====== CORPOREIDADE OCULTA ====== //[[jeip|Ioga do Poder]]// * A hatha yoga tântrica hindu identifica-se com a kundalini yoga, e seu equivalente no tantrismo budista é a vajrarupa-guhya, entendida como o mistério do corpo “diamante-trovão”, em que a sadhana se fixa no corpo como base e lugar de todas as operações espirituais. * Centralidade do corpo como fundamento e cenário efetivo das operações. * Correspondência microcosmo-macrocosmo como pressuposto analógico-mágico. * Presença, no corpo, de todas as potências ativas do mundo, expressa pelo dito de que o externo aparece porque existe no interno. * Afirmação do Nirvana-Tantra de que cada corpo é este universo (brahmananda). * Enunciação do ensinamento dirigido à deusa, sob a forma de Shiva instruindo Shakti, segundo o qual a sabedoria está no corpo e conduz à onisciência. * O corpo considerado não é o corpo físico isolado, mas a corporeidade total do humano como instrumento de forças super-físicas que operam no organismo e o sustentam, exigindo referência à teoria dos três corpos como três dimensões de uma mesma entidade. * Três dimensões: material, sutil e causal, inseparáveis enquanto modos do mesmo ser. * Correspondência entre três corpos e três sedes de consciência, com gradação de acessibilidade. * Corpo material ligado à vigília ordinária e ao eu comum. * Planos sutil e causal usualmente inacessíveis à percepção ordinária. * A doutrina associa os planos sutil e causal a estados de consciência geralmente reduzidos na vida comum, enquanto um quarto estado incondicionado corresponde a catalepsia ou morte aparente, de modo que as dimensões transfisiológicas permanecem vedadas à vigília habitual. * Plano sutil associado ao sonho (svapnasthana). * Plano causal associado ao sono profundo sem sonhos (sushupta-sthana). * Quarto estado (kathurta/turiya) equiparado a catalepsia e aparência de morte. * Impossibilidade comum de experimentar rajas como energia pura e sattva como ato puro. * Predomínio ordinário do estado tamásico da corporeidade como forma estática e limitada (sthula-rupa). * Subconsciência, inconsciência e consciências rebaixadas como contenção e ocultação do mistério da corporeidade transcendente. * As técnicas da hatha yoga visam remover a barreira que separa a vigília do acesso às dimensões sutis, revelando a corporeidade espiritual a uma consciência lúcida e alerta mediante expansão que substitui estados embotados por superconsciência. * Expansão da consciência como condição do acesso ao sutil e ao causal. * Superconsciência como substituição de formas deterioradas de consciência. * Recusa da interpretação de que o procedimento induz transe inferior à vigília. * A crítica às interpretações psicanalíticas ocidentais sustenta que elas invertem o sentido da yoga ao imaginá-la como hipnose ou transe mediúnico, ao passo que o efeito real é intensificação e elevação da lucidez, sendo lembradas formulações de Plutarco e Sinésio sobre o sono como mistério da morte e via de plenitude. * Contestação da leitura que rebaixa a experiência a estados sub-vigilantes. * Plutarco associado à ideia de sono como mistério menor da morte e iniciação preliminar. * Sinésio associado à ideia de sono como revelação do caminho ao cumprimento máximo do ser. * A contraposição à psicanálise inclui a recusa de Freud e também de C. G. Jung, por operar no plano fenomenológico e por absolutizar o inconsciente como entidade opaca, enquanto na yoga o inconsciente contém princípios ontológicos e realidades metafísicas suscetíveis de serem conhecidos e resolvidos. * Crítica ao reificamento do inconsciente e à tese de sua impenetrabilidade. * Redução psicanalítica a conteúdos como hereditariedade da espécie, experiências infantis, estruturas alucinatórias e “arquétipos” deslocados ao irracional. * Caráter materialista e fisiológico do horizonte psicanalítico descrito. * Inconsciente, na yoga, como portador de princípios ontológicos e realidades metafísicas. * Superação do inconsciente por superconsciência e reintegração autêntica do eu. * Recusa da tese de que as disciplinas orientais seriam terapia de neuróticos e doentes, sendo pressuposta a saúde e o equilíbrio como base do caminho. * A passagem além da consciência ordinária altera a relação com o mundo, pois a exterioridade do mundo espelha a exterioridade da sede do eu em relação ao corpo, e a entrada nos planos sutil e causal implica descoberta de dimensões não físicas e não