====== ESCRITOS EM UR & KRUR ====== //EVOLA, Julius. UR & KRUR [Introduction à la Magie]. UR 1927. Milano: Archè, 1983.// #### A Doutrina do "Corpo Imortal" * Ao ensino tradicional concernente à imortalidade corresponde a doutrina do "triplo corpo" — ou, mais simplesmente, do corpo imortal — na qual nos deteremos brevemente. * Precisa-se imediatamente que o termo "corpo" é empregado aqui de uma forma analógica para designar novas formas de consciência e de ação que o Eu pode fazer suas, em virtude de possibilidades que, todavia, superam o comum dos mortais. * De sorte que a doutrina em questão — como toda doutrina esotérica — só pode ser considerada como verdadeira no quadro próprio à aristocracia restrita daqueles que conseguiram percorrer o caminho da iniciação. * Falar a respeito do homem ordinário não teria qualquer sentido: para ele não existem nem os três, nem os sete, nem os nove corpos, nem todos os que se poderia imaginar — para ele existe simplesmente apenas o seu próprio estado humano de consciência condicionado pela sua relação recíproca com o organismo físico, e isso é tudo. * Acrescente-se que, se o homem pode ver, apalpar, descrever este organismo, se experimenta por seu intermédio sensações e reações — na verdade, ele praticamente nada conhece dele (no sentido do que nós entendemos por "conhecer"). * Assim como lhe escapa o poder que faz com que a seu comando os braços se movam, assim também lhe escapa aquele graças ao qual o coração bate. * De sorte que, para ele, com efeito, o corpo é realmente uma incógnita, uma misteriosa entidade com a qual, misteriosamente também, ele acorda e à qual está ligado. * Mas aquele que, ao contrário, encontrasse o caminho que lhe permitisse resolver este mistério graças à luz e graças ao poder do Eu — esse alcançaria de uma só vez o "conhecimento" dos diferentes corpos evocados pelo ocultismo. * Os quais, podemos dizê-lo desde já, não são outros corpos, mas sim outros modos de vida para o que se entende comumente por "corpo". * Já se viu que a vida após a morte tem como condição conseguir a capacidade de manter a consciência, uma vez esta privada do suporte do corpo físico. * Aquele que atingiu este cume está, virtualmente, "fora das águas" e o fato de a unidade do organismo físico se desfazer não tem mais importância para ele — a esse propósito, evocou-se também a possibilidade de "partir para não mais voltar". * A afirmação da existência (ego sum) é então sentida como uma amarra, como uma negação do ser. * Este caminho consiste, portanto, em se desfazer de todos os determinismos, reais e possíveis, de despojamento em despojamento, de despir em despir, até que — uma vez caída a envoltura por uma integração absoluta à "ipseidade" — o "sum" se dissolva e se resolva no "est". * Aqui, estamos no cume da "Identidade suprema", da "fixação" das Upanishads, do nirvana budista, do "Um" plotiniano: "Vazio como um vaso no céu — cheio como um vaso no oceano", diz-se no Hatha-Yoga. * Há também, por outro lado, a possibilidade mágica, daquele que, ao contrário, quer a afirmação. * Uma vez liberado, o princípio retorna então entre aquilo de que se libertou, num estado de potência. * O conjunto dos elementos e dos processos que, até então, me apareciam como simplesmente dados, tendo um caráter de necessidade, de independência e de exterioridade com relação à consciência ordinária — deve doravante se organizar em função das minhas possibilidades, em símbolos dos meus poderes. * Uma vez que uma coisa é reduzida ao meu poder, torno-me livre com relação a ela: me "purifico" dela, ela não tem mais existência própria, a não ser como símbolo, ilusão. * Tal é o segundo processo, mágico, de dissolução e de resolução, cujo princípio não é mais a "identidade", mas a possibilidade — isto é, a capacidade ativa, livre e incondicionada de se transformar em tal ou qual "poder". * No início, este processo se aplica à natureza humana mesma, ao "cadáver", e depois através dela, levando em conta as relações essenciais entre o macrocosmo e o microcosmo, às hierarquias que regem os diversos elementos da natureza em geral. * A este respeito, é preciso estar plenamente consciente do fato de que, na maioria dos homens, a individualidade é uma pura ficção, de que a sua própria unidade é tão fictícia e precária quanto um simples agregado de forças e de influências que em nenhum caso podem considerar como suas. * Abraxa fez alusão a isto de uma forma sugestiva: outrora o Buda (Majjihimanikâya, XXXV) fazia notar que, quando se diz "O corpo é meu", isso só tinha sentido na medida em que se podia pôr efetivamente em execução o desejo: "Eis como deve ser o meu corpo e eis