====== PASSAGEM AO PROBLEMA DO INDIVÍDUO ====== //[[jetia|Teoria do Indivíduo Absoluto]]// Mostrar-se-á agora que a dualidade encontrada como dado elementar da experiência não é senão símbolo do problema do indivíduo e que, como tal, é real apenas porque é necessária. Sob outro aspecto, pode-se também dizer: a sua imposição em sede lógica reflete apenas a postulação de uma tarefa. O significado concreto daquilo que aparece como condição abstrata da experiência é, pois, que um infinito, uma absolutidade, afirma-se necessariamente, ainda que de modo obscuro, tão logo uma objetividade se encontre em correlação com ela. Isso significa, de um lado, anular todo fantasma da infinitude ligada ao mundo exterior, todo movimento de angústia e de inquietação que determinados aspectos do espetáculo das coisas podem gerar. E também toda renúncia, toda paixão, toda abdicação e toda negação, não existindo senão como momentos de uma experiência segundo a condicionalidade X ⊃ A ⊃ S; nelas, sempre de novo e de modo irredutível, lampeja em toda parte aquilo que é raiz do subjetivo, do Eu. Mas, por outro lado, o próprio da experiência imediata é que tal ponto de infinitude irredutível seja dado apenas em correlação com um sistema variado de determinações, cuja relação com ele é, na maioria das vezes, extrínseca e contingente. A substância do dado existencial revela-se, assim, mais do que como uma abstrata dualidade, como conflito, como a tensão entre dois elementos opostos e, contudo, de fato, coagidos em um único ponto. Ora, perceber a exigência de dominar essa matéria dilacerada, de tornar racional essa unidade irracional em que a consciência humana se encontra, é o mesmo que colocar o problema do valor. Obscuramente, surdamente agitando-se em todo ser, tão logo este pensa, age ou deseja, tal problema alcança sua perfeita expressão apenas no ponto em que uma consciência distinta da natureza antitética do dado elementar se realiza — o que equivale a dizer: no ponto em que aquilo que deve ser pensado logicamente e gnoseologicamente como condição de experiência é realizado em uma experiência vivida. Trata-se, portanto, de pôr fim àquele estado oblíquo e quase de semivigília que, de ordinário, caracteriza a existência comum, mesmo em muitas de suas formas consideradas superiores. A esse respeito, pode-se também falar do viver do Eu sobre um seu ato originário e obscuro, mediante o qual, tendo estabelecido uma espécie de promiscuidade com o objetivo, ele frui da subjetividade sob a forma de um esquecimento da subjetividade. Se é do ser que provém a antítese — percebida de modo confuso e indireto — que deriva a inconsistência de toda vida desse tipo, em que os seres em geral aparecem como sombras, ignorantes do que são, do que querem e do que fazem em cada momento, isso, por sua vez, procede precisamente de uma elementar e indistinta coalescência com o objetivo. Ora, a antítese, a irracionalidade, é percebida em sua vivacidade existencial apenas no ponto em que o sentido do princípio subjetivo é posto a nu. Esse movimento interior a excita e a revela, e com isso mesmo põe fim à névoa, à ordem da platônica "coisa que é e que não é". É importante indicar o caráter de radical contingência desse absoluto tomar consciência do Eu — trata-se daquele mesmo caráter já considerado ao falar-se do problema do valor em geral. Na realidade, a consciência pode continuar a fruir de sua forma como negação da forma. Se o movimento interior ora indicado ocorre, ocorre absolutamente por si mesmo, em uma liberdade que assume e resolve o "deves" próprio da necessidade lógica. O contradizer-se das coisas, por um lado, e, por outro, as situações ligadas à dor, à desventura ou à miséria, foram frequentemente consideradas como estímulos ao recolhimento do Eu sobre si mesmo e ao despertar. Certamente, tudo isso, em sua possibilidade, exprime a oposição entre a essência do Eu e a determinação — oposição que aqui já adquire um relevo particular; mas, em verdade, essa oposição, estando uniformemente presente como condição transcendental no momento em que todo objetivo é, a questão não diz respeito à sua presença mais ou menos implícita, mas à sua assunção nua, precisa, absoluta, que requer uma pura iniciativa e que, pode-se dizer, representa um começo extranatural. Das contradições entre as determinações fenomênicas pode, com efeito, ser propiciado um sistema de ciência, e da "dor do mundo" pode derivar uma religião ou uma prática em que o Eu enquanto tal não seja menos ausente e oblíquo do que na existência ordinária — infinitos são, aliás, os caminhos da evasão, da retórica e da substituição no mundo dos homens. Mas antes que o indivíduo, mediante um movimento incondicionado, assuma a essência do Eu, nada pode ter significado de valor — donde esse ato ser um limite que separa dois mundos incomunicáveis. Uma vez realizado, parece que nele se exprime apenas um reconhecer aquilo que já era, um reconduzir ao centro o que já estava de fato contido na periferia; que, portanto, ele procede do simples refletir do Eu sobre aquela experiência, que é a sua experiência e fora da qual, para ele, não pode haver nada. Mas precisamente isso confirma a mencionada contingência do movimento que, enquanto real, está em relação à sua marca — constituída pela necessidade lógica — como ato em relação à potencialidade.