fenomenológicas. * Consciência ordinária como sede não localizável fisicamente e, por isso, “externa” ao corpo. * Mundo aparecendo como externo ao eu por causa dessa exterioridade. * Mudança de relação com o mundo ao atravessar para os planos sutis. * Descoberta de dimensões imateriais do mundo correlatas às dimensões internas. * A imersão do eu na corporeidade oculta associa-se à percepção de ter vivido apenas uma vez e torna visível o risco de crise na morte, pois a consciência vinculada a uma forma individuada participa de sua finitude, ao passo que a continuidade real só é concebível no nível dos corpos sutil e causal. * Consequência da ignorância ordinária das forças profundas superiores à individuação. * Morte como crise possível e não como evento indiferente. * Participação do eu, enquanto imerso na forma, na natureza efêmera dessa forma. * Ruptura da continuidade da consciência como problema decisivo. * Continuidade concebível apenas em sedes superiores à individuação e não restritas a uma vida. * No plano do corpo sutil emerge a consciência samsárica como percepção de corrente que arrasta e faz de cada vida um redemoinho particular, e no plano causal a consciência se estende verticalmente por estados múltiplos até um ponto sem mudança ou devir. * Corpo sutil associado à percepção de fluxo transindividual. * Existência singular como vórtice numa corrente mais ampla. * Corpo causal associado a extensão vertical por estados de ser. * Alusão a um nível em que cessam mudança e devir. * A contraposição entre teorias orientais de renascimento e a crença ocidental recente na unicidade da vida é apresentada como índice de involução no Kali Yuga, ao mesmo tempo em que a crença popular na reencarnação é recusada como supersticiosa por imaginar série de encarnações terrestres de uma entidade única sem fundamentos tradicionais sólidos. * Crença ocidental na vida única como sinal barométrico de involução. * Teorias orientais como eco de estado primordial com acesso menos bloqueado ao sutil. * Perda desse acesso pela crescente fisicalização do corpo humano. * Reencarnação folk como formulação terrestre e seriada considerada sem base tradicional. * A hatha yoga exige o desenvolvimento de uma doutrina da corporeidade total em correspondências macrocosmicas, formulada como anatomia e fisiologia ocultas nas quais bijas e devatas se dispõem no corpo em centros que repetem a hierarquia dos tattvas. * Princípios e forças do mundo presentes no corpo como centros. * Centros denominados chakras ou padmas, imperceptíveis à ciência experimental. * Repetição, nos centros, da ordem da manifestação e da hierarquia dos tattvas. * Correntes vitais e luminosas emanando dos centros e vinculando funções orgânicas e psicofísicas. * Correspondência entre órgãos/sistemas e potências “celestes” (tattvas semipuros) e “divinas” (tattvas puros). * Indicação de retorno posterior ao tema dos chakras. * Há relação específica entre sistemas orgânicos e estados de consciência, sendo afirmado que vigília, sonho, sono profundo e catalepsia possuem “precipitados” físicos respectivamente nos sistemas cerebral, nervoso, circulatório e esquelético. * Sistema cerebral ligado à vigília ordinária. * Sistema nervoso ligado ao estado de sonho. * Sistema circulatório ligado ao sono profundo. * Sistema esquelético ligado à catalepsia/morte aparente (turiya). * Na dualidade Shiva-Shakti, Shiva é associado à fonte da consciência clara e Shakti ao prana que permeia o organismo, concebendo-se o corpo como trama de forças e correntes luminosas em movimento, chamadas vayus e nadis. * Prana descrito como calor na água, óleo na semente de gergelim e fogo na lenha. * Organismo intertecido por correntes e canais sutis em movimento constante. * Além da Shakti na díade com Shiva, a potência primordial Parashakti está no organismo como kundalini, enraizada no muladhara-chakra, plexo das nadis e centro correspondente ao prithivi-tattva, onde a potência de base permanece adormecida como potencial não utilizado. * Muladhara como fundamento e suporte básico. * Plexo de nadis como “artérias luminosas” do vigor vital. * Correspondência ao tattva da terra, símbolo da experiência sensível e material. * Kundalini como “enrolada”, significando sono e latência. * O sono de kundalini é ligado ao viver em mundo caótico e dualista, no qual a unidade da potência não é percebida, sendo dito que o samsara perdura enquanto essa potência