====== OS LIMITES DA HISTÓRIA E DA GEOGRAFIA ====== //[[guenon:rqst:start|REINO DA QUANTIDADE E SINAL DOS TEMPOS]]// * As diferenças qualitativas entre períodos do tempo e fases de um ciclo como o Manvantara implicam mudanças do meio cósmico e do homem que a ciência profana não concebe, pois ela projeta para todo o passado condições semelhantes às do mundo moderno. * A ciência profana restringe-se ao horizonte do mundo moderno onde nasceu. * Psicólogos supõem que o homem sempre pensou como o homem atual. * Historiadores julgam ações antigas e medievais como se fossem contemporâneas, atribuindo os mesmos motivos e intenções. * Essa projeção resulta de concepções simplificadoras e uniformizantes. * A conciliação entre uniformização do passado e teorias progressistas e evolucionistas permanece contradição típica da mentalidade moderna. * As mudanças do meio não se limitam a cataclismos que marcam pontos críticos do ciclo, pois há também modificações contínuas e profundas das condições do meio que transformam seres e coisas para além do que a ciência profana reduz a geologia. * Cataclismos correspondem a rupturas de equilíbrio e alteram a figura do mundo. * A perda de um continente afeta o conjunto do meio terrestre por repercussões amplas. * Modificações graduais acumulam efeitos quase tão consideráveis quanto os cataclismos. * A interpretação exclusivamente geológica é erro por fixar-se no mais exterior. * O que se altera são condições profundas do meio, mesmo sem ênfase em detalhes geológicos. * Modificações artificiais humanas são consequências tornadas possíveis por condições de época. * A ação humana mais profunda é sobretudo psíquica, como mostram efeitos da atitude materialista. * O sentido geral dessas mudanças é a solidificação do mundo, que torna as coisas mais conformes às concepções quantitativas, mecanicistas e materialistas, explicando o êxito prático da ciência moderna e a ausência de refutações ostensivas do meio ambiente. * Em épocas anteriores o mundo era menos sólido do que hoje. * A separação entre modalidade corporal e modalidades sutis era menos acentuada. * As faculdades humanas eram menos limitadas e percebiam o que hoje escapa totalmente. * Possibilidades de outra ordem refletiam-se no corporal e o transfiguravam. * Relatos de abundância de pedras preciosas podem ter sentido não apenas simbólico. * O sentido simbólico não exclui referência efetiva, pois toda coisa manifestada é símbolo de realidade superior. * O valor simbólico de fatos históricos e geográficos pertence a essa correspondência superior. * A ausência de testemunhos arqueológicos desses aspectos qualitativos explica-se porque os vestígios se solidificaram ao integrar o meio atual e porque os modernos os examinam com faculdades limitadas ao mais grosseiro, incapazes de perceber o que resta de mais sutil. * Vestígios atuais participam da solidificação e se ajustam às condições presentes. * O que não se ajustou pode ter desaparecido sem deixar traço. * Arqueólogos observam com olhos modernos e tratam os vestígios como mecanismos externos. * A incapacidade de notar elementos sutis acompanha mentalidade e faculdades igualmente limitadas. * A narrativa de que tesouros se tornam carvão e pedras vulgares para quem não é destinado ilustra a situação dos escavadores modernos. * A pesquisa histórica profana encontra barreiras no tempo, pois seu ponto de vista moderno limita o acesso às fases antigas, tornando relativa a antiguidade conhecida e instável a cronologia quando se recua além do horizonte comparativo do presente. * Uma primeira barreira situa-se por volta do século VI antes da era cristã. * A história assim concebida abrange apenas uma antiguidade relativa. * Escavações recuam mais, mas sem cronologia segura, com divergências de séculos ou milênios. * Civilizações mais remotas não se tornam inteligíveis por falta de termos de comparação atuais. * Mesmo a antiguidade clássica e a Idade Média são deformadas por historiadores modernos. * Achados mais antigos não ultrapassam aproximadamente o início do Kali-Yuga, que constitui segunda barreira. * Uma terceira barreira corresponderia ao último grande cataclismo, a desaparecimento da Atlântida. * Antes de ultrapassar esse ponto, o mundo moderno teria tempo de desaparecer. * Discussões profanas sobre idade de ouro, tradição primordial e dilúvio são vãs por estarem fora de alcance. * A negação moderna decorre de investigações fundadas em ponto de vista falso e estreito. * A pretensa superioridade moderna equivale à cegueira que negaria a existência da luz. * As limitações da história profana aplicam-se também à geografia, pois descrições antigas e medievais diferem das modernas sem que haja cataclismo correspondente, indicando perda de percepção moderna e atrofia de faculdades com a solidificação do mundo. * Comparações entre geógrafos antigos e modernos sugerem países quase diferentes. * Não há necessidade de recuar além da Idade Média para notar o contraste. * Explicar tudo por erro antigo é simplificação negativa que supõe perturbação generalizada anterior. * A hipótese inversa é que os modernos veem mal ou deixam de ver certos aspectos. * O lema de terra totalmente descoberta pode ser ilusão. * A redução do mundo antigo ao horizonte clássico ocidental é estreitamento indevido. * O desconhecido não é necessariamente misterioso para os antigos, mas torna-se assim para quem não compreende. * A sequência de maravilhas, curiosidades e leis gerais descreve etapas de limitação das faculdades humanas. * A geografia moderna nasce nos séculos XVII e XVIII, com a mentalidade racionalista. * Nesse momento as faculdades superiores estavam atrofiadas e o mundo solidificado. * A geografia tradicional inclui geografia sagrada e simbolismo geográfico que estabelecem correspondências com realidades superiores, exigindo percepção efetiva dessas correspondências e reconhecendo lugares favoráveis a influências espirituais ou a influências opostas do domínio sutil. * Uma ciência tradicional e uma ciência profana podem ter o mesmo nome e ainda assim estar separadas por abismo. * Há simbolismo geográfico como há simbolismo histórico. * A significação profunda provém do valor simbólico e da correspondência superior. * Certos lugares servem de suporte a influências espirituais e fundamentam centros tradicionais. * Oráculos antigos e lugares de peregrinação são exemplos exteriores desses centros. * Há lugares propícios a influências de caráter oposto e inferior do domínio sutil. * Expressões como porta dos céus e boca dos infernos designam tais disposições. * A espessura psicofisiológica do ocidental moderno impede sentir qualquer diferença nesses lugares. * A redução das comunicações entre corporal e sutil torna as percepções raras e difíceis. * A atrofia dessas faculdades na média humana permite ridicularizar relatos antigos. * Descrições de seres estranhos em relatos antigos podem resultar de confusões introduzidas por degenerescência tradicional, combinando sobrevivências simbólicas incompreendidas, manifestações de entidades e influências sutis, e eventualmente espécies corporais desaparecidas ou raras. * Parte das descrições deriva de sobrevivências de simbolismo já não compreendido. * Parte refere-se a aparências de entidades ou influências do domínio sutil. * Parte pode descrever seres corporais de espécies desaparecidas ou hoje excepcionalmente raras. * O mundo ainda pode conter desconhecidos apesar da convicção moderna contrária. * Discernir o fundo dessas descrições exigiria trabalho longo e fontes mais puras do que as disponíveis. * A rejeição total moderna persiste até que novos mudanças na figura do mundo abalem sua segurança ilusória.