====== INVERSÃO PSICANALÍTICA: DE FREUD A JUNG ====== //GEAY, Patrick. Hermès trahi: impostures philosphiques et néo-spiritualisme d'après l'oeuvre de René Guénon. Paris: Ed. Dervy, 1996// * A tese de Charles Mopsik sobre a psicanálise freudiana e a Cabala * Menção à tese não discutida por Mopsik que identifica a Cabala como inspiradora do pensamento de Freud, o pai da psicanálise. * "vê na cabala a inspiradora do pensamento de Freud, o pai da psicanálise". * Objetivo do capítulo e a estrutura religiosa das ideologias modernas * Investigação da filiação suposta entre a Cabala e Freud para demonstrar se a psicanálise representa uma versão caricatural das iniciações antigas e dos princípios hermenêuticos tradicionais. * "a psicanálise não representa uma versão caricatural das antigas iniciações de uma parte, e dos princípios hermenêuticos tradicionais de outra parte". * Caracterização paradoxal das ideologias modernas, que mantêm uma estrutura e vocação "religiosas" apesar de seus pressupostos fundamentalmente antirreligiosos. * "elas conservam todas, pelo menos sobre certos pontos, uma estrutura e uma vocação "religiosas", e isso apesar de seus pressupostos fundamentalmente antirreligiosos". * A análise de Mircea Eliade sobre a recuperação do mito da Idade de Ouro * Constatação do fenômeno de estrutura religiosa em ideologias seculares, como o marxismo e o messianismo positivista de Auguste Comte. * Análise de Mircea Eliade do processo de recuperação e transposição das noções escatológicas tradicionais para o interior do materialismo histórico no século XIX. * "sublinhando a existência de uma transposição, palavra por palavra, das noções escatológicas tradicionais ao seio do materialismo histórico". * O conceito de regeneração e a teoria darwiniana como dogmas laicos * O conceito revolucionário de regeneração como uma combinação estranha de um ideal democrático de igualdade com ocultismo ou egiptomania, dessacralizando a ideia tradicional de segundo nascimento. * "o conceito revolucionário de regeneração aparece, ele mesmo, como a combinação estranha de um ideal democrático de igualdade as vezes tingido de ocultismo ou, mais curiosamente, de egiptomania, prolongando porem a dessacralizando a ideia tradicional de segunda nascença". * A teoria darwiniana da evolução, de impacto decisivo sobre Freud, imposta como um dogma laico, apesar de seu caráter especulativo e sem suportes factuais diretos, conforme nota Michael Denton. * "imposta como um verdadeiro dogma laico e isso apesar de seu caráter «altamente especulativo, inteiramente desprovido de suportes factuais diretos…»". * Consequência espiritual maior da hipótese de Darwin: a evacuação da doutrina bíblica das origens e a supressão do status privilegiado da humanidade primordial. * "uma das consequências espirituais maiores da hipótese de Darwin ia ser a de evacuar radicalmente a doutrina bíblica das origens a fim de ali substituir uma «mitologia» oposta, cuja particularidade inédita era a supressão do status privilegiado da humanidade primordial". * A autorrepresentação de Freud e a lógica da inversão * A ideia de Freud de uma filiação intelectual entre Copérnico, Darwin e ele mesmo, interpretável por meio de uma lógica da inversão. * "a ideia de uma filiação intelectual entre Copérnico, Darwin e ele mesmo […] só pode segundo nos compreender-se graças ao que se poderia chamar: uma lógica da inversão". * A psicanálise como polo hermenêutico contemporâneo representando uma espécie de reviravolta do processo iniciático tradicional. * "a psicanálise, enquanto polo hermenêutico contemporâneo, representaria na realidade e mais do que qualquer outra teoria uma espécie de reviravolta do processo iniciático tradicional". * A afirmação de Mircea Eliade sobre a psicanálise como uma forma degradada de iniciação para um mundo dessacralizado. * "«poder-se-ia mesmo considerar a psicanálise como uma forma degradada da iniciação, isto e, uma iniciação acessível a um mundo dessacralizado (…)»". * A assimilação do pensamento freudiano ao "mundo ao contrário" * Assimilação do pensamento freudiano a uma manifestação cultural do "mundo ao contrário", expressão popular do tratamento apocalíptico da crise social. * A estrutura iniciática da psicanálise e o estudo de David Bakan * Destaque de Mircea Eliade para uma