dorme. * Dualismo como sinal de não percepção da unidade da força. * Continuidade do samsara como efeito do adormecimento. * A relação entre kundalini e sexo é tratada em termos de fisiologia super-física, na qual a mesma Shakti que liberta também se manifesta como desejo, figurada simbolicamente como serpente enrolada no linga de Shiva, bloqueando a via de uma geração transcendente e indicando a necessidade de mudança de polaridade frente à sexualidade procriativa. * Desejo como manifestação samsárica e degradada de Shakti. * Ícone do svayambhu-linga como potência autogeradora e anagógica. * Semen como princípio de endogênese transcendente, impedida pelo bloqueio simbólico. * Polarização em desejo e energia procriativa como obstáculo à explicitação da potência shaivista. * Mudança de polaridade como pressuposto operativo da hatha yoga. * Nesse nível, a castidade recebe sentido técnico-operativo, pois a orientação concupiscente é incompatível com a realização pura de kundalini, e o termo urdhavaretas exprime a inversão ascensional da energia, comparada ao simbolismo gnóstico do Jordão que, ao fluir para cima, gera deuses e uma raça sem rei. * Castidade como operação sobre a polaridade da energia. * Urdhavaretas como “fluir para cima” e transformação direcional. * Jordão como símbolo de fluxo descendente ligado à procriação e fluxo ascendente ligado à geração divina. * A fisiologia oculta da hatha yoga destaca dois vayus principais, prana e apana, interligados e antagonistas, cuja oscilação expressa instabilidade existencial, e interpreta hatha como segredo da unificação (ha = prana; tha = apana), culminando em procedimentos como mulabhanda que invertem direções e unem nada e bindu sob orientação de guru. * Prana ligado à respiração e tendência ascensional. * Apana ligado a funções de excreção e descarga, incluindo ejaculação. * Metáforas do falcão preso e da bola que rebate para descrever contenção recíproca. * Oscilação como marca do ser finito e instável. * Mulabhanda como inversão: prana para baixo e apana para cima. * Unificação como condição da perfeição do yoga e necessidade de guia. * A dualidade do organismo sutil é descrita por ida e pingala, vias lunares e solares associadas respectivamente a Shakti e Shiva, entrelaçadas ao longo da coluna desde o muladhara até a região das sobrancelhas, vinculadas à respiração alternada e ao simbolismo da urna e do terceiro olho de Shiva. * Ida como via lunar, pálida e etérea, associada ao princípio shaktico. * Pingala como via solar, vermelho brilhante, associada ao princípio shaivista. * Entrelace serpentiforme com cinco contatos ao longo do eixo. * Região frontal como símbolo do “olho” ciclópico e do terceiro olho. * Relação sugerida com cordões laterais do simpático e com alternância das narinas. * Ida descrita como indo do testículo direito à narina esquerda e pingala do testículo esquerdo à narina direita. * Hamsah do prana: sah como inspiração e ham como expiração. * A dualidade ida-pingala mede a temporalidade pelo ritmo respiratório, e sua consumação na força única da sushumna implica suspensão do tempo e da condição temporal. * Alternância respiratória como medida de kâla. * Consumação do dual no eixo central como consumo do tempo. * O despertar de kundalini é descrito como resultado da suspensão e conjunção de ida e pingala por pranayama, produzindo vórtice que faz a força ascender pelo eixo da sushumna, atravessar o brahmadvara e assumir natureza vajrínica e chitrínica, sendo a sushumna identificada ao Caminho Médio e à Árvore da Vida. * Pranayama como controle e suspensão do alento vital. * Conjunção solar-lunar como analogia de união sexual Shiva-Shakti. * Ascensão desde o muladhara ao longo do eixo medular. * Hermes e o caduceu como analogia de duas serpentes e haste central. * Brahmadvara como limiar fechado no estado samsárico. * Vajrini-nadi como natureza diamante-trovão. * Chitrini-nadi como radiação da sílaba sagrada geradora de conhecimento puro. * Sushumna como Grande Caminho, Caminho Régio, Caminho do Meio e Árvore da Vida. * O derramamento da força não dual na sushumna é associado ao “fogo da morte”, correlacionando-se morte, êxtase e iniciação como mudança ontológica real de estado, e a sushumna como Caminho Médio é alinhada à direção do incondicionado, enquanto vias laterais conduzem a estados condicionados. * “Morte” como sensação traumática no ápice de união mágica. * Iniciação como morte ativa