como não deve ser". * As forças das quais o homem depende são primeiramente de ordem psíquica e em seguida de ordem natural. * Às primeiras se refere tudo o que é do domínio dos sentimentos, das paixões, das crenças, dos afetos naturais, das tradições, dos laços de sangue, etc. * É assim que o homem ordinário nunca deveria dizer "Eu amo", mas "O amor ama em mim". * Assim como o fogo se manifesta em cada uma de suas chamas quando as condições necessárias estão reunidas — assim o amor (ou antes o ser do amor) se manifesta, por intermédio de cada homem que ama, como algo que o transcende e o transporta, mas com relação ao qual este permanece passivo. * Poderia dizer-se o mesmo do ódio, do medo, da piedade, etc. * Mas vamos mais longe: qualquer nação, religião ou instituição tradicional possui o seu próprio "ser" — e as reações instintivas e profundas suscitadas por uma ofensa à pátria, à fé ou à moral são as de tais "seres" — e não de modo algum, como se crê habitualmente, reações individuais próprias a um Eu distinto e autônomo. * Precise-se, aliás, de passagem, que é justamente a importância de tais reações no Eu que dá a medida exata da sua escravidão e da sua inconsistência. * O grau de individualidade, quando se desce nas profundezas do ser orgânico — sistemas sanguíneo, endócrino, nervoso, ou então sono, fome, etc. — torna-se ainda mais insignificante, se é que isso é possível. * Tudo isso, nos indivíduos, exprime um elemento transcendente e coletivo de que é por demais evidente que o Eu particular não é o princípio ativo e diretor. * Apoiando-se nele, o Eu não é, não é seu senhor. * É assim que a sua própria vida individual é apenas um miragem fugaz, que só perdura enquanto não se rompe o equilíbrio puramente contingente que dá uma estabilidade, uma unidade toda relativa ao seu ser psicofisiológico, enquanto as diversas forças não se reabsorveram nos "seres" dos quais emanam respectivamente. * Os quais, por consequência, não se encontram Deus sabe onde: na terra ou sob a terra; mas que estão aí presentes nas ações, nas paixões, nos próprios órgãos dos homens. * Tudo leva a sua marca, tudo sofre invisivelmente a sua influência, nesse estado de aturdimento e de ausência ao qual os homens dão o nome de "vida". * É por isso que aquele que quer começar a viver verdadeiramente deve primeiro morrer, extrair uma vida individualizada, uma vida que seja por si mesma, e não esse emaranhado de influências e de interdependências. * O homem é imortal na medida em que se revela capaz de levar uma vida autônoma. * A "morte iniciática" de que se falou constitui a primeira etapa da individualidade e confere assim uma primeira garantia, limitada ao puro princípio do Eu, de imortalidade. * Mas, se a imortalidade não deve ser apenas a prolongação da pura consciência, se ao contrário esta consciência deve se articular em formas de ação e de expressão próprias ao nível que é o seu, e uma vez que as formas corpóreas são inerentes à consciência dos mortais — é preciso nessas condições que a qualidade individual que esta possui se estenda igualmente aos diversos elementos e virtudes constitutivas do agregado humano, para fazê-los seus, para os manter na coleira sob uma forma que leve precisamente o selo da individualidade. * Isto é o corpo mágico ou corpo de ressurreição. * Trata-se, de fato, de recriar o próprio corpo, de percorrer totalmente o processo místico e obscuro ao longo do qual ele se constituiu — ou antes a partir do qual foi constituído — para ser depois emprestado, como uma veste caduca e mortal, ao Eu. * Trata-se de percorrê-lo, mas em nome do princípio que venceu a morte e que é, por si mesmo. * As etapas sucessivas deste processo são as mesmas que as diversas provas e etapas da iniciação — na medida em que estas são o resultado de relações estabelecidas com os diversos seres, primeiro psíquicos e em seguida naturais (deuses) que reinam como senhores sobre os seres humanos e agem através de seu corpo e de seu espírito. * É sobre esses seres que o mago deve, nesse domínio operativo, reafirmar a sua própria autonomia — e mesmo dobrar sob sua lei as forças que atestavam a presença desses seres no interior de seu organismo. * A "veste de Glória" ou "corpo imortal" das tradições gnósticas, substituindo "a farrapo de escravidão", seria a última consagração daquele que, após ter atravessado vitoriosamente esta série de provas, se emanciparia assim totalmente da esfera do "Destino" e da dominação dos "regentes" ou "Arcontes". * O corpo imortal é, portanto, antes de tudo um corpo simples, não composto, na medida em que é igualmente "simples" a substância do Eu que o habita, que o impregna