iniciação "degradada", e não uma religião. * Menção ao estudo de David Bakan, "Freud e a tradição mística judaica", que investiga o caráter e a origem cabalísticos da psicanálise. * "a tese principal era de sustentar o caráter e a origem cabalísticos da psicanálise". * O exame da demonstração de David Bakan * Apesar de considerada pouco convincente, a "demonstração" de Bakan merece exame detalhado. * Consciência de Bakan da dimensão laica das concepções freudianas da religião, mas destaque do apego declarado de Freud à sua judaicidade como "fonte de energia". * "sublinhava antes de mais o apego declarado de Freud a sua judaicidade enquanto «fonte de energia»". * A pertença de Freud a organizações judaicas, como o B'nai Brith de Viena, uma instituição pseudo-maçônica com estrutura artificialmente iniciática, onde Freud apresentou sua teoria dos sonhos. * "Esta instituição pseudo-maconica onde Freud apresentou pela primeira vez sua teoria dos sonhos era também a prova do papel jogado, na vida deste ultimo, por uma associação tendo-se dotado artificialmente de uma estrutura mais ou menos «iniciática»". * Os elos presumidos entre Freud e a Cabala segundo Bakan * Semelhança observada por Bakan entre as técnicas místicas de Abraham Aboulafia e o método psicanalítico da livre associação. * "uma semelhança entre as técnicas místicas de Abraham Aboulafia e «o método psicanalítico da livre associação»". * Afirmação de Bakan de que a lógica do universo real de Deus em Aboulafia se tornaria, para Freud, a lógica do inconsciente. * "«a lógica do universo real de Deus em Aboulafia […] tornara-se para Freud a lógica do inconsciente»". * Observação de caracteres comuns entre o Zohar e os escritos de Freud ligados aos métodos de interpretação da linguagem, à importância da sexualidade, à significação dos sonhos e ao papel do jogo de palavras. * As tendências heréticas e a figura de Moisés na interpretação de Bakan * Exemplo de Sabbatai Zevi para evocar as "fortes tendências de Freud à heresia", salientando a parentesco entre o messianismo judaico heterodoxo de Jacob Frank ou de Israel Baal Shem Tov (Hassidismo) e o projeto psicanalítico de desmantelamento da Lei mosaica. * "através do exemplo de Sabbatai Zevi as «fortes tendencias de Freud a heresia»". * O interesse por Moisés, segundo Bakan, como chave do pensamento de Freud, visto como um "novo legislador" que deveria revogar a antiga Lei. * "Em quanto «novo legislador», Freud devia de fato revogar a antiga Lei". * O Moisés "egípcio" de Freud teria imposto regras de vida demasiado coercitivas, tornadas caducas pelos progressos e pela nova liberdade do mundo ocidental. * "O Moisés "egípcio" do pai da psicanálise tinha imposto ao povo judeu regras de vida por demais coercitivas que deviam ser « tornadas caducas pelos progressos e a liberdade nova do mundo ocidental »". * A assimilação de Freud à figura de José, o intérprete de sonhos, conforme nota do próprio Freud sobre a presença desse nome em seus sonhos. * "«E de se notar (escreve Freud) que o nome de José joga um grande papel em meus sonhos… Meu próprio ego acha muito fácil de se dissimular atrás de pessoas portando esse nome, pois Jose era o nome do homem famoso na Bíblia por interpretar os sonhos»". * As dificuldades e contradições da tese de Bakan * Dificuldades da tese de Bakan: a mistura da consciência do caráter antirreligioso do pensamento freudiano com a ideia de uma parentesco ou continuidade com a mística judaica. * "encontra-se misturada a consciência do caráter antirreligioso do pensamento freudiano a ideia de uma parentesco, senão mesmo de uma continuidade, entre este e a mística judaica". * A resposta de Bakan é considerada fundamentalmente contraditória, pois a função última da análise e a da Cabala judaica não têm estritamente nenhuma relação. * "a função ultima da analise e aquela da Cabala judaica não tem estritamente nenhuma relação". * A necessidade de explicar as semelhanças formais através da hipótese de a teoria de Freud ser uma forma de iniciação invertida. * As analogias formais e a natureza para-iniciática da psicanálise * As analogias formais apontadas por Bakan servem para justificar a ideia preconcebida de um fundamento cabalístico da psicanálise, mas o aparato teórico de uma é desconhecido da outra. * "a totalidade do aparato