====== SÍMBOLOS HEROICOS DA TRADIÇÃO ROMANA ====== //EVOLA, Julius. Symboles et “mythes” de la Tradition Occidentale. Milano: Archè, 1980.// * A maneira geralmente abstrata das pesquisas especializadas impede a compreensão de significações das tradições antigas que ainda hoje têm algo a dizer. * O culto da ação, que hoje reveste mil formas e penetrou profundamente a vida europeia como base do poder econômico-industrial, tem precisas correspondências na Antiguidade clássica. * O termo culto passa, no contexto antigo, de sentido metafórico a sentido literal: um ciclo de símbolos, mitos e instituições pressupõe uma consciência em que a ação significava rito sagrado, encontro de forças humanas e cósmicas. * Considerar atentamente as tradições antigas ultrapassa, portanto, a simples curiosidade. * Existe uma forma de espírito para a qual religião e espiritualidade são a mesma coisa, tornando profano tudo o que não é devoção, fé, submissão a Deus, sacerdotalidade, ascese ou elevação mística. * Essa mentalidade predominou até recentemente. * As filosofias modernas de tipo idealista reagiram contra ela, instaurando um ponto de vista mais amplo que faz aparecer toda espiritualidade de tipo religioso como apenas uma forma de espiritualidade, sem prioridade ou dignidade superior em relação a outras. * O Oriente antigo e o Ocidente medieval conheceram duas grandes vias, a Ação e a Contemplação, cada uma capaz de conduzir o homem além do humano. * A via da ação deu origem à tradição, ao rito e à casta dos guerreiros, os kshatriya, e à verdade heroica. * A via da contemplação deu origem à tradição, ao rito e à casta sacerdotal, os brahmana, e à verdade sagrada. * Para o Ocidente, caracterizado pela predominância da ação, o princípio de renovação deveria operar transpondo a ação ao espiritual, tendo como base o princípio heroico-guerreiro e não o princípio religioso-contemplativo. * As tradições antigas, sobretudo as romanas, são ricas em formas da tradição heroica ocidental, cujo sentido profundo permanece oculto sob o aspecto exterior e empírico ao qual os preconceitos da cultura moderna se apegam. * O homem de esporte moderno desconhece que os ludi e os jogos tão honrados entre gregos e romanos tinham caráter sagrado, como afirma Tito Lívio ao dizer que a origem dos jogos foi dada à realização dos ritos religiosos. * Havia perigo em negligenciar os sacra certamina: o Estado romano podia simplificar os jogos com o erário vazio, mas não suprimi-los. * A constituição de Urso obrigava os duumviri e os edis a celebrar os jogos em honra dos deuses; Vitrúvio exigia que cada cidade tivesse seu teatro para os dias festivos dos deuses imortais. * Os jogos estavam tão estreitamente ligados aos templos que os imperadores cristãos foram obrigados a conservá-los. * Uma agape em que demônios eram convidados consagrava os ludi, e Agostinho os registra entre as res divinas. * Nos circos romanos os números e símbolos sagrados se incorporavam à estrutura dos jogos, segundo análise de Tertuliano e de Bachofen. * O Três aparecia nas ternae summitates metarum e nas três aras às três grandes divindades, relacionadas por Tertuliano à Grande Tríade dos Mistérios de Samotracia e à tríade das mães da natureza Seia, Segetia e Tutilina. * O Cinco aparecia nos cinco spatia dos circuitos de Domiciano; o Sete era o número das voltas e dos ovos e dos golfinhos ou tritões presentes no recinto do circo. * O ovo, ôon protôgonon, expressava a potencialidade que encerra toda possibilidade como logos spermatikos; o tritão, ippôn udôr, consagrado a Posêidon-Netuno, expressava a potência masculina fálico-telúrica das águas geratrizes e o símbolo do macho primordial que atravessa Isis assimilada à terra do Egito, conforme tradição reportada por Plutarco. * A localização dos ludi e das pistas no vale consagrado à Murcia, e o lugar eleito para as Equirria entre o Tibre e as metae marcadas no Campo de Marte, confirmam que a ação percorria símbolos sensíveis de significação superior. * Isso levou Piganiol a escrever que os jogos tinham frequentemente o sentido de um método e de uma técnica mágica. * O ímpeto dos cavaleiros que entravam pela porta do Oriente e do Ocidente para se confrontar em luta mortal incorporava a luta entre as duas grandes forças das coisas. * As cores primitivas das duas facções, idênticas às que dividem o ovo cósmico órfico, simbolizavam o inverno e o verão, a potência ouraniana do dia e a potência telúrica da obscuridade. * As estátuas das divindades triunfais transformavam o circo em um concílio de deidades, dæmonum concilium, cuja presença invisível era ritualmente marcada por lugares vazios. * O vencedor aparecia revestido de caráter divino, semelhante a uma fugaz encarnação da divindade, e a aclamação dos gladiadores vitoriosos passou inclusive para a liturgia cristã: eis aionas ap'aionos. * Em Olímpia, no momento do triunfo, o vencedor era considerado encarnação do Zeus local. * Segundo Schelling, a mitologia não se esgota em invenção poética, mas jorra de um processo necessário e objetivo do espírito em que os Deuses representam dramaticamente os contatos interiores com as potências que se exteriorizam na realidade e nos fenômenos naturais. * A ação dos jogos visava a evocar e a renovar esses contatos, sugerindo uma consciência cósmica tanto pelo misterioso poder das analogias quanto pelas formas de superação realizadas pela experiência heroica. * Ponto de vista próximo ao de Vico. * A embriaguez heroica da competição e da