e ruptura da consciência ordinária. * Mudança ontológica na hierarquia dos estados de ser. * Direção axial como via ao incondicionado e ramificações como vias a condicionamentos. * A expansão de consciência supera a limitação da vigília condicionada pelo corpo físico e transforma kundalini em meio de realização controlada das potências corporais, dos chakras e de suas correspondências macrocosmicas, em regressão rumo ao princípio. * Superação da barreira que impede perceber dimensões super-físicas. * Kundalini como meio para conhecer e dominar poderes ocultos. * Progressão regressiva em relação à manifestação cósmica de Shakti até o princípio. * As presunções gerais dessa yoga incluem atravessar a crise do despertar sem ser arrastado, unir-se a kundalini e guiá-la pelos chakras, exigindo controle lúcido e firme mesmo em estados trans-físicos, sendo rejeitada a atuação aleatória da “força serpentina” e evocada a imagem de Shakti como viúva à espera do consorte. * Crise do despertar como prova a ser superada. * União com a força despertada como exigência. * Condução deliberada pelos centros como condição. * Controle como requisito superior ao simples despertar. * Simbolismo da viúva como força em estado de liberação aguardando o par. * A cosmologia tântrica é retomada pela distinção entre pravritti-marga descendente sob Shakti e nirvritti-marga de reabsorção em Shiva, sendo a kundalini yoga entendida como laya yoga em modo interior, onde cada chakra é sede de um deus e sua shakti e o processo envolve transformação progressiva do elemento shaktico em shaivista. * Pravritti-marga como emanação extrovertida e limitação na terra. * Nirvritti-marga como laya e reunião com Shiva. * Laya yoga como realização sub specie interioritatis. * Cada um dos seis primeiros chakras como sede de divindade e shakti. * Despertar por união sexual simbólica e remoção gradual da lei dualista de maya-shakti. * Sétimo chakra como união suprema de Shiva e Shakti em nível transcendental. * O paralelo vajrayanista descreve a entrada de buddhas nos chakras do corpo como equivalente da união de deus e deusa, entendendo buddha como elemento luminoso shaivista, e associando a realização dos chakras à formação de membros do corpo diamantino (vajra-rupa). * Buddhas nos chakras como correlação do acoplamento divino em cada centro. * Buddha como correlato do elemento luminoso shaivista. * Experiências sobrenaturais e constituição do vajra-rupa como efeito da realização. * A passagem ao estudo dos chakras apoia-se em Shatchakra-Nirupana e Padukapanchaka na tradução de Arthur Avalon em The Serpent Power, assumindo descrição estereotipada e esquemática dos textos para expor elementos, símbolos e deuses. * Fontes indicadas como dois tratados curtos. * Avalon como tradutor e comentador de símbolos e atributos. * Reconhecimento do caráter esquemático e repetitivo da exposição textual. * Os sete chakras são enumerados como muladhara, svadhishthana, manipura, anahata, vishuddha, ajna e sahasrara, sendo os cinco primeiros ligados aos cinco grandes elementos, o ajna ligado ao órgão interno e às potências intelectuais até buddhi, e o sahasrara ligado à unidade suprema e ao cume de Kailasa, morada de Shiva. * Cinco primeiros chakras correspondendo a terra, água, fogo, ar e éter. * Ajna correspondendo ao “órgão interno” e ao intelecto individuante até buddhi. * Tattvas superiores situados entre ajna e sahasrara. * Sahasrara no topo da cabeça como unidade suprema e pico do Monte Kailasa. * Shiva designado como Senhor da Montanha no imaginário mítico. * Os chakras são figurados como lótus ao longo da coluna e de sua extensão, com número específico de pétalas associado a letras causais (matrika) e forças invisíveis da natura naturans, manifestadas como forças formadoras e correntes prânicas irradiantes, cuja multiplicidade de correntes explica o número de pétalas e sugere analogia com plexos do organismo. * Pétalas como correspondência de letras causais e forças invisíveis. * Forças da natura naturans como moldadoras e irradiantes no corpo sutil. * Número de pétalas como número de correntes emanadas. * Analogia possível com plexos corporais como imagem aproximativa. * A cada chakra associa-se ainda um mantra em relação com a potência dominante do centro, podendo ser empregado no processo de despertar. * Mantra como correlação operativa do poder predominante. * Uso do mantra como instrumento de ativação do centro.