e que se substituiu à multidão, frequentemente antagonista, das forças coletivas dominantes. * Poder-se-ia dizer que ele é feito de consciência e de potência, e não mais de matéria. * O que não se deve esquecer é que, para nós, a matéria não é um princípio distinto, coexistente ao espírito, mas que ela é ela mesma uma forma, ou um estado, segundo a qual a única realidade que é o espírito se experimenta a si mesma. * A matéria é simplesmente o que há de inerte, de passivo e de inconsciente no espírito: enquanto tal, ela pode sempre ser "resolvida" ou "reduzida", como é precisamente o caso com o "corpo mágico". * Uma analogia nos ajudará a compreender melhor: que se pense no que acontece com o que se chama os "reflexos ideomotores": se, quando se está em estado de total relaxamento, se fixa mentalmente com intensidade a imagem do próprio braço levantado, se perceberá de repente que ele está efetivamente levantado, sem que no entanto se tenha apelado ao sistema nervoso — pelo efeito, ao contrário, de um poder direto suscitado pela própria imagem. * Dever-se-ia poder conseguir conceber algo de semelhante para o conjunto do corpo: a saber, que todo o corpo, nas suas fibras mais íntimas, no conjunto de seus órgãos, funções e movimentos, seria assumido pelo espírito através de uma imagem absoluta, vertiginosa, iluminante, total. * O corpo, nesse momento, não existiria mais enquanto corpo: seu substrato, sua base seriam unicamente a sua própria imagem mágica, tratar-se-ia então de um corpo concebido, movido e vivificado pelo espírito. * Os órgãos se resolveriam em símbolos, em ideias formativas — que são como as "assinaturas" astrais, os nomes dos seres aos quais correspondem. * É aliás por isso que se dá no Oriente ao "corpo imortal" o nome de manomayakaya ("corpo feito de mental") ou ainda o de mayavi-rupa ("forma aparente"), noção que se reencontra no docetismo cristão. * E a razão disso é clara: chegando a este estágio, de fato, é o corpo que vem se apoiar no Eu — e não mais o Eu no corpo. * Se o Eu, um só instante, pudesse se esvanecer, o corpo desabaria no nada: o Eu nesse momento o toma sobre si e, pela potência do seu mental, sustenta e comanda todo o seu peso, assim como acontece para a consciência ordinária a propósito de um pensamento qualquer. * Suprimir a sua imagem, cessar de pensá-lo, equivaleria portanto a fazê-lo desaparecer (no Taoismo, esta operação leva o nome de s'i-kiai). * Neste mesmo número, fala-se também do simbolismo do "sal" que, alquimicamente, corresponde ao corpo. * O sal é o que é fixo, é o elemento de base, a virtude daquilo que resiste ao "Fogo" e que não se pode modificar. * Prisão do Enxofre adormecido, o seu "despertar" produz uma "virtude" que reage sobre ele e pode reduzi-lo, resolvê-lo em volátil — isto é, num modo de ser que possui em próprio as características de liberação e de transformação do ar. * Reencontra-se esta ideia nos gnósticos, nos quais a "Veste de Glória" correspondia ao "corpo de liberdade", ou no budismo mahayanico com o nirmanakaya, que se pode precisamente traduzir por "corpo de transformação". * Em outras palavras, o corpo regenerado é mais do que um corpo, é um poder ou mais exatamente um corpo no estado de poder: e isto coincide com a livre possibilidade de se manifestar através de um corpo, não forçosamente neste antes que naquele. * Tal como a faculdade de falar é minha na medida em que posso modelá-la e usá-la como quero — ou então não usá-la guardando silêncio. * O mago chega portanto a manter relações do mesmo tipo com o seu próprio corpo: faz dele o que quer, projeta-o sob uma forma ou sob outra, fá-lo aparecer ou desaparecer, sem que ele mesmo seja modificado por semelhantes transformações. * Tal é o sentido que reveste, na tradição helênica, o termo de "seminarium" para o corpo mágico: levando em conta o fato de que este não é um corpo particular e fixo, mas antes a potencialidade ativa, o germe de um número infinito de corpos "projetáveis", a partir da substância mental, por adequada transformação. * Não se deve, todavia, concluir que o corpo mágico, sendo aparente (mâyâvî-rûpa), seria por consequência irreal. * Tudo o que foi dito até aqui não se refere às qualidades, fisicamente constatáveis, de um corpo dado e cuja manifestação particular não poderia ser, a este respeito, senão idêntica à de qualquer outro corpo material e mortal. * Tudo isto se refere unicamente à função — doravante ativa e livre, ao passo que era até então passiva e necessária — segundo a qual o conjunto de tais qualidades é apreendido pelo Eu. * O fato de uma coisa ser reduzida ao meu poder não a torna por isso irreal, mas ao contrário real