====== MECANISMO E MATERIALISMO ====== //[[guenon:rqst:start|REINO DA QUANTIDADE E SINAL DOS TEMPOS]]// * O primeiro produto do racionalismo, no domínio dito científico, foi o mecanicismo cartesiano, do qual o materialismo surgiu mais tarde por filiação direta, apesar de o termo e a formulação histórica do materialismo só se fixarem propriamente no século XVIII. * As ideias de Descartes permitem derivações lógicas que conduzem a teorias entre si contraditórias, sem impedir a continuidade entre mecanicismo e materialismo. * As concepções atomistas de Demócrito e sobretudo de Epicuro podem ser chamadas mecanicistas, mas não constituem ainda materialismo no sentido moderno. * O materialismo pressupõe a noção moderna de matéria, inexistente na antiguidade. * O materialismo corresponde à metade do dualismo cartesiano em que a concepção mecanicista foi aplicada. * Negar a outra metade do dualismo, ou reduzir toda a realidade a uma só metade, conduz naturalmente ao materialismo. * Leibniz mostra a insuficiência de uma física mecanicista, que só descreve aparências externas e não alcança a essência, exemplificando isso no caso do movimento ao distinguir descrição recíproca de causalidade efetiva. * O mecanicismo possui valor apenas representativo, não explicativo, e isso caracteriza a ciência moderna. * Considerado apenas como mudança de posição, o movimento admite reciprocidade entre dois corpos. * Considerada a razão do movimento, apenas o corpo em que essa razão se encontra é verdadeiramente o que se move, enquanto o outro permanece passivo. * A razão do movimento escapa às considerações mecânicas e quantitativas. * O mecanicismo descreve o movimento, mas é incapaz de exprimir seu aspecto essencial e qualitativo, único capaz de explicação real. * Quanto mais complexo o fenômeno e quanto mais a qualidade predomina sobre a quantidade, mais evidente se torna a impotência de uma ciência assim constituída. * Uma ciência confinada a tais limites não tem valor de conhecimento efetivo nem mesmo no domínio relativo em que se encerra. * Descartes pretende aplicar essa concepção insuficiente a todos os fenômenos corporais ao reduzir os corpos à extensão entendida quantitativamente e ao não distinguir, nesse plano, corpos inorgânicos e seres vivos, culminando na teoria dos animais-máquinas e no impasse do dualismo. * A natureza inteira dos corpos é reduzida à extensão e tratada sob ponto de vista puramente quantitativo. * A ausência de distinção entre inorgânico e vivo reduz o ser ao corpo, conforme a teoria dos animais-máquinas. * Ao tratar do ser humano, a restrição ao corpo do homem torna-se inconsistente, pois os processos corporais seriam os mesmos mesmo sem espírito. * O dualismo separa o humano em duas partes absolutamente heterogêneas que não podem comunicar-se, inviabilizando ação efetiva de uma sobre a outra. * A explicação mecânica aplicada aos animais, inclusive a manifestações de caráter psíquico, favorece a extensão do mesmo esquema ao homem. * A negligência do lado espiritual do dualismo tende a tornar-se negação, sobretudo em mentalidades voltadas ao sensível, e assim o mecanicismo cartesiano prepara inevitavelmente o materialismo. * A redução ao quantitativo já estava teoricamente posta no domínio corpóreo pela própria física cartesiana e, a partir do racionalismo, foi estendida à realidade entendida como apenas individual, convertendo-se em redução do espírito à matéria para permitir a redução integral à quantidade. * O dualismo fornece a forma dessa redução como passagem do espírito para a matéria. * O aspecto essencial é relegado e suprimido, admitindo-se apenas o aspecto substancial das coisas. * Espírito e matéria figuram como imagens diminuídas e deformadas de essência e substância. * Descartes introduz metade do mundo no domínio quantitativo, movido por intenção principalmente física. * O materialismo pretende introduzir o mundo inteiro no domínio quantitativo. * A ciência moderna aplica-se à elaboração progressiva dessa redução, mesmo quando não se declara materialista. * Além do materialismo explícito, existe um materialismo de fato mais amplo, derivado do materialismo doutrinário e análogo, em sua difusão social, à relação entre racionalismo filosófico e racionalismo vulgar, produzindo uniformização prática das condutas e pensamentos. * Muitas pessoas não se declaram materialistas, mas agem como se nada existisse além da existência corporal. * O materialista de fato costuma rejeitar o rótulo, enquanto o racionalista vulgar tende a reivindicá-lo e a chamar-se livre-pensador, embora permaneça preso a preconceitos correntes. * O materialismo doutrinário torna possível e contribui para formar um estado mental geral materialista. * A formação científica moderna reforça essa influência mesmo em sábios que não professam materialismo. * A separação entre religião e atividade científica permite que um cientista dito religioso produza obra indistinguível da de um materialista declarado. * A ação antitradicional utiliza até aqueles que deveriam ser seus adversários, produzindo seres contraditórios e incapazes de perceber suas contradições. * A tendência à uniformidade realiza-se quando todos passam a pensar e agir de modo semelhante, restando diferenças sem efeito real. * Nesse estado, um cristão pratica como se só houvesse realidade corpórea, e um sacerdote que faz ciência pouco difere de um acadêmico materialista. * Pergunta-se se ainda resta grande distância até o ponto mais baixo final dessa descida.