====== HERMES MÚLTIPLAS CABEÇAS ====== //GORDON, Pierre. Le Mythe d’Hermès. Paris: Arma Artis, 1984.// * Os hermai remetem às concepções segundo as quais Hermes foi tão frequentemente representado duplo — pela mesma razão que Jano na Itália e que Ometecuhtli, o Deus dois, entre os Astecas —, pois, sendo o proto-iniciado, incorporava a energia transcendente que comportava a reunião dos elementos separados no universo fenomenal, uma dualidade sobrenaturalmente fundida em unidade perceptível nas pedras sagradas cujos ritos faziam ostensórios da radiância eterna; daí que Hermes tenha por vezes os dois sexos e que os hermai tenham frequentemente, como Jano, duas cabeças; daí também a importância linguística, extremamente antiga, do dual, cuja fonte sagrada os filólogos não perceberam por nunca terem suspeitado que portava originariamente referência a profundas noções religiosas, cuja desaparição progressiva, praticamente concluída bem antes da época clássica, acusa o declínio. * O dual linguístico tem igualmente sua fonte na soldura transcendente de dois seres do mesmo sexo, como no laço que une os filhos celestes da Mãe Lua (a Lua clara ou nascente e a Lua obscura ou declinante); essas duas gêmeas divinas, masculinizadas posteriormente, tornaram-se as inúmeras díades de que os casais dioscúricos procedem, entidades superiores que tinham como hipóstases humanas as personalidades que dirigiam o organismo social nas pequenas coletividades dualistas, com a Mãe residindo no centro do território e formando com cada díade uma tríade; em muitos casos, porém, o binário era o elemento preponderante e o emprego linguístico do dual impunha-se com toda a sua plenitude, como quando Homero designa as Sereias pelo dual Seirênoün (Od. XII, 56). * A forma especial para designar a pluralidade-dualidade jamais teria surgido linguisticamente se o espírito não tivesse tido em vista a fusão sobrenatural entre dois seres humanos agregados em um só, fusão que se encontrava no casamento sagrado ou hierogâmico, que fazia do esposo e da esposa um deus e uma deusa. * Quando os hermai têm quatro cabeças, traduzem, como o Jano quadrifrons, o irradiamento do sagrado em direção aos quatro pontos cardeais ou às quatro regiões do espaço, fazendo remontar às estelas tetragonais e ao símbolo cruciforme de importância assinalada ao fim do neolítico; o Hermes tricéfalo, um pouco mais raro, remete, por sua origem, à tríade lunar, assim como Hécate tricéfala, mostrando como as concepções iniciáticas do neolítico se cristalizaram em diversas regiões gregas em torno de Hermes, por ser este, desde suas origens, um dos grandes protótipos antigos do homem iniciado; é o Hermes tricéfalo que, vivificado por Hermes-Thot, se tornará, na época greco-romana, Hermes Trismegisto.