no mais alto grau. * Um corpo tornado imaterial e que, por consequência, é "aparência" ou "criação mental", significa simplesmente um corpo no qual não há mais nada que resista ao espírito, é um ato perfeito. * A transformação operada não é material, mas substancial no sentido que dava a este termo a escolástica quando, a propósito da eucaristia, sustentava a identidade e a conservação dos atributos sensíveis na hóstia, apesar da sua transformação. * Segue-se que o corpo mágico é invulnerável e imortal — só permanecendo sujeito à alteração e à corrupção o que é composto, o que não depende de mim, aquilo com relação a que não sou o condicionante, mas o condicionado. * De tal sorte que o único termo que lhe convém é o de vajra — explicitado neste mesmo número — próprio daquilo que é adamantino, incorruptível, feito de potência e de luz fulgurante. * O "corpo ígneo" ou "radiante" dos imortais, nos neoplatônicos, tem aliás o mesmo significado e se reporta a uma doutrina análoga. * Em definitivo, pensar em um lugar e em uma época determinados e estar — por uma presença real, efetiva — nesse lugar e nessa época é uma virtude não miraculosa, mas natural da parte de um corpo que se absorveu no mental (ou do qual uma parte foi absorvida pelo mental), da parte de um corpo sustentado apenas pela sua própria imagem. * Ele está onde o espírito está. * Para ser mais preciso, pode-se notar que o "corpo imortal" é chamado "triplo corpo" e que aquele que o veste é dito o "Senhor dos três Mundos". * No plano técnico, o ponto de partida é o estado de "nudez" e de "individualidade" realizado através da morte iniciática e transferido, desde os estados extracorpóreos, ao estado de consciência ordinária no mago. * A primeira operação consiste então em superar o estágio da consciência que toma apoio no cérebro e elevar-se a uma relação direta com aquilo de que o mundo dos pensamentos, das representações e mesmo das emoções não representa senão um simples reflexo edulcorado e fragmentário. * A este fim, é preciso proceder à "extração do mercúrio" que é, em primeiro lugar, a realização do estado "sutil" ou "fluido" que faz de mediador entre os dois mundos: o da exterioridade lunar e o da imanência solar. * Graças a este estado, é possível tomar contato com forças profundamente enterradas no organismo — sucessivamente no sistema sanguíneo, no sistema glandular, no sistema reprodutivo — e que têm esta dupla correspondência: 1) reino animal — reino vegetal — reino mineral e 2) estado de sonho — estado de sono — estado de morte aparente. * Digamos, para tornar mais clara esta correspondência, que os símbolos ou "nomes" que despertam (transformando em supraconsciência o que é o sonho para o homem comum, por exemplo) revelam, ao fazê-lo, os "arquétipos" das diferentes espécies animais: a saber, os "seres" que reinam sobre elas — os indivíduos particulares sendo de algum modo apenas os corpúsculos dos seus "corpos". * Tal é o significado dos animais sagrados ou vivos aos quais se faz alusão (que se faz corresponder, em regra geral, aos doze signos do zodíaco) e que o iniciado "desposa", isto é, possui, apondo por estas "núpcias" o selo sobre o seu primeiro corpo. * O mesmo se dá para os outros dois estágios, dos quais o último é aquele onde age a força criadora originária, ou dragão (aquele que o Sepher Yetsira situa "ao centro do universo, como um Rei no seu trono"), ou Fogo Sagrado, Ur, kundalini. * Transmitida a outros "centros", ela está na origem da hierarquia setenária e isto significa que a ressurreição mágica se estende ao plano transcendental, "celeste" — o qual rege os elementos naturais — tornando-a absoluta. * É então que ela se aplica, em primeiro lugar, ao mundo das formas e dos seres finitos, submetidos à geração e à corrupção — isto é, o mundo "causado" ou "naturado" — e, simetricamente, que faz resplandecer o nirmanakaya, o corpo mágico ou aparente capaz de transformações e de ações apropriadas. * Em segundo lugar, ela se aplica ao mundo sutil dos "elementais", daquilo que tem e não tem forma, do "som espiritual" e cuja essência, simetricamente, é feita da plenitude, do livre gozo, da luminosidade do sambhogakaya — o arquétipo invisível, puramente intelectual do qual emana o nirmanakaya. * Em terceiro lugar, ela se aplica ao mundo feito de iluminação e de "vacuidade" que, simultaneamente, é e não é, que é incontaminado, transcendente e que, simetricamente, "ativa" o dharmakaya, o corpo supremo feito de lei e de comando, inconcebível — que se chama também svabhavakaya, a saber, o puro modo daquilo que é em si mesmo. * Este corpo uno e triplo é o "corpo imortal" do "Senhor dos Três Mundos".