====== PROBLEMA DE HERMES ====== //GORDON, Pierre. Le Mythe d’Hermès. Paris: Arma Artis, 1984.// * O mito de Hermes, como os demais velhos mitos de significação profunda, apresenta-se de início como um tecido de infantilidades, incoerências e absurdos, com o deus nascendo numa gruta do monte Cílene, no noroeste da Arcádia, filho da ninfa Maia visitada noturnamante por Zeus, e saindo do berço para maraudar os rebanhos de Apolo. * Diante de uma caverna, encontra uma tartaruga, mata-a e, usando a carapaça, pele de boi, varetas de junco e intestinos de carneiro, inventa a lira. * Conduz as cinquenta vacas de Apolo de ré, com galhos frondosos amarrados aos pés para apagar os rastros, e as encerra numa gruta à beira do Alfeu. * Mata duas vacas, não para comer, mas por prazer sacrificial, e inventa o fogo girando uma haste de louro num pedaço de madeira mais mole. * Ao amanhecer, volta ao berço no monte Cílene; Apolo, por seus dons de vidência, descobre o culpado, confirmado por um velho que vira passar a criança e as vacas. * Hermes nega com descaramento e habilidade; Zeus, sem se deixar enganar, diverte-se e o condena à restituição. * Reconciliado com Apolo, Hermes dá-lhe a lira em troca da copropriedade das vacas; Apolo oferece um chicote, uma varinha e revela onde se encontram as Trias, veneráveis feiticeiras detentoras da arte divinatória, que se serviam de pequenas pedras sagradas chamadas thriai, lançadas à maneira de sortes. * Os dados do hino homérico dificilmente transcrevem com exatidão um antigo cenário sagrado que encena os atos do deus recém-nascido, pois atribuir tais façanhas a um recém-nascido é despropositado, e igualmente inexplicável seria que um texto composto em louvor de uma divindade e recitado em cerimônias litúrgicas antes de passar ao domínio dos aedos profanos registrasse traços tão maravilhosos, sendo ainda menos compreensível que um drama ritual anterior se compusesse de elementos tão bizarros. * Outros roubos eram ainda atribuídos a Hermes criança: segundo Luciano, roubara o tridente de Posêidon, a espada de Ares, o cinto de Afrodite e as flechas de Apolo; sua relação com as vacas manifesta-se de modo fulgurante num novo feito, o corte da cabeça do gigante Argos, encarregado por Hera de vigiar a novilha Io, amante de Zeus. * Sob a forma de bode, Hermes assaltou Penélope, evento situado oitocentos anos antes de Heródoto (Hist. II, 145), ou seja, na época micênica, ao fim da Idade do Bronze; velava de perto pelos rebanhos e era frequentemente representado com uma ovelha, um bezerro ou uma cabra nos ombros ou nos braços; confundia-se com as pedras, os hermai; as grandes solenidades gregas, as Hermaia, celebravam-no como deus dos ginásios, sem que se tenha jamais explicado por que essa festa das pedras era uma festa dos jovens nem por que incluía uma corrida de archotes; em Cydonia de Creta, as Hermaia assemelhavam-se às Saturnais romanas, com os senhores oferecendo um festim a seus escravos e camponeses e sendo por eles espancados; em diversos lugares era figurado com duplo rosto, como o Jano latino; em muitos locais era reverenciado sob a forma de falo, como deus da fecundidade animal e da fertilidade, análogo a Pan, tido como seu filho ou irmão. * Hermes cuida das crianças, conduz os homens aos infernos, é a divindade dos caminhos, protetor dos viajantes e guardião das portas, além de exercer as não menos importantes funções de mensageiro de Zeus. * A questão de como sintetizar esses empregos e figurações disparates e explicar como essa entidade tão complexa e quase caótica se tornou, com o tempo, Hermes Trismegisto, o três vezes grandíssimo Hermes, mestre dos pensamentos transcendentes, dispensador da luz oculta e revelador dos segredos iniciáticos, levou Justino Mártir a escrever, numa de suas Apologias (I, 22), que Jesus Cristo é o Logos ao qual se aplica a denominação dada a Hermes. * Os exegetas que tentaram resolver o problema mostram-se inúteis: alguns tomam Hermes por uma divindade solar ou pela encarnação da aurora; outros o veem como deus do vento; outros ainda o identificam com o crepúsculo vespertino; ou então ele seria a hipóstase do Obscuro, e seu glorioso epíteto de Argeiphontes (= o assassino de Argos), com analogia ao epíteto assassino de Vrtra atribuído ao Indra védico, seria interpretado como matador da luz; nenhuma dessas perspectivas fornece a chave dos essenciais detalhes míticos mencionados; Hermes sempre foi pedra de tropeço para os evemistas e para a escola naturista da mitologia; as demais escolas nem sequer tentaram penetrar o mistério; contentam-se, em geral, por seguir Cícero (De natura deorum III, 22), com declarar que Hermes tem origens múltiplas. * A multiplicidade das origens de Hermes não se reduz, na realidade, à unidade senão quando se postula como essência primeira desse deus o conjunto dos ritos iniciáticos dos quais ele foi considerado o instaurador, e a demonstração de que Hermes permaneceu, ao longo de toda a sua carreira e sob a diversidade de seus rostos, uma entidade notavelmente coerente permitirá evidenciar os esclarecimentos que o método comparativo, quando empregado com discernimento, projeta sobre a mitologia clássica, estabelecendo o valor documentário, o valor profundo, o valor nao somente religioso mas histórico e sociológico daquilo que se chama ainda às vezes a Fabula, considerada como o reino da invenção pura e da fantasia.