a feitiçaria. * Revivescência de práticas orgiásticas e sexuais. * Elevação dessas práticas a plano iniciático no contexto tântrico. * As deusas, manifestações da única Shakti, dividem-se em formas luminosas e benéficas e formas sombrias e terríveis, sem distinção absolutamente fixa. * Exemplos luminosos: Parvati, Uma, Lakshmi, Gauri. * Exemplos sombrios: Kali, Durga Bhairavi, Camunda. * Relação com movimentos devocionais como bhakti e puja. * Desenvolvimento do Bhaktimarga, associado a Ramanuja. * As deusas propriamente tântricas, sobretudo Kali e Durga, articulam a integração entre Tantrismo e Shaivismo, sob a égide de Shiva. * Relação entre Rudra védico e Shiva. * Simbolismo de Nataraja como dança de criação e destruição. * Distinção entre Caminho da Mão Direita e Caminho da Mão Esquerda à luz da trimurti (Brahma, Vishnu, Shiva). * A especulação tântrica caracteriza-se por metafísica da shakti, uso sistemático da sadhana e valorização dos mantras como palavras de poder. * Identificação do Tantrismo como Mantrayana em certos contextos. * Conexão estreita com yoga, especialmente hatha yoga e kundalini yoga. * Ciência da corporeidade oculta e correlação microcosmo-macrocosmo. * Ênfase em respiração e sexualidade como disciplinas do Kali Yuga. * Escolas Siddhantachara e Kulachara, conforme Kularnava-Tantra e Mahanirvana-Tantra. * Ideal da união de Shiva e Shakti culminando no mahasukhakaya do budismo tântrico. * O reconhecimento moderno do Tantrismo no Ocidente deve-se a estudiosos e tradutores que divulgaram textos hindus e tibetanos anteriormente desconhecidos. * Contribuições de Sir John Woodroffe (Arthur Avalon). * Traduções de W. Y. Evans-Wentz e Lama Kazi Dawa-Samdup. * Trabalhos de De la Vallee Poussin, Von Glasenapp, G. Tucci, H. Hoffmann e Mircea Eliade. * Superação da imagem do Tantrismo como mera “magia negra”. * A exposição proposta concentra-se nos aspectos doutrinários e práticos do Tantrismo, compreendido como síntese e suplemento das tradições anteriores. * Integração de ensinamentos precedentes à perspectiva tântrica. * Oferta de visão geral da tradição hindu sob enfoque tântrico. * A abordagem metodológica adota distância tanto do orientalismo acadêmico estritamente especializado quanto do espiritualismo e ocultismo contemporâneos, articulando interpretação de conhecimento esotérico com base comparativa. * Ênfase na interpretação de ensinamentos iniciáticos. * Referência a experiências pessoais e comparações com outras tradições esotéricas.