teórico desta ultima parece desconhecida da Kabbala, e vice-versa". * A identidade entre a êxtase intelectual de Aboulafia (iluminação divina) e "o conhecimento psicanalítico" é forçada, dado o ateísmo de Freud. * "Sustentar por exemplo a identidade da êxtase intelectual ao sentido em que a entende Aboulafia (que e uma iluminação divina) com «o conhecimento psicanalítico» aparece pelo menos forçado, considerando o neto ateísmo de Freud". * A consideração de uma dimensão para-iniciática da psicanálise como sua verdadeira natureza. * Jean-Jacques Wunenburger descreve a "ciência freudiana" não como a vanguarda de um novo saber, mas como a mais recente reminiscência de uma sabedoria perdida. * "a «ciência freudiana» não seria mais, após exame, «a vanguarda de um novo saber sobre o homem, mas a mais recente reminiscência de uma sabedoria perdida»". * A nostalgia de uma gnose que incitaria Bakan a retroprojetar as origens da nova psicologia em um passado místico nobre. * A laicização operada por Freud e a captação de objetos da hermenêutica judaica * Nada no Bahir ou no Zohar deixa prever Freud; sua laicização da Cabala é uma ruptura mascarada. * "Nada no Bahir nem o Zohar deixa prever Freud. A laicização que ele operaria da Kabbala, segundo Bakan, e no fundo menos um prolongamento que uma ruptura, a penas mascarada". * A formação do psicanalista, a interpretação da linguagem, a busca do sentido oculto dos sonhos fazem de Freud uma espécie de novo "messias" com uma mitologia nova. * "fez de Freud uma espécie de novo «messias» encarregado de espalhar através do mundo uma mitologia nova capaz de elucidar, enfim, os mistérios da vida psíquica". * Os objetos de estudo da hermenêutica judaica tradicional são captados por uma ideologia fundamentalmente antimetafísica. * A secularização das doenças da alma e a ignorância das causas tradicionais * A proximidade observada por Claude Lévi-Strauss entre a cura de um psicanalista e a de um xamã Cuna. * A rejeição por Freud da ideia xamânica, essencial, de que o doente mental é um místico falhado ou um "místico macaqueante", conforme Mircea Eliade. * "«o doente mental revela-se um místico falhado ou melhor ainda um místico macaqueante »". * As patologias histéricas estudadas por Charcot relevam desse caso de figura. * Da etiologia psicanalítica resulta uma secularização das doenças da alma. * "Da etiologia psicanalítica resulta por consequência uma secularização das doenças da alma". * Em "Uma neurose demoníaca no século XVII", Freud admite a equivalência entre neurose e possessão, mas recusa a existência individual dos demônios e a projeção medieval. * "Freud admite bem a equivalência entre essa e a "possessão", mas ele recusa a existência individual dos demônios e «a projeção que a idade media tinha feito de suas criações psíquicas no mundo exterior»". * A psicanálise implica uma laicização e uma evacuação do mal sob sua forma diabólica, elaborada na ignorância da antropologia tradicional. * O preconceito positivista de Freud e o desencantamento do mundo * A afirmação de Freud sobre a interpretação dos sonhos na era "pré-científica" é uma contraverdade com um preconceito positivista. * "«a uma época recente que podemos nomear pre-cientifica, a humanidade nao estava em pena de interpretar seus sonhos»". * Freud não faz conhecimento da onirologia talmúdica ou das doutrinas cabalísticas sobre a sexualidade. * "Freud não faz conhecimento de uma conhecimento da onirologia talmudica ou das doutrinas kabbalisticas sobre a sexualidade que porem existem belamente e bem". * O empreendimento freudiano visa um isolamento ontológico do homem, cortando-o de um Real transcendente e de um real hostil, participando do processo de desencantamento do mundo definido por Max Weber. * "seu empreendimento visa aparentemente um isolamento ontológico do homem, que o corta de um Real transcendente como de um real hostil e maléfico (demonologia) e participa nesse sentido ao processo de desencantamento do mundo definido por M. Weber". * O pan-psiquismo antropocêntrico e a teoria do inconsciente * O pan-psiquismo paradoxalmente antropocêntrico de Freud culmina na teoria do inconsciente, cujas contradições lógicas foram demonstradas por Jean-Paul Sartre. * "O pan-psiquismo, paradoxalmente antropocêntrico, de Freud culmina a evidencia na teoria