====== O ÓDIO AO SECRETO ====== //[[guenon:rqst:start|REINO DA QUANTIDADE E SINAL DOS TEMPOS]]// * A mentalidade moderna manifesta-se por uma tendência à “vulgarização”, isto é, pela pretensão de colocar todo conhecimento “ao alcance de todos”, rebaixando-o ao nível das inteligências inferiores e promovendo um nivelamento por baixo em que a qualidade é sacrificada à quantidade. * A difusão indiscriminada de instrução uniforme conduz à homogeneização inferiorizante. * A instrução profana não constitui conhecimento verdadeiro nem contém profundidade real. * Tal instrução torna-se nociva ao apresentar-se como conhecimento autêntico e ao negar tudo o que a ultrapassa. * A uniformização moderna implica hostilidade a toda forma de superioridade. * A tentativa contemporânea de expor doutrinas tradicionais segundo o modelo da instrução profana revela penetração dissolvente do espírito moderno e conduz à deformação dessas doutrinas por simplificação exteriorizante. * A natureza das doutrinas tradicionais difere essencialmente da “ciência” e da “filosofia” modernas. * A decadência religiosa no Ocidente e a perda do esoterismo ilustram as consequências dessa penetração. * A alegação de elevação do “nível médio de cultura” confunde cultura profana com aptidão para o ensino tradicional. * A suposta elevação média corresponde ao desaparecimento da elite intelectual. * A referência ao Kali-Yuga contradiz a ideia de que o sistema do Vêdânta possa ser exposto publicamente. * O “ensino integral” implica dimensão iniciática cada vez menos acessível diante da expansão do espírito profano. * A justificação da divulgação do Vêdânta com base no desenvolvimento social e político ou na analogia com a publicidade das descobertas científicas exprime confusão radical entre ordem metafísica e ordem profana. * O desenvolvimento político não possui relação com a compreensão de doutrina metafísica. * As preocupações políticas no Oriente prejudicam a assimilação das verdades tradicionais. * A “vida social” moderna apresenta-se como obstáculo à espiritualidade. * A ciência profana dirige-se ao grande público e permanece na superfície das coisas. * A assimilação entre descobertas científicas e ensinamentos do Vêdânta ignora o abismo entre espírito tradicional e espírito moderno. * Toda concessão ao espírito moderno opera em detrimento do espírito tradicional. * O espírito moderno implica hostilidade ao segredo e à reserva, mas as verdades transcendentais resistem por natureza à vulgarização e permanecem inacessíveis aos não qualificados. * A compreensão teórica depende da qualificação interior, não da exposição pública. * A realização efetiva requer organização iniciática regular. * O verdadeiro segredo reside no inexprimível e intransmissível presente em toda verdade transcendente. * O segredo exterior possui valor simbólico e disciplinar. * A incompreensão moderna do mistério gera hostilidade. * O igualitarismo nega fundamento natural de diferenças e superioridades. * A pretensão de eliminar todo mistério estende-se até à vida ordinária. * A tendência a tornar tudo público conduz a formas de existência comparáveis a colmeias humanas, nivelando os indivíduos a condição infra-humana. * A aversão moderna ao segredo constitui forma de ódio ao que ultrapassa o nível médio e àquilo que escapa à uniformidade imposta, enquanto permanece oculto o segredo maior da sugestão coletiva que moldou a própria mentalidade moderna. * A tendência à publicidade total representa movimento contínuo ainda não plenamente realizado. * Mesmo opositores aparentes da democracia partilham o mesmo espírito moderno. * A mentalidade atual foi produzida por vasta empresa de sugestão que ela própria nega. * A negação dessa fabricação constitui o meio mais eficaz de manter o segredo de sua origem.