====== ALQUIMIA E FENOMENOLOGIA DO IMAGINÁRIO EM GASTON BACHELARD ====== //GEAY, Patrick. Hermès trahi: impostures philosphiques et néo-spiritualisme d'après l'oeuvre de René Guénon. Paris: Ed. Dervy, 1996// * A recepção dual da obra de Gaston Bachelard * A constatação de que a obra de G. Bachelard, com seus dois versantes epistemológico e da imaginação poética, suscitou posicionamentos opostos ao longo das últimas três décadas. * O reconhecimento de um consenso acadêmico apologético sobre a unidade do pensamento bachelardiano, contrastando com autores que questionam essa mesma unidade. * A investigação da unidade enigmática da obra bachelardiana * A referência a D. Lecourt, que identifica a dualidade de trajetos como "a própria enigma da obra de Bachelard". * A proposta de abordar este enigma através de uma nova perspectiva, focando o papel da alquimia e a promoção dos trabalhos do psicanalista R. Desoille. * O questionamento do papel da alquimia na obra de Bachelard * A interrogação sobre a capacidade da alquimia, ridicularizada n'"A Formação do Espírito Científico", para resolver o enigma da unidade da obra. * A formulação da questão sobre se a poetização da iniciação alquímica representa a domesticação da arte hermética, condicionada pelo uso de conceitos psicanalíticos e jungianos. * A compreensão bachelardiana da alquimia e a sua recepção crítica * A constatação da falta de atenção da crítica à interpretação bachelardiana da alquimia, com a menção a S. Hutin, J.G. Clark, P. Lory e F. Greiner. * A questão central sobre o juízo exato de Bachelard sobre a alquimia e a sua fidelidade à ciência tradicional. * O objetivo de "A Formação do Espírito Científico" e a caracterização dos obstáculos epistemológicos * A exposição do objetivo do livro: demonstrar como a busca do conhecimento objetivo é comprometida por atitudes mentais de "sobredeterminação" e "valorização" do real. * A definição dessas atitudes como "obstáculos epistemológicos" oriundos de um pensamento pré-científico e do inconsciente. * A oposição bachelardiana entre química e alquimia e a sua dupla perspectiva * A oposição inicial entre química e alquimia como ciência verdadeira e falsa, respectivamente. * O reconhecimento por Bachelard de um aspecto "psicológico" ou "iniciação moral" na alquimia, vendo-a simultaneamente como uma ciência infantil e uma "cultura íntima" sonhadora. * A caracterização negativa da alquimia como pseudociência e a sua psicologização * A descrição da alquimia como "pedante", um tecido de "absurdidades coerentes", um "vício secreto" e uma vaga esperança de "rejuvenescimento". * A atribuição da chave desta esperança à "psicologia dos cinquenta anos". * O reducionismo cientista de Bachelard e os problemas da sua dupla perspectiva * A identificação do "reducionismo cientista" que aborda a alquimia numa dupla perspectiva, epistemológica e moral. * O problema de conciliar a natureza moral da alquimia com a sua colocação nas origens da química moderna, e o pressuposto de que o alquimista realizava manipulações materiais. * A contestação do pressuposto materialista e a necessidade de reexaminar a identidade da alquimia * A constatação de que a tese de Bachelard perde pertinência se a alquimia for um método puramente espiritual e iniciático. * A defesa da necessidade de um novo exame da identidade da alquimia, considerando informações negligenciadas. * As pesquisas sobre a alquimia newtoniana e a sua relevância para a questão * A referência aos trabalhos de historiadores anglo-saxónicos, nomeadamente B. Teeter Dobbs, sobre a alquimia de Newton. * A menção às provas arquivísticas das preocupações alquímicas de Newton e o seu impacto na imagem do cientista positivo. * As convicções de Newton e a contradição com a noção de progresso * A exposição da crença de Newton na "prisca sapientia", uma sabedoria primordial detida pelos Antigos e representada pelos alquimistas. * A contradição entre esta crença e a noção bachelardiana de "progresso do pensamento humano". * A interpretação de B. T. Dobbs e a metamorfose da alquimia no século XVII * O reconhecimento dos preconceitos jungianos de B. T. Dobbs, mas a valorização do seu retrato da alquimia do século XVII. * A descrição da "metamorfose" da alquimia, influenciada pelo racionalismo e pela filosofia mecanicista, que levou à sua racionalização e formulação química. * A secularização da alquimia e o papel de Hartlib e Boyle * A identificação do grupo de S. Hartlib como responsável por uma "tripla secularização" da alquimia: venal, comercial e democrática. * A referência a R. Boyle como continuador deste projeto, refutando a teoria dos três Princípios e promovendo uma visão