do inconsciente cujas contradições lógicas foram brilhantemente demonstradas por Sartre". * Equivalência provável entre o "animal temível" de que falava Alain e a antiga figura hebraica de Satã, definida por Michel Vâlsan como "potência de dissociação e de dissolução". * "uma equivalência estrita entre esse «animal temível» de que falava Alain e a antiga figura hebraica de Satã, definida por M. Vâlsan como «potencia de dissociação e de dissolução» parece das mais prováveis". * A interpretação junguiana do diabo e a produção de mitos pelo inconsciente * Para Carl Gustav Jung, evocando a vida de Santo Antão, o diabo é a voz do próprio inconsciente do anacoreta. * "«o diabo, e naturalmente a voz do próprio inconsciente do anacoreta que se ergue contra a repressão violenta da natureza individual»". * A teoria freudiana e junguiana alimenta-se das concepções teológicas tradicionais, mas deformando seus objetivos. * "essa teoria alimenta-se das concepções teológicas tradicionais e de suas dependências, porem deformando os objetivos". * O problema hermenêutico maior está ligado à "função" que o inconsciente teria de produzir os mitos, ritos e símbolos das religiões. * A psicanálise como via de acesso ao sentido profundo da religião * A ideia de Freud, na "Contribuição à história do movimento psicanalítico", de estabelecer um elo entre manifestações neuróticas e criações da imaginação nos domínios religioso e mitológico. * "«estabelecer um elo entre as manifestações neuróticas de uma parte, as criações da imaginação nos domínios religioso e mitológico de outra parte»". * A influência de Jung e o conceito de inconsciente coletivo * A influência considerável de Jung e de sua teoria do inconsciente coletivo entre antropólogos e historiadores das religiões, como atestam escritos de Michel Meslin. * O interesse da psicologia das profundezas era interpretar o fenômeno religioso fora de toda referência teológica e metafísica. * "O interesse da psicologia das profundezas era de poder de fato interpretar o fenômeno religioso fora de toda referencia teológica e metafísica e isso apesar do interesse — de clinico — portado a essas por Jung". * A constatação, desde o século XIX, de uma pluralidade de tradições com grande proximidade de estrutura, explicada por Jung com o conceito de inconsciente coletivo como matriz trans-histórica e transindividual dos mitos e símbolos. * "E e precisamente essa proximidade que Jung ia procurar explicar graças a esse conceito de inconsciente coletivo, definido como uma matriz trans-historica e trans-individual dos mitos e dos símbolos". * A observação da recorrência do tópico do puer-senex em literaturas diversas, considerada por Ernst Robert Curtius como uma "projeção" do inconsciente coletivo. * O uso do termo arquétipo e a recuperação de estruturas antigas * O emprego do termo platônico "arquétipo" para designar uma "imagem primordial", simples "quantidade psíquica" desprovida de caráter transcendente, segundo Jung. * "A referencia a esses «resíduos arcaicos» enquanto «tendencias instintivas», inatas no homem, ia tornar-se um método de explicação cômodo, facilmente utilizável, senão mesmo um verdadeiro reflexo interpretativo". * Observa-se uma tendência à recuperação de estruturas antigas, mas esvaziadas ou desviadas de seu sentido, com uma "precipitação" sem precedentes do Mundo Inteligível. * "On observa portanto, de novo, essa tendencia a recuperação das estruturas antigas, porem esvaziadas ou desviadas de seu sentido, isto e no caso presente a uma "precipitação" sem precedentes do Mundo Inteligível, doravante transformado em uma entidade obscura e mórbida". * Exemplos de recuperações: o Si-mesmo e o Trickster * O caso do Si-mesmo, considerado como fim do processo de individuação, termo retomado do vocabulário vedantino aplicado a Atma, "o Espírito Universal". * "citamos em particular o caso do Si-mesmo, visto como fim do processo de individuação, isto e: integração da personalidade do ego; esse termo sendo retomado do vocabulário vedantino normalmente aplicado a Atma, «o Espírito Universal»". * O sentido positivo dado por Jung ao Trickster (trapaceiro), considerado de fato como uma figura diabólica. * A dificuldade de harmonização entre Jung e a metafísica * Por esse motivo determinante, toda tentativa de harmonização entre