====== A ILUSÃO DAS ESTATÍSTICAS ====== //[[guenon:rqst:start|REINO DA QUANTIDADE E SINAL DOS TEMPOS]]// * O ponto de vista científico moderno caracteriza-se pela pretensão de reduzir toda a realidade à quantidade, desconsiderando como inexistente ou desprovido de valor o que não pode ser cifrado ou expresso em termos numéricos. * A ciência oficial contemporânea estende esse método quantitativo inclusive ao domínio psicológico, ignorando que o resíduo assim obtido é incapaz de explicar a essência dos fenômenos. * A ilusão de extrair conhecimento de avaliações numéricas fundamenta-se na negligência de tudo o que é propriamente essencial, resultando em uma ciência que se debruça apenas sobre a casca exterior das coisas. * A tendência à uniformidade estabelece o pseudo-princípio da repetição de fenômenos idênticos, o que constitui uma impossibilidade ontológica em virtude do princípio dos indiscerníveis de Leibniz. * A afirmação de que as mesmas causas produzem os mesmos efeitos é absurda, pois na manifestação sucessiva nunca ocorrem causas ou efeitos rigorosamente idênticos, mas apenas fatos comparáveis sob certos aspectos. * A crença de que a história se repete ignora que existem apenas correspondências analógicas entre períodos, sem jamais eliminar as diferenças qualitativas intrínsecas ao tempo e ao espaço reais. * A ciência moderna só pode ser dita exata nas matemáticas puras; em todos os outros domínios, ela consiste em um tecido de aproximações grosseiras e suposições irrealizáveis. * A fundamentação da ciência na repetição e na acumulação de fatos revela a ilusão quantitativa de que a multidão de constatações empíricas pode servir de prova irrefutável a uma teoria. * O método empírico moderno é construído ao revés da ciência tradicional: esta partia de princípios universais, enquanto aquela busca certezas em constatações experimentais necessariamente incompletas. * A ciência profana descarta aspectos qualitativos da experiência sensível, substituindo a realidade por convenções arbitrárias que possuem o mínimo de fundamento na natureza das coisas. * Quanto mais as teorias científicas se aproximam da quantidade pura, mais se afastam da realidade que pretendem explicar, refugiando-se em abstrações vazias. * O uso de estatísticas no domínio humano representa o ápice do caráter falacioso da ciência moderna, ao tratar indivíduos e fatos sociais como unidades numéricas intercambiáveis e inteiramente semelhantes. * As estatísticas deformam a realidade ao pressuporem a identidade de fatos que são comparáveis apenas em uma medida mínima e superficial. * A exibição de números e cálculos cria uma ilusão de exatidão pseudo-matemática que permite aos especialistas extrair conclusões diametralmente opostas de uma mesma base de dados. * As ciências ditas exatas, ao pretenderem prever o futuro por meio de estatísticas, tornam-se meramente conjecturais, assemelhando-se a certas formas de astrologia moderna que abandonaram os princípios tradicionais em favor do empirismo. * A necessidade de simplificação excessiva, típica da mentalidade simplista moderna, acompanha e reforça a tendência de reduzir tudo ao quantitativo, visto que a quantidade é o elemento mais simples da manifestação. * A despojação das qualidades de um ser produz um resíduo de máxima simplicidade que, no limite, corresponde às unidades numéricas idênticas da multiplicidade pura. * O desprezo pela complexidade qualitativa é o que permite à ciência moderna aplicar uniformemente o mesmo método a objetos de naturezas absolutamente distintas, como a matéria bruta e o ser humano. * Essa simplificação sistemática é um dos caracteres mais marcantes da degeneração intelectual que conduz ao reino da quantidade.