mecanicista. * A materialização dos Princípios herméticos e a sua contradição com as origens * A descrição das tentativas de materialização dos Princípios, como a investigação experimental da "água mercurial" por Newton e outros. * A constatação de que esta conceitualização de um "mercúrio filosófico" concreto é uma inovação tardia, contradizendo a noção de coexistência de "dois aspectos" na alquimia antiga. * A importância do episódio newtoniano e a confusão sobre a função da alquimia * A avaliação do episódio da alquimia newtoniana como decisivo para a confusão sobre a função real da alquimia tradicional. * A referência à dificuldade expressa por Bachelard e F. Bonardel em determinar a natureza exata da alquimia. * As duas tendências de interpretação da alquimia e a posição de F. Bonardel * A apresentação das duas tendências: vê-la como uma química pré-científica (Bachelard) ou como uma disciplina séria com operações materiais. * A menção ao apoio de F. Bonardel à neo-alquimia naturalista de Fulcanelli e E. Canseliet, em oposição à visão espiritual de René Guénon. * A concepção espiritual da alquimia segundo R. Guénon * A exposição da tese de R. Guénon sobre a correspondência entre os ternários Espírito, Alma, Corpo e Enxofre, Mercúrio, Sal, insistindo que são Princípios e não corpos químicos. * A definição da disciplina hermética como de "natureza puramente interior" e uma técnica de realização espiritual, usando um corpus simbólico complexo. * A elucidação do simbolismo alquímico por R. Guénon * A referência às indicações de R. Guénon sobre o "solve et coagula" e o "swastika clavigère" para medir a riqueza deste simbolismo. * A elucidação da fórmula "espiritualizar o corpo e corporificar o espírito" através de uma palavra dos santos muçulmanos, relacionando-a com a transmutação do ser. * A conclusão sobre o caráter espiritual da alquimia e o erro de Bachelard * A defesa de que o caráter exclusivamente espiritual da alquimia não permite pensar que deu origem à química moderna, que seria uma "deformação" ou "desvio". * A conclusão de que a polêmica anti-alquímica de Bachelard repousa sobre um duplo equívoco: vê-la como química pré-científica e como uma cultura onírica subjetiva. * A influência da psicologia jungiana na "Psicanálise do Fogo" * A afirmação das afinidades de Bachelard com a psicanálise jungiana neste livro, conforme notado por F. Pire. * A intenção de Bachelard de integrar os trabalhos de Jung para ultrapassar as explicações científicas modernas do mito. * A interpretação sexualizada da alquimia por Bachelard * A descrição da alquimia por Bachelard como atravessada por uma "imensa devaneio sexual, por um devaneio de riqueza e de rejuvenescimento, por um devaneio de poder". * A ironia de Bachelard sobre a forma "sexual" dos fornos e das cornudas do alquimista, e a sua afirmação de que a alquimia é uma "ciência de homem, de celibatários, de homens sem mulheres". * A crítica à interpretação sexual e a distinção dos símbolos alquímicos * A refutação da interpretação sexual de Bachelard e Jung, mencionando o exemplo de N. Flamel e sua esposa Perrenelle e o objetivo andrógino da Obra. * A distinção, seguindo Pernety, entre o forno da química vulgar e o "forno secreto dos filósofos", que não é um fogo sensível, mas um princípio ígneo de uma fisiologia sutil. * A relação de Bachelard com as obras de Jung sobre alquimia * A hipótese de Bachelard ter conhecido as primeiras conferências de Jung em Eranos, embora não as cite em "A Psicanálise do Fogo". * A referência à citação posterior de "Psicologia e Alquimia" por Bachelard em "A Terra e os Devaneios da Vontade". * A abordagem jungiana da alquimia e as suas dificuldades * A exposição da visão de Jung sobre a alquimia como simultaneamente parte do desenvolvimento da química e do "sonho", envolvendo "projeções psicológicas" do inconsciente. * A constatação das dificuldades de Jung em conciliar as interpretações material e psicológica, ambas consideradas falsas, e a sua localização de uma fase "decadente" da alquimia. * A crítica de B. Obrist às leituras jungiana e bachelardiana * A referência ao trabalho de B. Obrist, que põe radicalmente em causa a leitura jungiana e bachelardiana da alquimia. * A afirmação de Obrist de que é impossível ligar a complexidade da linguagem alquímica a um foco inconsciente e a constatação da confusão constante entre o símbolo e a substância. * A indissociabilidade das posições de Bachelard e Jung * A defesa de que a posição de Bachelard é indissociável da de Jung até seus últimos escritos, contrariando M.