====== MATERIA SIGNATA QUANTITATE ====== //[[guenon:rqst:start|REINO DA QUANTIDADE E SINAL DOS TEMPOS]]// * O conceito escolástico de matéria, derivado do termo hyle utilizado por Aristóteles, deve ser compreendido como substância e não como a matéria dos físicos modernos, constituindo a potência pura e o suporte passivo de toda a manifestação universal. * A hyle, em seu sentido de princípio universal, equivale à Prakriti da doutrina hindu, sendo a potencialidade pura e indiferenciada onde nada está ainda atualizado. * A substância em sentido relativo, ou matéria segunda, desempenha o papel de princípio substancial em ordens de existência delimitadas, em correlação com o eidos ou forma. * A substância universal situa-se abaixo de todos os estados da manifestação, sendo o único princípio propriamente ininteligível por não possuir nada que possa ser conhecido em si mesmo. * A distinção entre matéria primeira e matéria segunda estabelece que, enquanto a primeira é potência pura, a segunda possui determinações relativas que permitem sua atuação como suporte de mundos ou seres específicos. * Na hierarquia da existência manifestada, o que é matéria em um determinado nível pode tornar-se forma em outro, dependendo da relação de subordinação considerada. * A explicação das coisas deve proceder do polo essencial para o substancial, ou de cima para baixo, o que evidencia a carência de valor explicativo da ciência moderna ao tentar o caminho inverso. * A pretensão do cientismo moderno de eliminar o mistério resulta em uma contradição, pois fundamenta suas explicações naquilo que é o mais obscuro e menos inteligível do ponto de vista ontológico. * A matéria dos físicos modernos representa uma contradição insolúvel ao ser definida simultaneamente como inerte e dotada de propriedades, pois a verdadeira inércia só pertence à matéria primeira em sua passividade absoluta. * Se a matéria fosse verdadeiramente inerte, ela não possuiria propriedades e não poderia se manifestar aos sentidos, invalidando a própria definição da ciência experimental. * A confusão moderna atribui à matéria uma realidade própria, o que caracteriza o materialismo como a tentativa de reduzir a qualidade à quantidade. * O esforço de explicar o superior pelo inferior, ou fazer o mais surgir do menos, é uma das aberrações típicas do pensamento profano. * A matéria segunda do mundo sensível é definida por São Tomás de Aquino como matéria marcada pela quantidade, o que estabelece a quantidade como a condição básica e fundamental da existência corpórea. * Diferente da matéria moderna, a matéria segunda não possui qualidades sensíveis intrínsecas, pois toda qualidade procede das formas recebidas pelo princípio substancial. * A quantidade é a raiz do mundo sensível, mas não pode explicar a manifestação, tal como os alicerces de um edifício são indispensáveis mas não constituem a totalidade da construção. * Tudo o que existe no mundo corporal está necessariamente submetido à quantidade, sendo esta o elemento que caracteriza o lado substancial desse domínio. * O número constitui o modo fundamental da quantidade pura e a base substancial do mundo sensível, ao contrário da extensão espacial que já pressupõe um elemento de ordem qualitativa. * A afirmação de São Tomás de Aquino de que o número reside do lado da matéria confirma o caráter básico da quantidade descontínua na constituição substancial. * René Descartes, ao definir a matéria pela extensão, introduziu uma confusão entre os modos da quantidade, afastando-se da concepção tradicional de matéria segunda. * As teorias atomistas, ao buscarem a redução ao quantitativo, recorrem à descontinuidade numérica para tentar resolver as contradições inerentes à noção de extensão material. * A percepção direta de corpos não se confunde com a matéria segunda, pois os corpos são apenas resultados da manifestação que procedem do princípio substancial sem se identificar com ele. * O número e a quantidade pura nunca são percebidos em estado isolado no mundo corpóreo, mas servem de base para que os outros modos da quantidade existam por participação. * O espaço e o tempo não são puramente quantitativos e resistem à redução matemática total por manterem sempre um resíduo qualitativo indispensável ao contato com a realidade. * A transposição tradicional da ideia de medida oferece um significado oposto ao uso profano, que busca apenas a redução progressiva de todas as coisas à quantidade.