====== AS DETERMINAÇÕES QUALITATIVAS DO TEMPO ====== //[[guenon:rqst:start|REINO DA QUANTIDADE E SINAL DOS TEMPOS]]// * O tempo apresenta-se como uma condição de existência ainda mais distante da quantidade pura do que o espaço, uma vez que, embora ambos pertençam à quantidade contínua, a grandeza temporal não pode ser medida diretamente, exigindo sua redução analógica à extensão espacial por intermédio do movimento. * A concepção de René Descartes, que propõe um tempo constituído por instantes descontínuos e uma criação renovada, é insuficiente para explicar a continuidade necessária da duração. * A determinação das grandezas temporais depende sempre de uma lei que relaciona o tempo ao espaço percorrido, evidenciando que a medida nunca alcança a duração em si mesma. * A natureza qualitativa do tempo é reforçada pelo fato de ele condicionar os fenômenos mentais da manifestação sutil, os quais, por estarem mais próximos da essência, são absolutamente irredutíveis a qualquer tratamento quantitativo. * A tentativa da psicofisiologia moderna de quantificar o mental constitui uma aberração cientificista, pois tais medições recaem apenas sobre concomitantes corporais e não sobre a natureza própria do pensamento. * O tempo realizado é inseparável dos acontecimentos, assim como o espaço realizado é inseparável dos corpos, não existindo um tempo vazio e homogêneo fora do mundo manifestado. * A simetria entre espaço e tempo fundamenta-se mais em seus aspectos qualitativos do que quantitativos, o que explica a ausência de uma ciência temporal estritamente métrica comparável à geometria. * A correspondência entre o simbolismo espacial e o temporal reflete a primazia da qualidade na interpretação tradicional das condições de existência. * A diferenciação qualitativa das épocas impede que durações cronologicamente iguais sejam consideradas equivalentes, visto que o conteúdo dos eventos modifica a percepção e a natureza da própria duração. * A natureza essencial dos eventos está vinculada ao tempo de forma mais estrita do que a dos corpos ao espaço, pois a situação de um evento é única e fixa, enquanto os corpos podem variar de posição através do movimento. * A representação geométrica do tempo como uma linha reta, típica da simplificação abusiva moderna, mascara a realidade do tempo qualificado em favor de uma uniformidade inexistente. * A concepção tradicional dos ciclos oferece a verdadeira representação do tempo, estabelecendo uma correlação entre as fases temporais e as direções espaciais. * No ciclo anual, a correspondência entre as quatro estações e os quatro pontos cardeais exemplifica a aplicação do simbolismo espacial para expressar as determinações qualitativas do tempo. * As fases de um ciclo temporal determinam não apenas a qualidade dos eventos, mas também a velocidade com que estes se desenrolam, revelando uma contração progressiva da duração à medida que o ciclo se aproxima de seu encerramento. * A aceleração dos acontecimentos no mundo atual, sem paralelo em épocas anteriores, decorre da progressão cíclica em direção ao ponto de parada final. * A proporção decrescente das durações dos quatro Yugas que compõem o Manvantara ilustra a variação qualitativa da velocidade temporal em ciclos de ordem cosmo-humana. * A marcha descendente do ciclo assemelha-se à aceleração de um corpo pesado em queda, onde a velocidade aumenta proporcionalmente à proximidade com o limite inferior ou ponto mais baixo da trajetória. * O processo de manifestação, ao afastar-se do polo essencial em direção ao polo substancial, resulta em uma perda gradual de qualidade e em uma predominância da quantidade, caracterizando o período final como o reino da quantidade. * A modificação qualitativa do meio terrestre é uma realidade cosmológica que condiciona o estado da humanidade em cada momento histórico determinado. * A ciência profana, limitada por uma miopia intelectual, é incapaz de conceber condições cíclicas diferentes das atuais, tratando como fabulosos os relatos de mundos cujas condições cosmo-físicas diferiam das presentes. * O conhecimento das leis cíclicas permite a reconstituição de mundos passados e a previsão de traços do mundo futuro, baseando-se na correspondência analógica entre as determinações qualitativas do tempo e não em faculdades divinatórias.