-L. Gouhier. * A referência ao uso de arquétipos do inconsciente por Bachelard em "A Terra e os Devaneios da Vontade" para analisar as imagens da alquimia, transformando-a num "metalismo imaginário". * A unidade do pensamento de Bachelard na desvalorização da alquimia * A conclusão de que a atitude de Bachelard perante os alquimistas permanece globalmente negativa e a unidade do seu pensamento nesse ponto é inquestionável. * A caracterização desta postura como uma tentativa dupla de desvalorização sistemática de uma disciplina iniciática tradicional. * A promoção da psicologia ascensional de R. Desoille por Bachelard * A constatação da promoção, por Bachelard, de uma psicologia ascensional ilustrada pela psicoterapia de R. Desoille. * O elogio da verticalidade como "princípio de ordem" e a descrição do "élan hominisante" alimentado por uma "imaginação dinâmica" ou "amplificador psíquico". * A definição de uma metafísica da imaginação e o método da "devaneio dirigido" * A declaração de Bachelard de querer constituir uma "metafísica da imaginação", tendo R. Desoille como seu experimentador. * A associação desta psicologia ascensional ao método da "devaneio dirigido" de R. Desoille, qualificada por Bachelard de Psicagogia. * A descrição da técnica de "devaneio dirigido" e os seus objetivos * A descrição do processo de "voo imaginário" como meio de aceder a uma "sublimação" ou "transformação" moral, criando um "corpo de luz". * A menção ao interesse por telepatia e clarividência que acompanha esta tensão afetiva por uma "vida nova". * A extensão do interesse de Bachelard pelos "sonhos de descida" * A referência à retomada dos trabalhos de R. Desoille em "A Terra e os Devaneios da Vontade", focando os "sonhos de descida" às profundezas do psiquismo. * A descrição inquietante do "abismo violeta" e do negro como o início da Morte, levantando questões sobre os limites da metáfora e a natureza paródica da técnica. * O crédito concedido a R. Desoille como chave para a enigma bachelardiana * A proposta de que o crédito concedido a R. Desoille permite responder à enigma da unidade da obra de Bachelard. * A síntese do projeto bachelardiano: rejeitar o aspecto qualitativo dos fenômenos pela crítica epistemológica e reconquistar esse universo perdido através da devaneio poética. * A fenomenologia da casa em "A Poética do Espaço" * A exposição da cisão bachelardiana entre pensamento científico e imaginário, onde a imagem é o "bem de uma consciência ingênua". * A prática da "topo-análise" do espaço íntimo apenas no registro afetivo, descrevendo a casa natal como um "corpo de sonhos" e um "corpo de imagens". * A redução do simbolismo arquitetônico a sensações * A constatação de que Bachelard, apesar de notar a verticalidade, a centralidade e a estrutura hierárquica da casa, não busca um sentido profundo por trás dessas imagens. * A redução da associação casa/cosmos, estudada por M. Eliade, a uma banal sensação de intimidade e segurança. * A interpretação restritiva do mobiliário tradicional e o seu simbolismo ignorado * A crítica à interpretação de Bachelard de que baús e armários apenas fascinam pelos seus "segredos" sem conteúdo real. * A exposição do rico simbolismo presente no mobiliário, como a dupla espiral, losangos e triângulos, a rosácea ou a suástica, portador de um conteúdo doutrinal. * A natureza da arte tradicional e as limitações da fenomenologia de Bachelard * A explicação de que a arte tradicional é obra de Mestrias iniciáticas, visando persistir as estruturas sagradas da Criação no domínio corpóreo. * A conclusão de que a fenomenologia de Bachelard é periférica porque proíbe a abordagem simbólica do espaço, focando-se apenas no sentir e no prazer da imagem. * O exemplo da fenomenologia do redondo e a recusa do seu significado * A referência à opinião de Jaspers – "todo o ser parece em si redondo" – e à confirmação de Bachelard – "o ser é redondo". * A crítica à recusa de Bachelard em interrogar o sentido de perfeição associado à forma esférica, considerando-a "essencialmente vazia". * O esvaziamento da imagem e a separação entre saber e imaginação * A constatação de que Bachelard, usando expressões como "imaginação absoluta", confina a imagem a um mundo cortado da intelectualidade. * A crítica à imposição bachelardiana de que as cosmogonias antigas são "audácias de devaneios" e não pensamentos organizados, ignorando a sua complexidade e origem divina. * A menção final a H. Corbin e a persistência da ruptura * A referência à menção de H. Corbin nas últimas páginas de Bachelard, sugerindo uma abertura à "Altura" e ao "sagrado". * A conclusão de que esta "Altura" carece de realidade ontológica, permanecendo num "espaço onírico" exclusivamente psíquico, consumando a ruptura entre saber e imagem.