====== MEDIDA E MANIFESTAÇÃO ====== //[[guenon:rqst:start|REINO DA QUANTIDADE E SINAL DOS TEMPOS]]// * O emprego do termo matéria é evitado nas exposições tradicionais devido às confusões geradas pela acepção corrente dos físicos modernos, a qual não possui correspondência em doutrinas autênticas e se refere a um modo de percepção extremamente restrito e recente. * A ideia moderna de matéria não é inerente à etimologia do vocábulo, que é cercado por uma obscuridade indicativa da natureza impenetrável do polo substancial. * A associação etimológica entre materia e mater convém à substância enquanto princípio passivo ou feminino, desempenhando Prakriti o papel materno na manifestação em oposição ao papel paterno de Purusha. * Uma segunda derivação possível vincula a palavra ao verbo latino metiri, que significa medir, relacionando a substância à ideia de determinação e limite dentro do mundo manifestado. * O conceito de medida, expresso no termo sânscrito matra, identifica-se etimologicamente com materia, mas refere-se à delimitação das possibilidades de manifestação inerentes ao Espírito ou Atma, e não à substância corporal dos modernos. * Na terminologia hindu, a expressão nama-rupa abarca tudo o que é concebível ou percebido, correspondendo respectivamente ao inteligível (essência) e ao sensível (substância). * A medida é um conceito universal nas doutrinas tradicionais, possuindo um simbolismo profundo que fundamenta diversas formas iniciáticas e a compreensão da ordem cósmica. * O simbolismo da medida permite compreender a transição entre o que é virtual e o que é efetivamente realizado no processo de manifestação. * A medida aplica-se diretamente à quantidade contínua e à extensão espacial, servindo como base para a mensuração física dos corpos, ainda que a natureza destes não se reduza à pura extensão conforme proposto por Descartes. * A materia prima, por sua indistinção absoluta, não pode ser medida nem servir de medida, enquanto a materia secunda permite a mensuração por ser marcada pela quantidade. * A aplicação do número às grandezas contínuas apresenta uma imperfeição necessária, pois a descontinuidade numérica não se ajusta perfeitamente ao caráter fluido da extensão. * A quantidade não é o objeto medido, mas o instrumento pelo qual se mede, funcionando a medida em relação ao número como uma analogia inversa da manifestação em relação ao seu princípio. * A transposição analógica do conceito de medida para além do mundo corpóreo permite representar a manifestação universal por meio de um simbolismo espacial, onde medir equivale a determinar e atribuir uma ordem. * Segundo a perspectiva de Platão e dos neoplatônicos, o não-medido é o indefinido ou o caos, enquanto o medido é o cosmos ou o universo ordenado e finito em seu conteúdo. * O não-mensurável identifica-se com o Infinito, fonte tanto do indefinido quanto do finito, permanecendo inalterado pela definição de suas possibilidades internas. * Toda manifestação pressupõe uma determinação que se identifica com as condições de cada estado de existência, sendo a quantidade apenas a forma que essa determinação assume no mundo humano. * A produção do universo é assimilada a uma iluminação que transforma o caos em cosmos, sendo o polo substancial identificado simbolicamente com as trevas e o potencial, enquanto o polo essencial é a luz atualizadora. * O termo sânscrito srishti designa a manifestação como um processo simultâneo de expressão, concepção e radiação luminosa. * O espaço é definido e medido por meio da cruz de três dimensões, onde seis direções emanam de um centro ou sétimo raio, que representa a porta solar e o ponto de origem inexpressível. * Na tradição hindu, os três passos de Vishnu medem os três mundos, assim como as três matras do monossílabo sagrado Om representam a medida da totalidade da existência, permitindo ao ser tornar-se a medida de todas as coisas. * A ciência da medida identifica-se com a geometria sagrada, que entende a atividade divina como a de um Supremo Arquiteto que ordena o mundo segundo medida, número e peso. * A tradição cabalística utiliza o termo middah como equivalente de medida, assimilando-o aos atributos divinos pelos quais os mundos foram criados a partir de um ponto central. * O preceito de Platão, afirmando que Deus geometriza sempre, indica que o conhecimento esotérico exige a imitação da atividade ordenadora divina. * Na tradição grega, o Deus Geômetra é identificado como o Apolo Hiperbóreo, remetendo ao simbolismo solar e a uma derivação direta da tradição primordial. * Gottfried Wilhelm Leibniz, ao afirmar que o mundo se faz enquanto Deus calcula, ecoa de forma tardia a noção tradicional de que a cogitação divina estabelece o plano geométrico da realidade.