vitória, com interesse superior à própria vida, foi considerada na Antiguidade clássica como imitação ou prelúdio daquela aspiração mais alta que, no iniciado, transforma a morte em ressurreição, a morte triunfal. * As frequentes referências aos certamina e aos jogos do circo como agona ton mustikon explicam as representações dos vencedores olímpicos na arte funerária pagã. * Essas representações traduziam analogicamente a melior spes do morto e visualizavam o tipo de ato capaz de vencer o Hades e conquistar a glória de uma vida eterna, não segundo a verdade religiosa, mas segundo a verdade guerreira ocidental. * No sarcófago de Haghia Triada, nos relevos do carro greco-etrusco de Monteleone e nas estelas de Bolonha, as imagens da morte triunfal se repetem, com Vitórias aladas cobrindo as portas do Hades ou sustentando o medalhão do morto. * Os Enagones e os Promaches tornaram-se na Grécia deuses místicos condutores das almas para a imortalidade. * No orfismo, as Nikes tornaram-se o símbolo da vitória da alma sobre o corpo; o recém-iniciado era saudado com o nome de herói. * Stratos e militia eram os nomes da tropa dos iniciados, e mnasistratos o nome do hierofante dos mistérios. * Hélio como sol nascente era Nike e possuía um carro triunfal; Nike era Thelete e Mystis, divindades da consagração iniciática que implicava renascimento pelo espírito. * Os últimos ecos de uma sabedoria heroico-simbólica se encontram nos jogos romanos, que um denegramento sistemático quis ver apenas como brutalidade e materialismo. * Roma não se preocupava com forma religiosa alguma e conheceu o espírito pela ação, sob a espécie dos que combatem e não dos que rezam, realizando-o até o limite solar constituído pelo Império. * Para compreender a tradição do duplo, identificado tanto à deusa da Vitória quanto à deusa da Morte, é necessário passar da compreensão abstrata à compreensão concreta e viva mediante experiência interior. * O duplo se refere à noção de demônio em Plotino e ao ensinamento de que cada homem tem seu próprio demônio. * Corresponde ao que na tradição hindu se designa como linga e karana-sharira, partes do ser integral do homem traduzíveis como indivíduo individuante. * É uma força profunda raramente atingida pela consciência clara, que teria originalmente determinado a consciência finita na forma e no corpo, permanecendo à base dos processos profundos da vida. * Em termos modernos, o duplo é um símbolo para diferenciar o ato do fato: a ideia de que apenas o que está no si escapa à caducidade transpõe a consciência do fato para a consciência do ato ou autoconsciência transcendental. * É imortal aquele que não tem mais demônio, pois tornou-se, como o spoudaios plotiniano, seu próprio demônio. * A assimilação do duplo à deusa da Morte se impõe porque a crise do sujeito empírico finito ligado ao fato é o que vulgarmente se denomina morte. * Na tradição oposta à mística, a via torna-se uma atitude de superação ativa, de exaltação e liberação das forças mais profundas do ser. * Em suas formas inferiores era a dança frenética, o ritmo menádico e coribântico; em suas formas superiores era a lúcida vertigem do perigo e o ímpeto heroico que se desperta nos combates. * Ludere engloba etimologicamente a ideia de desligar, alusão à virtude que a luta possui de desfazer os limites da consciência finita e de desencadear o estado atual mais profundo. * As Valquírias da tradição nórdica, divindades tempestuosas das batalhas que conduziam simbolicamente as almas dos guerreiros ao Walhalla, foram consideradas essas próprias almas. * A vitória torna-se a visibilidade de uma morte triunfal e de uma epifania mística da aniquilação da força abissal evocada na plena atualidade do espírito. * A aclamação do imperador ou do chefe no campo de batalha significava a brusca manifestação de uma força de ordem superior que o glorificava. * O culto imperial, em sua forma romana ou iraniana, em que os reis eram reconhecidos pelo hvareno, termo que significa simultaneamente glória e fogo divino como prova de sua vitória, tem essa mesma origem. * Nessa tradição não há simples símbolo, mito ou superstição, mas traços de uma tradição conhecida heroica e ocidentalmente pelo espírito, capaz de elevá-lo tão alto quanto qualquer tradição religiosa exótica e antiromana, como a tradição semítico-cristã. * Uma tradição heroica pode ainda tocar o mundo moderno, pois este trai de mil maneiras uma indomável vontade de ação que deixa às fés e aos misticismos um espaço cada vez mais restrito. * Se os contatos estão cortados e os deuses mortos, essa realidade pertence sempre à mesma casta; quando a consciência atual despertar, uma alma se unirá a ela como ao seu corpo. * A antiga significação da ação deve despertar, talvez em outros homens, sob outras formas e em outros gestos, transfigurando-se em via, valor, rito e libertação. * Isso por graus de luz, do alto para baixo, hierarquicamente: mesmo a frenética loucura dos esportes modernos poderá ser elevada. * Nas expedições insanas que excedem os limites pelo simples prazer de ultrapassá-los, na vontade fascinante que bloqueia medo e instinto, nas máquinas devoradoras do vento, no assalto a rochas, paredes, cristas e glaciares à proximidade do céu e do abismo, homens poderão talvez reencontrar um símbolo, uma luz espiritual e um contato com as forças primordiais que foram as Divindades dos Antigos. * A competição física poderá assim tornar-se metafísica e a vitória um símbolo do estado transcendental.