as teses de Jung e a abordagem metafísica do real parecerá difícil, senão perfeitamente ilógica. * A rejeição da equivocação por Henry Corbin e sua refutação * A grave e notável equivocação foi rejeitada de maneira inesperada por Henry Corbin, que questionou por que se grita ao blasfêmia quando se mostram fatores psíquicos correspondentes a figuras divinas. * "«por que e preciso portanto, desde que se mostra que há fatores psíquicos que correspondem as figuras divinas, que alguns gritam a blasfêmia como se tudo estivesse perdido e essas figuras desvalorizadas»?". * A resposta: a "blasfêmia" reside no fato de que, para Jung, não existem "figuras divinas"; elas são associadas a um "mundo subterrâneo" e despojadas de todo status ontológico transcendente. * "a «blasfêmia» reside no fato de que, para Jung, não há ou melhor não existem «figuras divinas». Nesse último, essas encontram-se definitivamente associadas a um «mundo subterrâneo» e desapossadas de todo status ontológico transcendente". * O objetivo de Jung e a via da finitude radical * Jung afirma que os arquétipos são um puro "fenômeno psíquico" e não uma constatação metafísica. * "«quando me acontece de falar de um arcanjo, não pretendo formular uma constatação metafísica», trata-se simplesmente de um puro «fenômeno psíquico»". * Jung já havia afirmado estar na época da morte e do desaparecimento de Deus. * "«Sei — e exprimo aí uma certeza que me vem de inumeráveis experiencias individuais — que atualmente estamos na época da morte e do desaparecimento de Deus»". * Seu objetivo era fazer da psique, especialmente em sua parte inconsciente, a fonte única do corpus simbólico e místico tradicional, inserindo-se na "via da finitude radical" definida por Christoph Schönborn. * "os prolongamentos junguianos da psicanálise freudiana inscrevem-se resolutamente naquilo que Ch. Schonborn chama com justiça a via da finitude radical, isto e do encarceramento do homem no interior de seus próprios limites mentais". * Equívocos contemporâneos sobre Jung * Falta de clarividência de alguns contemporâneos ao sustentar, por exemplo: * Equivalência entre antigos "ritos de iniciação" e "o processo de individuação". * Que a obra alquímica de Jung interessa a ocidentais que desejam se ancorar em uma tradição do Ocidente. * A existência de uma semelhança entre o mundo dos arquétipos de Jung e o mundo das Ideias platônicas. * Que a nova psicologia das profundezas permite entender ideias avançadas como as do Bardo-Thodol. * "Foi preciso toda a falta de clarividência de alguns de nossos contemporâneos para sustentar por exemplo a equivalencia dos antigos «ritos de iniciacao» com «o processo de individuacao»; a ideia que « a obra alquimica de Jung interessa a seu turno a Ocidentais que desejam ancorar-se em uma tradicao de Ocidente…»; a existencia de uma semelhanca entre o mundo dos arquetipos de Jung e o mundo das Ideias platonicas; o fato que «hoje apenas comecamos a compreender essas ideias muito avancadas (aquelas do Bardo-Thodol) gracas a nova psicologia das profundezas que, pela primeira vez, ousou ultrapassar as fronteiras de nossa consciencia despertada para se aventurar as camadas profundas da psique humana», etc.". * A cautela de Jean Daniélou e as consequências em Eugen Drewermann * O teólogo católico Jean Daniélou cautionou os trabalhos de Jung relativos ao simbolismo. * Os escritos de Eugen Drewermann permitem medir a amplitude das consequências: as Escrituras, consideradas reveladas, são colocadas sob a dependência de infraestruturas autônomas junguianas. * "De tal sorte que as Escrituras, consideradas normalmente pelos exegetas como sendo reveladas, encontrariam doravante colocadas sob a dependencia de infraestruturas autonomas e de alguma sorte rigorosamente separadas do Verbo". * Drewermann associa o exercício do sacerdócio à psicoterapia analítica, contribuindo para dar a esse paradoxo uma dimensão inédita. * "Em querendo corrigir a teologia por meio da psicanalise, em associando o exercicio do sacerdocio a psicoterapia analitica, E. Drewermann contribui para dar a esse paradoxo uma dimensao que ele sem duvida nunca ainda tinha atingido". * A visão junguiana das visões proféticas como patologia * Relato de Jung sobre um teólogo que considerava as visões de Ezequiel como sintomas mórbidos e as vozes ouvidas por Moisés e os profetas como alucinações. * "«que as visoes de Ezequiel nao eram senao sintomas morbidos, e que quando Moises e os outros profetas ouviam «vozes» lhes falar, eles sofriam de alucinacoes»?". * O nominalismo fundamental de Jung e a desdivinização dos mitos * Presença de uma forma de autodestruição do dogma, sutil e grosseira ao mesmo tempo. * O nominalismo fundamental de Jung faz do mito, da visão inspirada, do símbolo e da doutrina produções de uma atividade imaginativa puramente humana e rigorosamente inconsciente. * "faz bem do mito, da visao inspirada, do simbolo, da doutrina mesma, producoes de uma atividade imaginativa puramente humana e em ultimo recurso rigorosamente inconsciente". * Marie-Louise von Franz afirma que o que se chama inconsciente coletivo era antes projetado no espaço cósmico exterior à alma. * "«o que chamamos hoje o inconsciente coletivo nao tinha ainda nunca sido concebido como psicologico ao sentido moderno da palavra, mas tinha ate la sempre sido projetado no espaco cosmico exterior a alma» etc.". * Trata-se de desdivinizar a origem dos mitos para fazer deles apenas "a expressão imediata da atividade vital". * "trata-se mais exatamente de des-divinizar a origem dos mitos para nao fazer senao «a expressao imediata da atividade vital»". * Projetos de conciliação entre concepções tradicionais e hipóteses junguianas * Existência atual de um projeto de conciliação objetivamente incoerente entre as concepções tradicionais do mundo e as hipóteses junguianas sobre um fundo psíquico comum. * "e extremamente chocante de constatar na hora atual a existencia de um projeto de conciliacao — objetivamente incoerente — entre as concepcoes tradicionais do mundo e as hipoteses junguianas sobre as razoes da existencia de um fundo psiquico comum a toda a humanidade". * A realidade do fundo psíquico comum encontrará uma explicação diferente da de Jung, cuja obra é um dos prolongamentos lógicos últimos do anti-Realismo medieval. * "A realidade incontestavel desse ultimo encontrara na sequencia de nossa pesquisa uma explicacao toda diferente daquela aportada por Jung, cuja obra nao e, em definitivo, senao um dos prolongamentos logicos ultimos do anti-Realismo medieval". * O caráter subversivo da obra de Jung, do ponto de vista metafísico, deveria incitar o hermeneuta a mais discernimento. * A hipótese da psicanálise como recuperação do domínio iniciático * A hipótese avançada sobre a natureza da psicanálise como fenômeno cultural visando a recuperação do domínio iniciático. * "A hipotese que temos avançado concernente a natureza da psicanalise enquanto fenomeno cultural visando a recuperacao do dominio iniciatico". * A desvalorização do xamanismo pela psiquiatria * Os psicanalistas, através do exemplo do xamanismo, buscaram sistematicamente desvalorizar esse domínio, assimilando a mudança de regime ontológico a uma patologia mental vulgar. * "assimilando o que Eliade chamava: «mudanca de regime ontologico» a uma vulgar patologia mental". * Todo o processo iniciático, as doutrinas cosmológicas e a mitologia xamânica foram a priori reduzidos à obra de neuróticos, concepção sustentada por George Devereux e outros, mas criticada por Mircea Eliade e, mais recentemente, severamente questionada pelo etnólogo Philippe Mitrani. * A negação da eficácia espiritual e as tentativas de fusão * A negação, pelos psicanalistas, de uma eventual eficácia espiritual da iniciação, o que parece normal dados os postulados agnósticos do sistema freudiano. * "A importante e de observar a negacao, nos psicanalistas, de uma eventual eficacia espiritual da iniciacao, o que parece bem normal sendo dados os postulados agnosticos do sistema freudiano". * No entanto, um certo número deles tentou fazer fusionar psicanálise e iniciação, tanto no plano teórico quanto prático, tendência inicialmente marginal mas em expansão significativa. * O caso de J.-P. Schnetzler e a enxertia duvidosa na Franco-Maçonaria * Menção ao caso de J.-P. Schnetzler, que tenta, no interior da Franco-Maçonaria dita regular, uma enxertia bastante "duvidosa" de concepções psicanalíticas sobre o velho fundo iniciático de origem artesanal. * Os trabalhos de Robert Desoille e a simulação ascensional * Exame dos trabalhos de Robert Desoille, que tentou estabelecer uma terapêutica de elevação psíquica ou moral por meio do "sonho acordado dirigido". * "G. Durand tinha qualificado de «terapeutica de elevacao psiquica, se nao moral»". * O método visa provocar no paciente um sonho para modificar seu psiquismo, utilizando imagens como a "ascensão de um pico no topo do qual habita um Sábio" ou a aproximação de um profeta como Moisés ou Salomão. * "essa imagem de «ascensao de um pico ao topo do qual habita um Sage» […] podendo levar, como e o caso mais longe […] para um profeta (Moises ou Salomao)". * Esse método, dependente da arquétipo-logia junguiana, parece levar a uma simulação imaginária e redutora dos modelos ascensionais tradicionais. * "ela parece aboutir a uma simulacao imaginaria e por consequencia redutora dos modelos ascensionais tradicionais". * Há uma semelhança formal com a estrutura dos relatos visionários tradicionais de tipo ascensional, que implicam a entrada em um além do mundo sensível e uma transformação espiritual. * "esses relatos implicam, para aquele que os vive, a entrada em um alem do mundo sensivel, mais real, considerado como Lugar de obtencao privilegiado dos conhecimentos secretos que lhe ensina um espirito celestial, um anjo, ou um profeta". * A técnica de Desoille, porém, é limitada a um uso puramente psicológico, visando apenas o tratamento de estados depressivos. * "a tecnica de R. Desoille, se ela repousa sobre o prestigio qualitativo da verticalidade, nao e menos limitada a um uso puramente psicologico, a finalidade das sessoes de «sonho acordado dirigido» nao visando senao o tratamento dos estados depressivos". * A medicalização profana e a concepção estreita da imaginação * Essa deriva psiquiátrica é comparada à compreensão ocidental do yoga como um vago exercício corporal, reduzindo o método hindú de Libertação (Moksha) a uma ginástica vulgar. * "Ao qual caso, o metodo hindu de Libertacao (Moksha) seria reduzido a uma vulgar ginastica de manutencao «a portada de todos»". * A presença residual de símbolos ascensionais na análise de Desoille poderia corresponder a uma medicalização profana e ilegítima de ritos com função original diferente. * "a presenca residual de simbolos ascensionais na analise tal como a concebe Desoille poderia corresponder a uma medicalizacao profana, em um sentido ilegitimo, de ritos tendo a origem uma toda outra funcao". * A manipulação técnica do sujeito implica uma concepção estreita da imaginação, reduzida a uma atividade produtora de imagens sem status existencial próprio. * "a manipulacao tecnica do sujeito imaginando que ele opera sob-entende ela mesma uma concepcao estreita da imaginacao, reduzida a uma simples atividade produtora de imagens, nao possuindo nenhum status existencial proprio". * O exemplo do sufismo e o uso iniciático da imaginação * Em contraste, o exemplo no sufismo de um discípulo que, em um estado espiritual, viu seu shaykh destruí-lo e reconstruí-lo para uma "regeneração psíquica" instantânea. * "o exemplo, na tradicao do sufismo, daquele discipulo que, segundo M. Chodkiewicz, foi apoderado de um estado espiritual (hal) «durante o qual ele viu seu shaykh destrui-lo a golpes de picareta depois reconstrui-lo »". * Essa obra, perceptível por uma imagem projetada no Coração do discípulo, deve-se à ação de uma força purificadora. * "Essa obra, tornada perceptivel ao meio de uma imagem projetada no Coracao do discipulo por seu mestre, e devida a acao de uma força agente purificadora". * Tal emprego iniciático da faculdade imaginativa é concebível apenas por referência a uma antropologia sagrada e a uma "mística cosmológica" que situa um mundo intermediário sutil entre o domínio corporal e o mundo das realidades espirituais. * "Um tal emprego iniciatico da faculdade imaginativa nao e porem concebivel senao por referencia a uma antropologia sagrada e a uma «mística cosmologica» que situa esse mundo intermediario subtil (psiquico) entre o dominio corporal e o mundo das realidades espirituais". * O mestre atualiza a metamorfose por meio de seu poder espiritual informal. * "E de fato ao meio de sua so potencia espiritual, informal por essencia, que o mestre chega a atualizar uma semelhante metamorfose de seu jovem aluno". * O papel exclusivamente mediador da Imaginação visionária é precisado. * "Nessa perspectiva, convem portanto precisar o papel exclusivamente mediador da Imaginacao visionaria". * A psicanálise, devido à sua rejeição do termo espiritual, faz da imaginação um "espaço" repliado sobre si mesmo e da imagem um elemento dinamizante, desprovido de portada anagógica. * "A psicanalise, sendo dado seu recusamento — fundamental- do terceiro termo (espiritual), faz da imaginacao um «espaco» repliado sobre ele mesmo e da imagem um elemento dinamizante, desprovido de portada anagogica". * Os trabalhos de Pierre Solié e a filiação xamânica da psicanálise * Dificuldade inicial em opor as concepções de Robert Desoille aos trabalhos de Pierre Solié, que afirma explicitamente a tese da filiação xamânica da psicanálise moderna. * "o autor de Psicanalise e imaginal pertence de fato a essa categoria de analista que, segundo M. Cazenave, «retoma explicitamente a tese da filiacao chamanica da psicanalise moderna…»". * Solié afirma que "toda cura psicanalítica profunda… constitui uma iniciação sob medida. Ela tem seu cerimonial, seus ritos (…). Somos mesmo com certeza os xamãs de nosso século". * "«toda cura psicanalitica profunda… constitui uma iniciacao sob medida. Ela tem seu ceremonial, seus ritos (…). Somos mesmo com certeza os chamas de nosso seculo»". * O uso do termo imaginal por Solié e a confusão com os arquétipos * O problema maior reside no uso particular que Solié faz do termo imaginal, introduzido por Henry Corbin. * "A principal dificuldade sobre a qual vamos nos deter consiste no uso muito particular que ele faz do termo de imaginal, do qual Corbin foi o introdutor". * Solié define o imaginal como um "intermundo entre as realidades sensíveis e as realidades inteligíveis platônicas", mas acrescenta que se aproxima do mundo dos arquétipos de Jung. * "«…que se aproxima do mundo dos arquetipos de Jung», depois: «o mundus imaginalis constitui portanto uma estrutura de imagens (Eidolon, Eidos) que e o reflexo antropomorfizado de um mundo outro, ao mesmo tempo no "infra-vermelho", e no "ultra-violeta"…»". * Essa abordagem "surrealista" deixa entender uma quase identificação do mundo imaginal com o mundo dos arquétipos junguianos. * A natureza do mundus imaginalis e a spoliation iniciática * Mesmo usando a oposição corbiniana entre imaginal e imaginário, Solié comete um equívoco sobre a natureza exata do mundus imaginalis: para ele, os Deuses estão "em nós" porque o inconsciente lhes dá existência, e não como realidades divinas transcendentes. * "Para Solie, os Deuses estao bem «em nos», mas porque o inconsciente lhes da a existencia. Em nenhum caso eles nao sao realidades divinas transcendentes, que se tornariam presentes ao mundo ou a nosso espirito". * Assim compreendida, a psicanálise torna-se uma gigantesca operação de espoliação e anexação do corpus iniciático tradicional, tanto no plano doutrinal quanto técnico. * "Assim compreendida, a psicanalise torna-se uma gigantesca operacao de spoliacao e de anexacao do corpus iniciatico tradicional, ao mesmo tempo sobre o plano doutrinal e sobre o plano tecnico". * A psicanálise como caricatura da iniciação * A metamorfose da psicanálise em uma pretensa via iniciática a torna quase equivalente, para um observador desatento, ao que o historiador das religiões entende por essa expressão. * "Sua metamorfose em uma pretendida via iniciatica a tornaria quase, para um observador inatento, equivalente a aquilo que o historiador das religioes entende por essa expressao". * Trata-se de um fenômeno único na história recente das ideias: uma ciência humana apresentar-se com as características de uma iniciação tradicional. * "E trata-se em todos os casos de um fenomeno unico na historia recente das ideias, que uma ciencia humana em venha progressivamente a se apresentar com todas as caracteristicas habituais de uma iniciacao tradicional". * Mesmo que essa "cópia" não tenha a ambição consciente de inverter a iniciação, seu efeito imediato é produzir uma caricatura da iniciação e uma confusão redutível na compreensão das doutrinas místicas que busca imitar. * "Mesmo se esse « decalque » nao tem para ambicao consciente ou reconhecida a inversao dessa ultima, isso nao impede que seu efeito imediato e de produzir aquilo que temos chamado uma caricatura da iniciacao e uma confusao nao menos temivel na compreensao das doutrinas misticas que ele busca imitar".